Cultura

‘Eduardo e Mônica’, música e cinema que se completam (que nem feijão com arroz)

“Uma obra cheia de nuances, cativante e que apresenta elementos comuns do cotidiano à dois"

Valter Soares de Souza Júnior*
13/02/22 às 16h00
(Foto: Divulgação)

Quando na música "Eduardo e Mônica" Renato Russo descreve uma história de amor sobre duas pessoas absolutamente distintas uma da outra, pouco se considera o quão difícil seria viver esse romance na prática.

O fato é que a realidade acaba sendo bem distante do romance que os versos da canção propõem e, certamente, há um momento em que a própria vida exige sintonia nos passos em que damos. O filme "Eduardo e Mônica" traz esse momento de consciência de forma sutil e discreta, revelando as engrenagens de um amor inesperado exatamente como acontece na vida real.

O que se mostrou inicialmente ser uma canção com um romance moderno sobre opostos se atraindo, acaba se tornando, na realidade, um conto adulto e urbano: com longos expedientes, cansaço mental, parentes repletos de pré-conceitos, grupos de amigos com diferentes costumes e distâncias que são mais difíceis de lidar do que o esperado. Nesse sentido, a direção do filme busca se equilibrar entre um bem-vindo naturalismo e a idealização crescente, evidenciando que as coisas são diferentes na vida real, mesmo apresentando um final feliz como o próprio músico propusera.

Reflexão

"Eduardo e Mônica" é, sobretudo, um filme sobre paixão e para os apaixonados — mas não no sentido de entregar uma comédia romântica repleta de elementos escapistas para dias difíceis. O longa promove uma reflexão praticamente universal sobre a romantização das diferenças e como a realidade pode ser um tanto dura para os românticos incorrigíveis.

Conforme se desenvolvem em tela, tanto Eduardo quanto Mônica se mostram complexos o bastante para não serem reduzidos aos adjetivos que já conhecíamos pela música, conferindo ao filme um frescor que é amplificado pela qualidade visual apurada da produção.

Lacunas

O roteiro preenche bem as lacunas deixadas pela canção de Renato e passeia com afinco por vários trechos da música, alguns de maneira sutil outros nem tanto, mas todos apresentados de modo eficaz. Alice Braga e Gabriel Leone são apaixonantes em cena. Ele, convence no papel de um adolescente, cheio de inseguranças e que com o tempo amadurece. Já ela, apresenta uma Mônica repleta de dilemas, que é complicada, porém, muito cativante, percorrendo com credibilidade o caminho até o amor. Ambos “tiram de letra” o fato de serem um pouco mais velhos do que os personagens imaginados na canção.

Ao usar de uma montagem assertiva, vamos conhecendo o dia a dia de cada um: o que fazem, os caminhos que percorrem, as pessoas que encontram até que finalmente os dois acabam juntos, na tão comentada “festa estranha com gente esquisita”. A cinematografia do filme também colabora para a imersão do espectador, com paisagens que muitos não sabiam existir no planalto, como os vastos campos floridos e as cachoeiras, assim como, a cena do senado onde o casal brinca com as sombras refletidas nos edifícios. 

Em última análise, "Eduardo e Mônica" constitui uma ótima adaptação musical, por diversos motivos. Primeiro, por conseguir lidar de maneira equilibrada com a canção original e a memória do Legião Urbana, sem converter o resultado num filme-homenagem servil.

Segundo, por preservar as pontes com a contemporaneidade, facilitando a leitura do espectador. Uma obra cheia de nuances, cativante e que apresenta elementos comuns do cotidiano à dois. Embalados por uma trilha sonora capaz de fazer o público cantar a cada nova cena, o casal principal emula sentimentos, vivências e muitas histórias sobre amores, desamores, partidas, chegadas e recomeços.

(Foto: Divulgação)

Título Original: Eduardo & Mônica

Estreia: 20 de janeiro de 2022 (Brasil)

Duração: 114 minutos

Gênero: Drama/Romance

Direção: René Sampaio

Elenco: Alice Braga, Gabriel Leone, Juliana Carneiro da Cunha, Otávio Augusto, Victor Lamoglia.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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