Cultura

Araçatubense vence concurso nacional de poesias

Fernanda Colli, de 33 anos, foi vencedora da categoria "Adulto" no IV Concurso Nacional de Poesia: A Poesia de Cada Ser

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba
16/08/21 às 21h34
(Foto: Aniuska Carteado/Divulgação)

Com o título "Mulher, jovem, preta, pobre, solteira, mãe, brasileira", a araçatubense Fernanda Colli, de 33 anos, foi vencedora da categoria "Adulto" no IV Concurso Nacional de Poesia: A Poesia de Cada Ser, realizado pela Casa de Cultura Euclides da Cunha, de São José do Rio Pardo (SP). 

Fernanda concorreu com mais de 800 poesias enviadas de todo Brasil, além de pessoas que residem em outros países, como Canadá, Portugal e Bélgica. O resultado dos vencedores do concurso foi divulgado por meio de live no último sábado (14). 

Além do prêmio em dinheiro, Fernanda também terá sua poesia publicada na página “A poesia em cada ser” e receberá uma medalha Euclides da Cunha. 

"O poema é uma reflexão de todos os rótulos e responsabilidades que atribuem às mães jovens, principalmente as que estão às margens da sociedade. E o fator ser mãe é uma missão tão grande, que nós mulheres, jovens ou nem tão  jovens, transferimos nossas prioridades para os nosso filhos. E são tantas metodologias e análises, que nenhuma serve sequer para a realidade que enfrentamos", diz Fernanda, que destaca que essa é a primeira vez que ela participa de um concurso de poesia. 

Reconhecimento

Para Fernanda, o prêmio é um reconhecimento de sua atuação na área cultural, não somente em Araçatuba quanto fora do município. "Esse prêmio vem para mostrar a Fernanda escritora, que é uma parte muito importante. Para quem é caipira, que se identifica como caipira e faz parte dessa cultura, receber um prêmio concorrendo com mais de 800 poemas do Brasil todo, com um texto que não é da cultura caipira, representa muito. Estou bem feliz". 

Fernanda tem dois livros publicados: "Um conto de fadas à moda caipira 1", publicado pela editora Scortecci em 2020, e "Um conto de fadas à moda caipira 2", lançado neste ano. O terceiro volume deve ser lançado até o final do ano. 

Atuação

Além de ser mãe de duas meninas, atualmente desenvolve várias atividades no segmento cultural. Fernanda é um dos maiores nomes da catira nacional. Em Araçatuba, criou, há mais de dez anos, o projeto Folclorear, que trabalha com danças típicas do Brasil, levando a temática para alunos de escolas do municipais.

É presidente da comissão da juventude da IOV Brasil (Organização Internacional de Folclore e Artes Populares), reconhecida pela Unesco como a maior organização de cultura popular do mundo, e do Conselho Municipal de Políticas Culturais de Araçatuba.

É membro da UBE (União Brasileira de Escritores), do grupo experimental da AAL (Academia Araçatubense de Letras), da Associação Brasileira de Alfabetização e da Associação Brasileira de Psicopedagogia. É colunista em algumas revistas e sites e coordenadora da comissão de arte e cultura de BPW Brasil de Araçatuba. 

Fernanda é pedagoga, psicopedagoga, com formação em artes e letras, e graduanda em história. Também faz pós-graduação em cultura popular, além de estudar outras área do conhecimento.

Confira a poesia vencedora: 

Mulher, jovem, preta, pobre, solteira, mãe, brasileira (Fernanda Colli)

"Mulher, jovem, preta, pobre, solteira, mãe, brasileira

Perdi minhas roupas junto com meu espelho,

Minhas amigas não me chamam mais pra sair

A marca que tenho já não é a do batom vermelho,

Psiu, fale baixo, ele está a dormir.

Tentei ligar pro pai, só que ele não atende mais,

Minha mãe já me deu um prazo para me reorganizar

A professora me ligou ofereceu ajuda até, mas não sei...

Psiu, fale baixo deixe o menino ninar.

Desci a ladeira para comprar pão,

Sussurros e olhares a me fuzilar,

Amanhã talvez para o pão nem tenha mais um tostão,

Psiu, fale baixo, deixe o menino descansar.

Não tô mais me importando com minha vida,

Debutei no hospital com pessoas forçando minha barriga,

E da dor e do horror vi a coisa mais linda surgir,

É só por você meu filho, que continuo a seguir,

Virei número para estudos antropológicos

Tema de falas militantes, não militantes, conservadores, militar,

Mas a realidade é diferente, tô precisando de ajuda realmente,

Psiu, deixa o menino descansar.

Eu só queria uma oportunidade, não de sumir da cidade,

Mas talvez só de sair,

Não é pra balada que quero, é pra entregar currículo, começar do zero,

Mas psiu, deixa o menino dormir.

Eu tô aqui pensando lá na proposta do chefe,

Eu ganho escolinha, fralda, comida e onde ir,

É só eu me corromper para o outro lado,

Já não sei, mas deixa o menino dormir.

Não me importa em ser estatística,

Zuada, apontada como egoísta,

Porque meu egoísmo se resume em poder conseguir,

Nem que eu sucumba, apanhe, trafique, não durma,

O mundo é duro mais quero que você sonhe,

Igual aos sonhos que um dia eu tive em viver longe, partir,

De ser médica, estudar, ter uma grana boa, casa pra morar,

Mas sou preta, pobre, jovem mãe solteira,

E já sei que viva não saio mais daqui,

E por isso quero que sonhe, sonhe bem alto além do horizonte,

Além das estatísticas, da bala, da fome, do tráfico, milícia,

Que o resto que resta de meu resto de vida

Mostre pra você que o mundo é muito maior e melhor que isso aqui,

Quero que estude, que ame, que seja, que exista,

Seja diferente dessa tal estatística,

E te darei tudo o que não tive, para que entenda

Que só amor salva e nos faz resistir.

Vou lutar por você, filho meu,

Psiu, falo baixinho, agora pode dormir."

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



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