Cotidiano

Araçatuba terá 7 Grupos Reflexivos para homens, para tentar reduzir índice de violência doméstica

Cidade tem cerca de 1.000 homens com passagens pela Justiça por casos de violência contra a mulher para serem encaminhados para

Agência Trio Notícias
13/08/26 às 19h04
Parceria do município com o Judiciário foi assinada na quarta-feira (Foto: Lázaro Jr.)

No mês de conscientização pelo fim da violência doméstica e familiar contra a mulher, a Prefeitura de Araçatuba (SP) assume um importante compromisso com o Poder Judiciário, que é a criação de Grupos Reflexivos para Autores de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher.

A assinatura dessa parceria aconteceu em evento realizado na manhã de quarta-feira (12), no Salão Azul da Prefeitura, quando também foi assinado o Pacto Municipal de Enfrentamento à Violência contra a Mulher.

Segundo o que foi divulgado, o objetivo é reforçar o compromisso do município com a implementação, o fortalecimento e a institucionalização de políticas públicas voltadas à proteção das mulheres em situação de violência. E a criação dos Grupos Reflexivos é uma dessas medidas a serem adotadas.

Unidades

Durante o evento, o juiz diretor do Fórum de Araçatuba, Roberto Soares Leite, que também é juiz da 1ª Vara Criminal, informou que está definida a criação de seis grupos, um para cada Cras (Centro de Referência de Assistência Social) da cidade.

De acordo com ele, a FAC/FEA (Faculdade da Fundação Educacional de Araçatuba, mantida pela Fundação Educacional Araçatuba) também terá um grupo e o Unisalesiano já demonstrou interesse em participar.

No caso da FAC/FEA, a instituição inclusive sediou um projeto piloto do tipo em 2023, com a participação da Defensoria Pública, do Ministério Público, do Poder Judiciário e da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), que foi considerado um sucesso pelos organizadores.

Lei

O magistrado explicou que a criação dos Grupos Reflexivos está prevista na lei Maria da Penha desde 2022 e de lá para cá, tem se feito essa luta para a implementação. E nas comarcas onde o projeto já foi implantado, de acordo com ele, a reincidência é quase zero. Cabe ao Judiciário informar quais são os homens que devem ser enviados para o projeto. De acordo com o que foi apurado pela reportagem, haveria cerca de 1.000 nessa situação.

“É um projeto que vai agir na prevenção de crimes. A repressão existe, vai continuar existindo, mas o Estado, o Judiciário, a Prefeitura, todo mundo está se empenhando a fazer algo a mais, visando a diminuição da violência doméstica” , declarou, acrescentando que o esforço e dedicação para a implantação do projeto trará mais paz para as famílias.

Protagonismo

Durante o evento, o secretário municipal de Assistência Social, Edson Neves Terra Júnior, comentou que quando a atual administração municipal parou para pensar políticas públicas, não houve dúvidas de que a política para a mulher precisaria ter o protagonismo no município.

Ele fez questão de destacar a sensibilidade e a compreensão do Poder Judiciário, de que a violência vai além de uma simples responsabilização, de prender o agressor, e que ela pode passar também por penas alternativas de construção e de garantia de direitos.

“De fato o que nós buscamos é a transformação das pessoas, da consciência das pessoas. A gente sabe que o término da violência passa primeiro por uma construção da consciência” , argumentou.

Metodologia

Ainda de acordo com o secretário, a secretaria tem se debruçado com as universidades para construir uma metodologia própria, contextualizada para atender a realidade do município. Ele considera que a assinatura do pacto é uma garantia de implementação dessa rede.

"Penso como tem sido importante pessoas qualificadas, com sensibilidade de entender as demandas do município para que a gente consiga de fatos desenvolver as políticas públicas do município” , comentou.

Por fim, Terra Júnior destacou a importância da parceria com o Estado, tanto com recursos financeiros como com capacitação, e explicou que a ideia é ampliar com a criação de mais Grupos Reflexivos, e que se consiga garantir esses avanços com a criação de leis, decretos, resoluções e portarias. “É assim que nós avançamos, que iremos avançar de fato de uma forma consistente” , declarou.

Defensoria

Quem também participou do evento foi a defensora pública Nelise Santos Ogawa, como membro do Núcleo de Proteção e Defesa das Mulheres, do qual ela faz parte. Ela contou que a necessidade do projeto dos Grupos Reflexivos surgiu durante os atendimentos realizados por ela na Casa da Mulher Paulista.

Segundo a defensora, ao conversar com as mulheres vítimas de violência, ela via os mesmos agressores, voltando com vítimas diferentes. “Então vamos conversar com esses homens, no sentido não de passar a mão, mas de responsabilização e reflexão, que é como prevê a lei Maria da Penha, que está fazendo 20 anos” , argumentou.

E ela cobrou que consiga efetivamente tirar do papel grandes projetos que a lei Maria da Penha, que considera riquíssima e exige contínua formação e funcionamento em rede.

Nelise fez questão de agradecer as polícias Militar e Civil e a Guarda Municipal por fazerem parte do projeto, com a capacitação das mulheres que atuarão nos programas de atendimento à mulher vítima de violência. Para ela, Araçatuba tem tudo para ser uma referência nesse sentido, pela estrutura envolvida.

A secretária estadual de Políticas para a Mulher, Adriana Liporoni, esteve em Araçatuba (Foto: Lázaro Jr.)

Surpreendeu

A secretária estadual de Políticas para a Mulher, Adriana Liporoni, esteve em Araçatuba na quarta-feira e fez questão de participar da cerimônia na Prefeitura. Ela considerou o município muito engajado nessa problemática, com vários programas já implantado.

Adriana disse que inclusive se surpreendeu por ter encontrado o projeto dos Grupos Reflexivos já em implantação na cidade. Esse é um dos programas oferecidos pela Secretaria Estadual de Políticas para a Mulher, com a possibilidade inclusive de fornecer as salas para a criação dos grupos.

Ela colocou a secretaria à disposição para oferecer cursos de capacitação e sugeriu que o município pode avançar ainda mais, criando uma diretoria, uma coordenadoria ou quem sabe, até uma Secretaria de Políticas para a Mulher, que seria o sonho maior. “Quando Estado e municípios se unem nessa causa, os resultados são muito mais efetivos” , afirmou.

Adriana justificou que é nos municípios que as coisas acontecem, onde as mulheres vivem, trabalham e têm as questões mais complexas a serem solucionadas. “E é essa união que faz a diferença, a união entre órgãos, os setores do sistema de Justiça, entre municípios, entre a rede de apoio e a sociedade civil” , disse.

A secretária afirmou ainda que a carreta do Circuito Integrado de Proteção às Mulheres – SP Por Todas, que atende na praça Rui Barbosa em Araçautba até esta sexta-feira (14), tem o objetivo de mostrar que essa união é importante.

Primeira-dama sugere a criação de projeto com crianças de prevenção à violência doméstica

Sugestão da primeira-dama de Araçatuba, Priscila Zanatta (Foto: Lázaro Jr.)

A primeira-dama de Araçatuba, Priscila Zanatta, que também é presidente do Conselho Deliberativo do Fundo Social, sugeriu durante evento para assinatura de dois pactos voltados à proteção da mulher vítima de violência, que seja criado um grupo para tratar o assunto com as crianças.

A ideia, de acordo com ela, é desenvolver algo parecido com o Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência) que é desenvolvido pela Polícia Militar nas escolas de ensino fundamental, para ensinar as crianças a tomarem decisões seguras, lidarem com a pressão dos colegas e rejeitarem as drogas e a violência.

Na visão dela, seria importante dizer para as crianças que mulher se respeita, que em mulher não se bate, que mulher não se xinga. Priscila argumentou que muitas mulheres hoje não apanham fisicamente, mas apanham com palavras, que deixam cicatrizes que são muito difíceis de tirar. “Quem sabe no próximo ano não possa ser lançado um projeto para tratar a causa” , se referindo à esse trabalho de prevenção com as crianças.

Prevenção

Para a primeira-dama, a criação dos Grupos Reflexivos também será muito importante nesse sentido, pois também é um plano de fato efetivo, que pode resolver a causa do problema, tratando os agressores para que eles não voltem a agredir.

Ela revelou que o próprio secretário municipal de Segurança Pública, Júlio César dos Santos sugeriu, há um tempo atrás, durante uma conversa, que fosse implantado um projeto nesse sentido na cidade, pois até então a ação era toda focada nas vítimas, mas precisava forcar no agressor, pois estava-se apenas remediando o problema. 

Projeto é realização de um sonho da vice-prefeita Nice Zucon (Foto: Lázaro Jr.)

Realização de sonho

Essa também é a visão da vice-prefeita Nice Zucon (PL), que considera a implantação dos Grupos Reflexivos importantes, argumentando que para se ter sucesso no combate à violência contra a mulher, é preciso atacar “a célula que contamina toda uma vida, toda uma história, toda uma família, toda uma cidade, uma geração, um após e um mundo” , se referindo ao agressor.

Assim, ela vê nesse projeto, a realização de um sonho dela de muitos anos, que enfim está sendo executado. “Nas nossas mãos está a responsabilidade de fazer a diferença. Araçatuba hoje marca, com muita firmeza, um pacto para mudar o rumo da história” , declarou.

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