"PS, não se esqueça de respirar"
Além do enredo a princípio um tanto confuso, este é um filme que parece feito exclusivamente por pessoas que veem o mundo ao seu redor desmoronar; é uma ironia dolorosa que esteja saindo não apenas no meio de uma pandemia, mas à medida que os conflitos políticos globais se intensificam. É, coincidentemente, adequado para o período de tempo específico em que nos encontramos. Desde ‘Melancholia’, do superestimado Lars Von Trier, nenhum filme retratava de forma tão esmagadora e precisa a depressão clínica e a sensação de querer pular no abismo. E, no entanto, este filme é tudo menos desesperador.
No exato momento em que a trama está prestes a acelerar, Evelyn lê um conselho vital: “PS, não se esqueça de respirar”. Realmente, é um recado para o público – um aviso necessário para, nas palavras do Sr. Arnold de ‘Jurassic Park’, segurar seus traseiros. Porque uma vez que começa, raramente para – um ataque cinematográfico total, uma cacofonia de criatividade que deslumbra, encanta e desafia a explicação a cada segundo que passa.
Roteiro
A maior parte da ação do filme se passa em um prédio de escritórios do ‘Internal Revenue Service’ (Departamento da Receita Federal dos EUA) em Simi Valley onde Evelyn tenta lutar, algumas vezes literalmente, contra a auditora Diedre, — interpretada por Jamie Lee Curtis em um dos papeis de sua vida —, e uma tropa de chefes de segurança. O designer de produção Jason Kisvarday cria um escritório aparentemente interminável, cheio de cubículos, onde tudo, desde a lâmina de um aparador de papel, ganha destaque.
O ritmo vertiginoso da edição combina acertadamente com o diálogo frenético do roteiro, composta por camadas de diferentes universos se desdobrando simultaneamente enquanto impulsionam a jornada interna de Evelyn. As transições combinam perfeitamente os universos, enquanto os cortes divertidos ajudam a enfatizar o humor intrínseco à narrativa do longa. Cada universo tem uma aparência distinta, com referências cinematográficas que vão de ‘The Matrix’ à ‘The Fall’ à ‘2001: A Space Odyssey’ à ‘In The Mood For Love’ a até mesmo à ‘Ratatouille’.
O longa é produzido por Joe e Anthony Russo, pilares anteriores do Marvel Studios, e foi lançado nos EUA enquanto os ruídos de ‘Spider-Man: No Way Home’ ainda ecoam nos cinemas, o que é irônico, porque com uma fração de seu orçamento, ‘Everything Everywhere All at Once’ contribui para uma “produção multiverso” infinitamente melhor do que qualquer filme de super-heróis já chegou perto, até então. Um filme que realmente parece abranger tudo, em todos os lugares, ao mesmo tempo.
‘Everything Everywhere All at Once’ é um filme complexo que engloba uma variedade de assuntos, mas faz justiça a cada um deles com um roteiro cuidadosamente escrito, performances maravilhosas e uma dose saudável de humor bizarro para contrariar sua história sombria. Michelle Yeoh, em particular, entrega uma performance poderosa em uma história que subverte a noção comum de multiverso e prova mais uma vez (como se ainda fosse necessário) que a produtora americana A24, responsável por viabilizar a produção do longa, não erra.
Título Original: Everything Everywhere all at Once
Estreia: 25 de março de 2022 (Estados Unidos)
Duração: 146 minutos
Gênero: Aventura/ Ficção científica
Direção: Daniel Kwan, Daniel Scheinert
Elenco: Michelle Yeoh, Jamie Lee Curtis, Stephanie Hsu, Ke Huy Quan, James Hong, Tallie Medel e Jenny Slate.