Cultura

‘House of Gucci’: uma decepção com grife

“Flertando com diferentes gêneros narrativos ao longo da trama, ‘Casa Gucci’, o filme, embora seja um pouco de tudo, não é muito de nada"

Valter Soares de Souza Junior*
12/12/21 às 15h00

Em 1970 (apesar do filme se passar oito anos depois, em 1978), Maurizio Gucci, filho de Rodolfo Gucci e potencial herdeiro do império da grife de moda Gucci, conhece em uma festa Patrizia Reggiani. Como o próprio Maurizio a descreve, ela é uma espécie de Elizabeth Taylor: é voluptuosa, possui olhos imensos muito chamativos e é cheia de presença e de humor. Porém, pouco credenciada a integrar a família cujo sobrenome dá título ao filme, mediante objeções de classe e de cultura.

E, seja como for, de fato, era um desastre anunciado. Conhecidamente, a coisa toda terminou duas décadas depois, em uma barafunda: homicídio, escândalo e julgamento. Isso porque, a “história de amor” entre Maurizio e Patrizia culminou no assassinato dele pelas mãos de um sicário, o qual supostamente teria sido contratado pela própria Patrizia, principal suspeita e condenada pelo crime.

Adaptado do livro-reportagem ‘House of Gucci: A Sensational Story of Murder, Madness, Glamour, and Greed’ escrito por Sara Gay Forden, que apesar de muito bem apurado, possui uma forte vocação de tabloide, o longa dirigido por Ridley Scott e estrelado por Adam Driver e Lady Gaga, muito aguardado por críticos e público, é o que eu definiria como sendo uma “a hot mess”, isto é, um caos total.

Flertando com diferentes gêneros narrativos ao longo da trama, ‘Casa Gucci’, o filme, embora seja um pouco de tudo, não é muito de nada.

(Foto: Divulgação)

Permeado por sotaques tão exagerados e perturbadores, onde cada ator tem um cacoete vocal próprio e fala com um sotaque mais bizarro e equivocado do que o outro, a direção de Scott é tão veloz, narrando os fatos de maneira tão exacerbadamente rápida, que não é possível sequer observar os saltos narrativos entre as décadas. A pressa inexplicável do diretor em narrar os fatos em 157 minutos, simplesmente não permite criar apego por nenhum dos personagens.

Bagunça

Notadamente, o elenco é soberbo. Um dos motivos, aliás, que fez desse filme um dos mais esperados da temporada. E, no entanto, poucos estão, de fato, bem em seus personagens, embora reconheça que talvez o problema esteja no roteiro e não nos atores.

Como atriz, Lady Gaga é muito mais instintiva do que técnica, o que se torna excelente para ela nesse papel, em que a Patrizia é uma pessoa determinada; sem muita formação mas que sabia o que queria. Algo que uma pop star do tamanho de Gaga certamente é capaz de entender. Jeremy Irons, por sua vez, é cativante em diferentes momentos, interpretando o amargo e conservador Rodolfo Gucci, pai de Maurizio.

Adam Driver proporciona uma performance contida e tímida (as vezes até demais), que está sempre em constante equilíbrio e sintonia com a ferocidade da Patrizia Reggiani de Lady Gaga. Todavia, já entregou atuações melhores. O Aldo Gucci de Al Paccino é uma espécie de caixeiro viajante, com uma caracterização super espalhafatosa, um cabelo medonho e uma atuação convenientemente forçada. Salma Hayek quase não aparece, infelizmente. Mas o ápice da canastrice fica a cargo de Jared Leto, que transforma a persona de Paolo Gucci em uma figura de circo, com um sotaque atroz e uma personalidade de capanga de mafioso albanês.

Em síntese, ‘House of Gucci’ é uma bagunça maníaca, o qual não tenho nenhum prazer em dizer que não gostei. Possui os seus momentos que, contudo, não são capazes de sustentar uma narrativa confusa e pouco inspirada no que diz respeito à dinâmica da excêntrica família italiana. Como escreveu um amigo: “um filme inegavelmente frustrante, onde não se aprende muito mais do que já se sabia antes da sessão começar.”

Título Original: House of Gucci

Estreia: 25 de novembro de 2021 (Brasil)

Duração: 157 minutos

Gênero: Crime/Drama

Direção: Ridley Scott

Elenco: Lady Gaga, Adam Driver, Jared Leto, Jeremy Irons, Salma Hayek, Al Pacino, Jack Huston, Reeve Carney, Camille Cottin, Youssef Kerkour.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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