Cultura

‘Cidade Perdida’, aventura estrelada por Sandra Bullock, tem de tudo e quase nada

“Em um mergulho instrumentalizado nos anais do cinema de comédia e em sua pluralidade histórica, o longa apresenta uma certa gramática visual típica às produções do gênero”

Valter Soares de Souza Junior*
24/04/22 às 16h00
(Foto: Divulgação)

Não são necessárias mais do que três cenas de ‘The Lost City’ (Cidade perdida) para deixar evidente o incenso que os diretores-irmãos Adam e Aaron Nee nutrem pelos filmes de aventura.

Em um mergulho instrumentalizado nos anais do cinema de comédia e em sua pluralidade histórica, o longa apresenta uma certa gramática visual típica às produções do gênero — permeado por uma fotografia ostensiva, diálogos tipicamente cafonas e atalhos narrativos previsíveis, embora, nem sempre tediosos —, que servem para explicitar uma dispensa consciente a qualquer sutileza. Já a Paramount, por si, traz um novo filme aos holofotes que não seja voltado à temática de heróis ou personagens conhecidos de outras mídias.

O roteiro, assinado por Oren Uziel, Dana Fox e pelos próprios Irmãos Nee, usa uma premissa naturalmente cômica (e inesperadamente inteligente) como pretexto para empregar basicamente quase todas as linguagens de humor possíveis em um mesmo filme: Loretta Sage (vivida por Sandra Bullock, que também produz o longa), uma bem-

sucedida – mas frustrada – escritora de romances eróticos inspirados em mitos históricos de civilizações indígenas, está na promoção de seu novo livro com o modelo Alan (Channing Tatum), que personifica o herói de suas aventuras.

Em depressão pela morte de seu marido, um inovador arqueólogo, ela decide implodir sua carreira quase que ao mesmo tempo em que se torna alvo de um excêntrico bilionário (vivido por Daniel Radcliffe), empenhado em usá-la para encontrar uma lendária cidade perdida, citada em um de seus livros. Sequestrada pelo ricaço, ela conta com a ajuda de um grupo disfuncional em uma missão potencialmente suicida de resgate pela floresta: o nada brilhante modelo de capa de seus livros, sua agente neurótica (Da'Vine Joy Randolph), uma fútil analista de redes sociais (Patti Harrison) e um implacável aventureiro contratado (Brad Pitt).

Falta profundidade

A introdução do filme, o desenvolvimento da aventura e a apresentação dos personagens são muito boas. Do humor físico ao discursivo, passando pelo romântico e o metalinguístico, quando o longa explora a relação que envolve os personagens centrais, consegue arrancar boas risadas, apresentando a possibilidade de um humor mais inteligente como sinal de seu mergulho aparentemente intencional na bobeira. Até que, no entanto, em dado momento ocorre um evento relevante na história que, pessoalmente, tornou a experiência chata e repetitiva, além de extremamente cansativa. E, infelizmente, não houve mistério ou qualquer tipo de perseguição posterior capaz de salvar o argumento.

Tributos e reverências à parte, a produção compartilha inúmeras decisões criativas quanto à trama e personagens, já exploradas em 1984 no longa ‘Romancing the Stone’. Certas tomadas podem, até mesmo, serem consideradas cópias. Além disso, desafetos do roteiro regular, o filme não tem um bom antagonista e acaba por desenvolver a ação de forma precária. Devido à falta de profundidade, algumas vezes o espectador pode até acabar esquecendo do vilão e o filme se transforma apenas em uma simples caça ao tesouro, mas com um opositor rebaixado ao papel terciário.

Apesar disso, ‘Cidade Perdida’ entrega momentos divertidos, sem dúvidas. Um ponto bastante positivo no filme é como o humor faz crítica a determinados aspectos sociais e, ao mesmo tempo, tenta colocar alguma diversidade despretensiosa no filme, como o fato de a história principal acontecer em uma ilha de língua latina.

Repleto de clichês, a produção não é exatamente uma novidade, já que os elementos de tantos outros filmes de caça ao tesouro que envolvem o resgate da mocinha, infelizmente, estão todos lá. Contudo, certamente é um bom entretenimento. E num mundo onde produções do gênero dominam plataformas de streaming, possivelmente o longa vai performar infinitamente melhor no universo digital do que no universo dos cinemas.

Título Original: The Lost City

Estreia: 21 de abril de 2022 (Brasil)

Duração: 112 minutos

Gênero: Ação/Aventura

Direção: Aaron Nee, Adam Nee

Elenco: Sandra Bullock, Channing Tatum, Daniel Radcliffe, Da´Vine Joy Randolph, Oscar Nuñez, Patti Harrison, Bowen Yang, Brad Pitt.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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