Cultura

‘O Peso do Talento’: Nicolas Cage todo Nicolas Cagezinho

“(...) a ficção busca ecoar a realidade, despertando novamente a atenção para o trabalho de Nicolas Cage a partir de uma quase eficiente combinação entre ação e humor ácido”

Valter Soares de Souza Junior*
15/05/22 às 16h00

Redenção, no dicionário, quer dizer: ‘salvação; livramento de uma situação difícil’. Isto posto, muitos dizem que a melhor forma de se livrar de uma situação ruim, criada por si próprio, é rindo dela. Neste sentido, é isto que o ator Nicolas Cage faz em ‘O Peso do Talento’, filme que configura uma sátira de si mesmo e de sua hermética carreira.

Na trama, criativamente insatisfeito e enfrentando uma ruína financeira, a versão “ficcional” de Cage aceita a oferta de 1 milhão de dólares para marcar presença na festa de aniversário de um fã aficionado, porém, perigoso. As coisas tomam um rumo inesperado quando Cage é recrutado por uma agente da CIA e forçado a viver de acordo com a sua própria lenda, canalizando os seus personagens mais icônicos e amados do cinema para salvar-se a si mesmo e aos que ama.

(Foto: Divulgação)

Curiosamente, este não é, nem tenta ser, um grande estudo de personalidade e/ou personagem como outras obras em que protagonistas se interpretam, como os excelentes ‘Quero ser John Malkovich’ e 'JCVD', mas em elevar a persona do astro à enésima potência. Deste modo, a ficção busca ecoar a realidade, despertando novamente a atenção para o trabalho de Nicolas Cage a partir de uma quase eficiente combinação entre ação e humor ácido. As citações de filmes abundam, por sinal, e vão desde ‘O Gabinete do Dr. Caligari’, clássico alemão de 1920, dirigido por Robert Wiene, a ‘O Professor Aloprado’, de Jerry Lewis, de 1963.

Boddy comedies

Entre absurdos, trapalhadas e referências a filmes icônicos do ator como ‘A Rocha’; ‘60 Segundos’; ‘O Capitão Corelli’; entre outros, os momentos de risos tornam-se inevitáveis, mas é inegável a frustração pelo roteiro simplório do filme que se sustenta em algo que, de certo modo, sepultou a própria carreira de Cage: é clichê em cima de clichê. Previsível toda vida. A estranheza e as piadas referenciais cimentam o caminho para o típico “perdedor” do cinema americano, que, dentro de uma situação muito improvável, reconquista a confiança em si mesmo e a da família.

O diretor Tom Gormican, que também assina o roteiro ao lado de Kevin Etten, desperdiça ideias mais criativas ao trilhar o caminho das ‘buddy comedies’ — gênero que fez sucesso nos anos 1980 com filmes como ‘Tango & Cash’, ‘Máquina Mortífera’, entre outros —, colocando Cage e o personagem de Pedro Pascal lado a lado (a melhor coisa do filme) em uma aventura que consegue ter um ou outro momento bem humorado. No entanto, ao assumir essa proposta, ‘O Peso do Talento’ fica cada vez mais dependente desse tipo de efeito cômico que vai se repetindo por diversas vezes. Funciona por algum tempo, mas mesmo em um filme com pouco mais de 1 hora e 40 minutos, é cansativo.

Angústias

Por outro lado, o fato de o filme procurar trabalhar o personagem principal da maneira mais realista possível acaba criando uma curiosa tensão que flui entre o que esperamos que Cage seja e, talvez, o que ele realmente é em sua vida. Aproveitando-se das metanarrativas, vemos o astro injetar na trama doses de angústias que parecem bem verdadeiras em diversos pontos. A verdade é que o melhor do filme é notar como Nicolas Cage consegue rir de si mesmo, e também nos permite isso, fazendo do filme uma sessão descompromissada embora, ao mesmo tempo, descartável.

Infelizmente, ‘O Peso do Talento’ parece seguir o padrão Nicolas Cage dos últimos anos, de confiar demais que sua persona cinematográfica consiga carregar o filme todo sozinho (apesar desta ser a proposta), sem a necessidade de um roteiro mais pensado e de uma direção mais precisa. Pena que esses fundamentos cinematográficos ainda sejam necessários dentro desse tipo de registro mais comercial.

Título Original: The Unbearable Weight of Massive Talent

Estreia: 12 de maio de 2022 (Brasil)

Duração: 108 minutos

Gênero: Ação, Comédia

Direção: Tom Gormican

Elenco: Nicolas Cage, Pedro Pascal, Tiffany Haddish, Sharon Horgan, Paco León, Neil Patrick Harris.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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