Cultura

Biblioteca comunitária leva literatura a bairros de Araçatuba há 20 anos 

Espaço é mantido pelo Rotary Club Araçatuba Cruzeiro do Sul, na Base da Polícia Militar

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba 
03/11/19 às 11h00

Com o Dia Nacional do Livro, comemorado na última terça-feira (29), mostramos a história de uma biblioteca de Araçatuba que é pouco conhecida do grande público, mas que há 20 anos é um símbolo de resistência da literatura.

Localizada no bairro Hilda Mandarino, na Base Comunitária da Polícia Militar, a biblioteca é mantida pelo Rotary Club Araçatuba Cruzeiro do Sul, por meio de trabalhos voluntários. A ideia da criação foi concebida por Maria Hermínia Salibe, entre 1998 e 1999, destaca a professora e voluntária do Rotary, Leda Maria Cruz Geralde.

A responsável pelo espaço, há um ano e meio, é Cláudia Maria de Almeida Prado. Ela conta que a biblioteca guarda mais de três mil obras, entre livros e gibis, aproximadamente, segundo levantamento prévio que está sendo feito no local.

“Sou de Araçatuba, mas morei em São Paulo por 30 anos. Quando voltei para cá, conheci uma pessoa do Rotary e eu disse que queria fazer algum trabalho voluntário com crianças, e então me falaram da biblioteca”, explica.

Atrativos

Como a biblioteca estava com uma frequência baixa, assim que assumiu a responsabilidade, Cláudia pensou em alternativas para chamar atenção principalmente dos jovens.

Entre as atividades da biblioteca, está a contação de história (Foto: Divulgação)

Uma das ações foi visitar escolas do bairro, no caso as Emebs (Escolas Municipais de Ensino Básico) Euza Neuza Marcondes e Esther Gazoni, foi oferecer uma oficina de teatro aos estudantes, em parceria com voluntárias do Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). Ela iniciou a divulgação da atividade, que aconteceria na biblioteca, e muitos alunos começaram a conhecer o espaço por meio disso.

Outro projeto que Cláudia destaca é com a pianista e professora Maria Zei Biagioni, que desenvolveu uma atividade com o Hino Nacional com as crianças das escolas, no ano passado. Participaram 30 estudantes, sendo que desse número, 10 começaram a frequentar a biblioteca.

Mais uma iniciativa aconteceu com a ajuda da biblioteca municipal Rubens do Amaral, que cedeu alguns contadores de história para o espaço no Hilda. E por meio da AAL (Academia Araçatubense de Letras), integrou o projeto “Jovens Escritores”, que resultou na criação de um jornal. A ideia é retomar a atividade no ano que vem.

“A biblioteca é bastante ativa. Se eu fosse esperar que eles (estudantes) viessem por conta própria, sentassem e lessem, não vem ninguém”, destaca Cláudia.

Espero tem mais de três mil obras, estima responsável pelo espaço (Foto: Manu Zambon)

Atendimento

Para o subtenente da base, Sidney Ricardo Barreto, a biblioteca é um aporte não só para a comunidade do Hilda, como de outros bairros, como Araçatuba G, Àgua Branca e adjacências, “levando conhecimento, cultura, entretenimento através de cursos, palestras e leitura, permitindo que a comunidade possa interagir com a Polícia Militar e ter uma proximidade”.

Funcionamento

Muitos frequentadores também usam o local para estudar, como acontece em qualquer biblioteca. Nesse sentido, Cláudia destaca a gama de apostilas de escolas particulares que foram doadas.

O local também tem computador que fica à disposição da comunidade e wi-fi. Cláudia ainda ajuda os alunos que querem prestar Etec, imprimindo provas anteriores para quem pede e ajudando em alguns exercícios.

A biblioteca fica na rua Joaquim Cândido, 1631, e fica aberta de terça e quinta-feira, das 9h às 12h, e das 14h às 17h. Qualquer pessoa, incluindo moradores de outros bairros, podem pegar livros emprestados. Não há prazo limitado para a devolução do material. “O importante é a pessoa ler”, ressalta Cláudia.

Todas as obras foram adquiridas por meio de doações do Rotary e da comunidade. De acordo com Cláudia, os frequentadores do local podem encontrar nas estantes desde clássicos nacionais, como a coleção de Monteiro Lobato, até títulos de escritores internacionais, como Agatha Christie e J. K. Rowling, autora da saga Harry Potter.

“Eu enxergo esse trabalho, na atual condição da cultura, onde principalmente os livros têm perdido seu status, como algo fabuloso. Temos que manter esse gosto pela leitura em nossos jovens. A importância desse projeto é muito maior do que há 20 anos, porque naquela época os livros não estavam tão esquecidos como hoje”, conclui Leda.

Atividades aproximaram estudantes

Mariana e Vitória são frequentadoras assíduas da biblioteca (Foto: Manu Zambon)

As estudantes Vitória da Silva Pereira, de 10 anos, e Mariana Santos de Oliveira, 11, de Araçatuba, nem sequer tinham entrado na biblioteca comunitária mantida pelo Rotary Club Araçatuba Cruzeiro do Sul, no bairro Hilda Mandarino.

Mariana viu o panfleto na escola sobre a biblioteca, sentiu curiosidade e foi conhecer o espaço. Ela participou do projeto do Hino Nacional, no ano passado, e nunca mais deixou de frequentar o local.

“Eu não gostava de ler. Só lia por obrigação para as provas da escola. Mas agora eu gosto de ler”. Mariana explica que gosta de ler na biblioteca e não em sua casa, por conta do barulho da rua. Entre suas leituras, ela destaca “Meu Pé de Laranja Lima”, de José Mauro de Vasconcelos. Agora, ela quer iniciar “Diário de um Banana”, de Jeff Kinney.

“Eu mudei meu comportamento. Era muito rebelde, não aceitava um ‘não’. Mas mudei por causa da biblioteca; comecei a ver que não era tudo à base do sim. A Cláudia (responsável pela biblioteca) me ajudou a gostar de ler. Meu diálogo melhorou bastante. Hoje, leio bastante sem ser por obrigação. Às vezes pego dois livros pra ler, mas nem sempre dou conta de ler por causa das provas”.

Gibis

Já Vitória frequenta o local há menos tempo, quando começou a fazer a oficina de teatro neste ano. Ela também ficou sabendo da atividade na escola.
“Vi que aqui tinha muitos livros legais. Às vezes eu pego e levo pra casa e às vezes leio para o meu irmão mais novo”, destaca Vitória, que destaca que sus obras favoritas são de gibis. MZ

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