Não é nenhuma novidade que a estética do diretor Wes Anderson é bastante característica na grande maioria de suas obras. Eficientes na emulação de uma atmosfera onírica e que flertam com o arcabouço de fábulas e contos de fada, a sua visão tende a mirar histórias simples e que costumam transmitir doces reflexões sobre a natureza. ‘A Crônica Francesa’ é mais uma evidência da delicada habilidade de seu diretor para com a composição visual, mas que infelizmente também denuncia alguns possíveis desgastes de sua própria assinatura.
Por ocasião da morte do seu editor Arthur Howitzer Jr., interpretado por Bill Murray, uma revista americana de ampla circulação, publicada numa cidade francesa fictícia do século XX, acaba fechando as portas. Com sede na cidade francesa de Ennui-sur-Blasé, que se traduz como “Tédio sobre Apatia”, a equipe do veículo reúne-se para escrever o seu obituário.
Consequentemente, as memórias de Howitzer fluem para a criação e publicação de três artigos. A trama acompanha as histórias destes artigos, que possuem estilos completamente diferentes e que acabam servindo de fio condutor narrativo para o filme.
“A Obra-Prima Concreta” retrata a vida de um pintor criminalmente louco vivido por Benicio Del Toro, que está preso por duplo homicídio e ganha muita notoriedade no mundo da arte; “Revisões a um Manifesto” é uma crônica de amor e morte no auge da revolta estudantil, liderada por um jovem interpretado pelo Timothée Chalamet; “A Sala de Jantar Privada do Comissário de Polícia” é uma história que envolve perseguição e solução de um sequestro acometendo, principalmente, o personagem de Jeffrey Wright.
No meio disso tudo, há um prólogo e um epílogo contando um pouco mais da rotina na redação daquela revista.
Entre inspiração e tributos, Wes Anderson alinha a revista fictícia ‘French Dispatch’ à revista ‘The New Yorker’, uma das revistas de cultura mais importantes jamais criadas em qualquer idioma, consagrada por um padrão especial de formatação de texto e também de ilustrações.
Jornalismo
Não à toa, o marketing do filme priorizou o fato do filme ser uma espécie de “carta de amor ao jornalismo”, até porque esta é uma das principais reflexões feitas no filme. Essa reflexão é particularmente interessante no Brasil, onde o atual governo parece manter uma cruzada interminável contra a imprensa e a cultura.
O impacto visual e idiossincrático de ‘The French Dispatch’ é muito grande. A simetria, as composições do diretor, a atenção aos detalhes e a impecável direção de arte, apresentam um padrão tão demasiadamente elevado, que em alguns momentos parecem remeter às obras do cineasta francês Jacques Tati, um gênio da pantomima. Elementos cinematográficos estes, aliás, que eu tenho certeza de que foram fontes de inspiração para este filme.
A edição do longa é perfeita. E, no entanto, os eventos de cada história e as histórias em si, vão se sucedendo com uma rapidez muito grande. Há a imensidão de um mundo ali e, infelizmente, você mal consegue abarcar o que está vendo. Nada obstante, o longa explora pormenores de linguagens visuais e orais, com diálogos refinados e, afiadamente, irônicos.
De certo modo, isto é fascinante. ‘A Crônica Francesa’ é um filme belíssimo, para se olhar e admirar todas as construções feitas pelo diretor Wes Anderson. Mesmo em seus momentos morosos, o longa transborda primor técnico. É tecnicamente impecável, superlativo. Contudo, ao considerar a qualidade de todos os nomes envolvidos e também a história propriamente dita, é um filme que possui as suas restrições.
Título Original: The French Dispatch
Estreia: 18 de novembro de 2021 (Brasil)
Duração: 107 minutos
Gênero: Comédia Dramática
Direção: Wes Anderson
Elenco: Benicio Del Toro, Adrien Brody, Tilda Swinton, Léa Seydoux, Frances McDormand, Timothée Chalamet, Lyna Khoudri, Jeffrey Wright, Mathieu Amalric, Steve Park, Bill Murray, Owen Wilson, Bob Balaban, Henry Winkler, Lois Smith, Tony Revolori, Denis Ménochet, Larry Pine, Morgane Polanski, Christoph Waltz, Cécile de France, Guillaume Gallienne, Willem Dafoe, Liev Schreiber, Edward Norton, Saoirse Ronan, Elisabeth Moss, Griffin Dunne, Anjelica Huston.
