Cultura

Joel Coen surpreende em todos os aspectos no excepcional ‘A Tragédia de Macbeth’

“Da concepção visual aos desempenhos estelares de Denzel Washington e Frances McDormand, não há faceta do filme que não seja admirável”

Valter Soares de Souza Junior*
23/01/22 às 16h00
(Foto: Divulgação)

Convencido por três bruxas de que será o próximo rei, Macbeth e sua mulher conspiram, juntos, no propósito de matar Duncan, rei da Escócia, para que Macbeth assuma o trono. Pois, como profetizado, Macbeth ganhou um novo domínio, Duque de Cawdor, em recompensa pela valentia demonstrada em batalha na defesa de Duncan.

Logo, a segunda parte da profecia, a de que ele será rei, deve ser verdadeira. Sedenta por poder, Lady Macbeth incita o marido a matar Duncan para assim apressar os acontecimentos ou, mais que isso, para forçar a predição a cumprir-se. Outros assassinatos, no entanto, terão de ser perpetrados; Duncan tem um herdeiro, e foi dito ainda a Macbeth que os reis que o sucederão não nascerão dele, mas de seu amigo Banquo.

Há cerca de 416 anos, ‘Macbeth’, um dos textos seminais de maior destaque do escritor inglês William Shakespeare, famosO por tratar da corrupção do poder e da ganância, ganhou vida em incontáveis montagens teatrais e em pelo menos duas dezenas de filmes. No entanto, poucas adaptações da peça são tão admiráveis quanto A Tragédia de Macbeth , filme exclusivo e original do Apple TV+, dirigido e roteirizado por Joel Coen e protagonizado por Denzel Washington e Frances McDormand.

A obra de Shakespeare historicamente sempre abriu espaço para diferentes interpretações. Entretanto, os dois papéis principais da tragédia encenada pela primeira vez em 1606 não costumam ser entregues a atores na casa dos 60 anos, como Washington e McDormand; por tradição, eles são personagens mais jovens, ambiciosos por um futuro de glória e por, talvez, numa esperança remota, garanti-lo com o que ainda não têm — um filho.

Contudo, Joel Coen, pela primeira vez trabalhando sem seu irmão Ethan, promove uma pequena, porém, notável inflexão no texto original: mais que ter algo a ganhar, Macbeth e Lady Macbeth sentem já não ter o que perder.

— “E se falharmos?”, diz Macbeth.

— “Então falhamos”, replica Lady Macbeth, lançando seu ultimato.

Performances

(Foto: Divulgação)

Frances McDormand, que já interpretou Lady Macbeth no teatro, entrega uma performance enérgica, cheia de dicotomias. Denzel Washington, por sua vez, transita maravilhosamente bem entre os vários sentimentos do personagem título até assumir uma figura odiosa. Do muito ao pouco, duas atuações muito precisas. Denzel e Frances, evocam à perfeição duas pessoas com décadas de familiaridade um com o outro, emprestando credibilidade às suas decisões. Paralelamente, Kathryn Hunter, atriz pouco conhecida no cinema, mas com uma bagagem extensa no teatro, também surge fenomenal.

Trata-se, aliás, de um filme bastante teatral, tanto no inglês arcaico (lindo, mas reconhecidamente difícil de acompanhar) quanto na economia de dispositivos cênicos; mas ao mesmo tempo muito cinematográfico. Da concepção visual aos desempenhos estelares de Denzel Washington e Frances McDormand, não há faceta do filme que não seja admirável. Para isso, o cineasta Joel Coen constrói um conceito visual em que cenários são reduzidos ao básico. As angulações dos objetos em cena, assim como a grandiosidade de escadarias, portais e portas, trazem significado para dentro da história.

A sensação de irrealidade em que o enredo transcorre começa pela fotografia em um preto e branco difuso no fundo, todavia, extremamente nítido no primeiro plano, concebida para que os personagens surjam dessa indefinição e caminhem em direção à câmera até os rostos serem enquadrados em closes impactantes, que lembram muito os de Ingmar Bergman em filmes como O Sétimo Selo . A cinematografia e a direção de arte que apostam em ângulos retos, além do extenso uso de sombras e contrastes também deixam claro a influência do expressionismo alemão dos anos 1920 e seu impacto inigualável.

Desta forma, em um filme superlativo, uma das experiências mais belas do cinema contemporâneo, e um filme que se coloca à altura das duas melhores adaptações shakespearianas do cinema: a de Orson Welles (‘Macbeth’, 1948) e de Akira Kurosawa (‘Trono Manchado de Sangue’, 1957), Joel Coen põe em relevo as diferentes vozes de seu elenco e prova (se necessário fosse) que sempre há boas razões para adaptar Shakespeare.

Título Original: The Tragedy of Macbeth

Estreia: 14 de janeiro de 2022 (Brasil)

Duração: 105 minutos

Gênero: Drama Histórico/Suspense

Direção: Joel Coen

Elenco: Denzel Washington, Frances McDormand, Alex Hassell, Bertie Carvel, Corey Hawkins, Harry Melling, Brendan Gleeson, Kathryn Hunter, Miles Anderson, Matt Helm, Moses Ingram, Ethan Hutchinson, Scott Subiono, Brian Thompson, Lucas Barker, Stephen Root, Robert Gilbert, James Udom, Richard Short, Sean Patrick Thomas, Ralph Ineson, Jefferson Mays, Susan Berger, Wayne T. Carr, Nancy Daly.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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