Cultura

Fiel, porém inventiva, nova adaptação de ‘Duna’ é um espetáculo visual bem regido e tecnicamente impecável

"Considerado um dos textos mais influentes da ficção-científica e, continuadamente apontado como um dos pilares do gênero moderno, ‘Duna’ é o primeiro de uma série de seis livros escritos por Frank Herbert ao longo de vários anos"

Valter Soares de Souza Junior*
24/10/21 às 18h20
(Foto: Warner Bros. Pictures & Legendary Pictures)

Uma das coisas mais difíceis de definir e uma das mais incríveis do cinema, é a propriedade que certos cineastas possuem de transformar a imagem em algo completamente pessoal. A capacidade de imprimir em suas obras caraterísticas próprias.

Nesse sentido, o franco-canadense Denis Villeneuve já provou ser um dos maiores e mais proeminentes diretores de sua geração. E talvez, seja esse o mais decisivo dos elementos que torna sua versão de ‘Duna’ um grande filme.

Considerado um dos textos mais influentes da ficção-científica e, continuadamente apontado como um dos pilares do gênero moderno, ‘Duna’ é o primeiro de uma série de seis livros escritos por Frank Herbert ao longo de vários anos e, lançados a partir de 1965. A trama narra um futuro distante no meio de um império intergaláctico feudal em expansão, onde feudos planetários são controlados por “casas nobres” que devem aliança à uma certa casta imperial.

Nesse cenário, Paul Atreides é um jovem cuja família toma controle do planeta deserto Arrakis, também conhecido como Duna. Habitado por nativos fanáticos religiosos chamados Fremen, Arrakis é absolutamente desértico e sem água, e embaixo de suas areias intermináveis vivem gigantescos vermes de areia que são atraídos por qualquer ruído rítmico.

O que torna Arrakis tão interessante para esse império intergaláctico criado por Herbert, é que o planeta é a única fonte da especiaria melange, a substância mais importante do cosmos, capaz de alterar a percepção e tornar possível a viagem interestelar. Logo, não há nada no universo habitado que seja mais precioso do que a tal especiaria e, consequentemente, nada é mais lucrativo do que explorá-la.

Enquanto diferentes forças explodem em conflitos pelo fornecimento exclusivo do recurso mais precioso existente no planeta, um produto capaz de libertar o maior potencial da humanidade, a história explora as complexas interações entre política, religião, ecologia, tecnologia e escolhas e consequências em alicerce às emoções humanas.

(Foto: Warner Bros. Pictures & Legendary Pictures)

Adaptação

Apesar da excepcional base literária, por muitos anos um projeto de adaptação cinematográfica de ‘Duna’ representava um grande risco. Dada a complexidade do romance, durante muito tempo ele foi considerado restritivo por possuir sua própria linguagem em um texto rico e permeado por muitas informações.

Nada obstante, em 1984, ‘Duna’ ganhou uma versão nos cinemas com o cineasta David Lynch que, por apresentar uma visão estética e narrativa muito diferentes do livro, foi um fracasso de público e crítica na época. Curiosamente, com o passar dos anos acabou se tornando cult, mas, tal qual as minisséries televisivas ‘Duna’ (2000) e ‘Os Filhos de Duna’ (2003), foram tentativas anteriores ao projeto de Villeneuve malfadadas.

Isto posto, motivado pelo desejo de realizar uma obra convincente e, pela proposta de apresentar ‘Duna’ para um número maior de pessoas, Denis Villeneuve não se limita a fazer uma adaptação obscura apenas voltada à um nicho específico de fãs. A partir de uma abordagem abstrata da obra literária, o realizador promove certas ressignificações de personagens, objetivos, motivações e, aspectos culturais e políticos tratados na trama original e expõe o principal da história através de cenas chaves, pontuais e muito bem escolhidas.

Todo o restante, o que inclui as sensações decorrentes a leitura do livro e, portanto, algo de que se espera no filme, ele deixa à cargo da imagem. Indiscutivelmente, essas decisões criativas do cineasta, contribuem para tornar o longa mais acessível e atrativo para um grande público.

Com um elenco superestrelado e talentoso, o diretor também acaba reorganizando algumas histórias a fim de aproveitar o carisma e o potencial dos atores a atrizes envolvidos. No geral, apesar de algumas restrições, o filme é uma adaptação muito bem-feita e muito honesta ao livro de Frank Herbert. ‘Duna’ não é um filme complicado, tampouco proibitivo. Entretanto, exige a atenção do espectador que, uma vez não engajado pela narrativa, pode ser acometido a um certo desgaste, especialmente, devido às várias passagens contemplativas.

Do ponto de vista visual e narrativo, a cinematografia do filme assinada por Greig Fraser, possui êxito, principalmente, na atenção aos detalhes da construção do mundo de ‘Duna’. A escala dos cenários, alvo de críticas no filme realizado por Lynch, agora é completamente repensada e apresenta um contexto de urgência e gigantismo para este universo. É incrível a maneira como o diretor consegue aliar a grandeza da ambientação e a beleza das marcações visuais junto à um certo grau de minimalismo estético.

À semelhança dos aspectos visuais, a trilha sonora idealizada por Hans Zimmer também possui um caráter de grande impacto, tornando-se um eminente acompanhamento na criação deste mundo magnânimo. O mesmo ocorre com o trabalho sonoro complementar de edição e mixagem. Aliás, todo o conceito técnico abrangente: maquiagem, figurino e direção de arte é extremamente positivo. Espetacular.

Existe uma complicação, no entanto. Apesar da extensa minutagem de uma fantástica viagem sensorial, o filme apresenta um desfecho apropriado, porém, que indica uma continuação. Isto ocorre porque este filme só cobre a primeira metade do livro. Mas não se deixe enganar, ‘Duna’ é um filme com começo, meio e fim.

Tudo leva a crer que uma possível continuação vá acontecer, todavia, ainda não foi confirmada pelo estúdio. Confesso dar uma certa trepidação imaginar que o projeto pode parar aqui, sem uma conclusão definitiva. Mas de certa forma, a ambição do diretor em apostar tanto na produção, também acrescenta à experiência e emoção do filme.

Título Original: D U N E

Estreia: 21 de outubro de 2021 (Brasil)

Duração: 155 minutos

Gênero: Aventura, Ficção-científica

Direção: Denis Villeneuve

Elenco: Charlotte Rampling, Dave Bautista, David Dastmalchian, Jason Momoa, Javier Bardem, Josh Brolin, Oscar Isaac, Rebecca Ferguson, Stellan Skarsgård, Timothée Chalamet, Zendaya.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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