Foto registrada em uma das edições do Festara (Festival de Teatro de Araçatuba) (Foto: João F. Tavares Kawasaki)
Este ano de 2020 parece um roteiro de filme de ficção científica com uma pitada de ironia. Para os católicos, festeja-se o carnaval, para então entrar em quaresma, um período que exige alguns sacrifícios e reflexão, que termina na Páscoa.
Pois é! Se somarmos os números que compõe o ano em que estamos, chegaremos ao 4, que na numerologia significa um reflexo de pessoas materialistas que não se preocupam com o subjetivo. E o mundo não precisava mais de tanta objetividade assim, né? Tantas comprinhas, tantas queimadas, tanto capitalismo selvagem – atenção, estou falando dos extremos.
Mas então, nossa quaresma virou quarentena! Um vírus veio e nos fez parar, exigindo grandes sacrifícios para finalmente refletirmos para, talvez, o quê? Mudarmos!
Claro que nem todos refletiram e talvez nem refletirão. Mas quero acreditar que para uma grande parte, essa reflexão existiu.
Trancados dentro de casa por meses, apelamos para a arte, para a cultura, tão poderosa que consegue transcender e transgredir suas próprias “normas" e estabelecer contato. Professores tiveram que se reinventar. Novos criadores de conteúdo apareceram, pessoas com conteúdo além de maquiagem e lifestyle. E os artistas também.
Vi vários shows on-line, em formato de live, aberto, ou em plataformas, pagando por ingresso.
É uma revolução. E o teatro acompanhou isso.
Dentro da própria classe teatral, há quem resista ao teatro online; afinal o que é teatro on-line? O teatro é a arte da presença. Sim, mas alguns grupos e artistas que acompanhei, conseguiram unir linguagens, transgredir outras e estabelecer contato, mesmo que essa presença esteja sendo de forma virtual.
Assisti ao resultado da oficina de Nelson Baskerville, renomado ator e diretor de teatro brasileiro, que inclusive já esteve no Festara, e participei do bate-papo final. Posso dizer que foi tão maravilhoso quanto ir ao teatro. Diferente, mas maravilhoso.
Vejamos o lado bom: o on-line possibilita a presença na plateia de pessoas que não poderiam estar ali, se fosse presencial. Nesta peça, tinha uma mulher que “ia” ao teatro pela primeira vez. Eu consegui assistir e pude ver de pijama do sofá de casa, tomando chá. Não perdi tempo de deslocamento, o que agora para mim é valioso, já que sou mãe. E neste caso especifico da peça do Nelson, tive uma aula após o evento e encontrei vários conhecidos que estavam e pudemos conversar. Foi um oásis no meio deste deserto "quarentênico".
E aí eu te pergunto: por que deveríamos nos importar tanto, se isso é teatro ou não? Por que temos esta necessidade de nomear tudo e colocar em caixinhas? O que está acontecendo é vanguarda e não somos nós que teremos a missão de nomear.
O teatro sempre resistiu. E, lhes digo, que resistirá. Em breve, retornaremos às salas de teatro e aos palcos. Inclusive, isso já está acontecendo.
Mas, o que essa quaresma interminável nos proporcionou, foi nos jogar numa crise e como toda crise, nos deu duas opções: paralisar com o medo ou nos mover quebrando nossos paradigmas, nos arriscando a experimentar, romper e criar novas formas e linguagens que misturam teatro, cinema, audiovisual, performance e internet, mas o mais importante: resistindo, existindo.
Parabéns, Festara (Festival de Teatro de Araçatuba) e organizadores, que escolherem resistir e ser vanguarda. Abrir caminhos dá medo, trabalho e com certeza causa desconforto. Mas vida é movimento. E o Festara escolheu viver.
(Foto: Clayton Khan/Divulgação)
*Paula Liberati é mãe atriz, performer e adora se aventurar
*Este artigo é o último da série de textos sobre o Festara (Festival de Teatro de Araçatuba), produzidos por artistas e profissionais da cultura, que serão publicados aos domingos durante o mês de outubro.
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