Quem viveu os anos 80 e 90 lembra bem: quando Jorge José Emiliano dos Santos , o inesquecível Margarida , entrava em campo, o futebol ganhava trilha sonora, passinho e presença de palco.
Corria de costas, desfilava no meio da confusão e até o cartão amarelo vinha com coreografia.
Esqueça o juiz sisudo — aqui era carisma, ousadia e espetáculo.
Muito além do apito, Margarida transformou a arbitragem em atração. Em uma época em que ser diferente custava caro, ele ousou ser ele mesmo.
Assumidamente gay, tornou-se um dos primeiros árbitros profissionais a sair do armário no Brasil, virando símbolo de coragem e resistência em um ambiente ainda marcado pelo preconceito.
Do garoto de Copacabana ao ícone nacional
Nascido e criado em Copacabana, Jorge Emiliano aprendeu cedo a arbitrar nos jogos de praia, imitando os gestos de seus ídolos — especialmente Armando Marques . Aos 13 anos já apitava futebol de areia. O talento vinha junto com o estilo, e não demorou para chamar atenção dentro e fora das quatro linhas.
Seu carisma atravessou os gramados e conquistou a TV: passou por programas como Hebe , Viva a Noite , Passa ou Repassa , Agildo no País das Maravilhas e Os Trapalhões . Foi jurado, comentarista esportivo e presença constante onde houvesse plateia.
Sua história virou livro em 2012: Parada Dura: Memórias de um Juiz Gay do Futebol Carioca , de Anna Davies e Carlos Nobre.
Disciplina, espetáculo — e enfrentamento
A estreia profissional veio em 1988, num Flamengo x Volta Redonda, pela Taça Guanabara, no Estádio da Gávea. Não foi simples. A imprensa e parte da torcida atacaram sua “fisicalidade efeminada”. Margarida respondeu com firmeza e humor. Pouco depois, assumiu publicamente sua sexualidade e cravou uma frase histórica:
“Reconheci minha sexualidade para um país preconceituoso.”
À revista Placar , disse outra que ficou famosa:
“Eu posso ser gay longe do futebol, mas aqui eu sou macho.”
Nem tudo foram flores. Em 1989, numa partida da Taça Brasil de Futebol Feminino, após ofensas, perdeu a cabeça e precisou deixar o campo. Dias depois, fez do seu jeito: pediu desculpas oferecendo uma flor — charme como método de pacificação.
Seu estilo marcou tanto que inspirou outro árbitro, Clésio Moreira dos Santos , a adotar o apelido Margarida e seguir — literalmente — seus passinhos.
A despedida de quem nunca saiu de cena
A partir de 1992, Margarida enfrentou problemas graves de saúde. Diagnosticado com Aids e depois com tuberculose, tentou voltar aos gramados em 1994, mas o corpo já não permitia. Morreu em 21 de fevereiro de 1995, aos 40 anos, no Rio de Janeiro.
Saiu cedo. Ficou para sempre.
Hoje, Margarida é lembrado não só pela irreverência, mas pela coragem de existir como era, em campo aberto. Um árbitro que transformou o apito em manifesto, o cartão em performance e o futebol em espetáculo humano.
Matar a saudade é isso: lembrar que, um dia, o juiz roubou a cena — e fez história dançando.
