Cultura

Pandemia coloca em risco espaços culturais em Araçatuba

Com os eventos culturais paralisados, empreendedores relatam dificuldades em manter seus projetos independentes na cidade

Manu Zambon  - Hojemais Araçatuba
22/07/20 às 22h18
Oficina de Macacos estrou novo espaço em março deste ano, no bairro Jardim Sumaré (Foto: Divulgação)

Os efeitos da pandemia na economia são calculados a cada dia. Assim como o comércio, indústria e outros empreendimentos, a cultura também passa por problemas.

Além dos artistas, que têm sofrido com os trabalhados paralisados, negócios que vivem da cultura também encontram dificuldades para se manterem e correm o risco de fechar as portas em Araçatuba (SP).

Há quatro meses fechado, o espaço de difusão cultural Oficina de Macacos, que inaugurou a nova casa em março, pouco antes do início da quarentena no Estado, teve uma redução de 100% dos ganhos provenientes de eventos realizados.

Os empreendedores Flávia Nascimento dos Santos e João Gabriel Avanso conseguiram manter o local até o momento utilizando uma pequena reserva para emergência e tiveram de negociar o aluguel para pagar de forma parcial. No entanto, há contas atrasadas, como água e energia.

“Fizemos a feijoada em parceria com a Herbal Coffee Shop, que são nossos novos parceiros no espaço, junto com o brechó e o sebo que já habitam a casa, para ajudar nos custos. Foram vendidos feijoadas, cervejas e drinks. E também contamos com ajuda de amigos com pequenas doações”, explica Flávia.

Rifa

A dupla também fez algumas atividades on-line e participaram de outras, no entanto, o custo para manter o local é de R$ 5 mil. Caso não consigam efetuar o pagamento, Flávia teme que terão de entregar o local, com possibilidade de alterar o projeto ou até paralisar ou cancelar as atividades.

Para tentar arrecadar a verba, os empreendedores estão fazendo uma rifa de quitutes juninos, no valor de R$ 10, até o dia 31 de julho. O pagamento pode ser feito via transferência bancária ou pelo Picpay . O contribuinte também pode efetuar o pagamento diretamente na Oficina.

Flávia conta que a desmotivação é um problema, assim como a falta de medida emergencial por parte da Secretaria de Cultura de Araçatuba ou do órgão estadual. No entanto, os empreendedores afirmam que estão com esperanças com a regulamentação da lei Aldir Blanc, do governo federal, e buscam saídas por meio de projetos que estão produzindo para concorrer no ProAc (Programa de Ação Cultural), da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do Estado.

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Casa Maré em um dos eventos realizados antes da pandemia (Foto: Rafaela Cândido/Divulgação)

Máscaras

Em novembro deste ano, a Casa Maré completa dois anos de atividades em Araçatuba. O centro cultural independente produz eventos artísticos e culturais, como cineclube, oficinas, feira vegana, música, teatro, entre outros, focando também em projetos voltados às mulheres.

O local ainda hospeda outras iniciativas, como o sebo Vivendo de Brisa, brechó Estilo Original e o ateliê Badu.

Após a paralisação das atividades, que aconteceu a partir do dia 15 de março, as empreendedoras Carla Silva, Arielle França e Tamires Santiago têm encontrado dificuldades para manter o espaço.

“A renda simplesmente acabou, até as vendas do brechó caíram drasticamente. Sendo apenas simbólica a quantidade de dinheiro que entra com as vendas”, afirma Carla.

O trio conta que conseguiu manter o espaço em junho e julho, pois houve um acordo no aluguel da casa. Porém, em agosto, a cobrança já será normal. Até o momento, estão conseguindo pagar as contas principais, como água e luz, utilizando o recurso que entra com a confecção de máscaras no ateliê.

“Nosso maior medo é termos que fechar e adiar esse projeto tão importante para população, em especial para as mulheres”, ressalta a empreendedora Carla, que também destaca a falta de apoio por parte do poder público.

Além das vendas, as empreendedoras colocam à disposição uma conta para contribuições financeiras voluntárias, em nome de Carla. O banco é Bradesco, a agência é 3.728 e conta-corrente 315.492-0.

Atores em ação no Teatro Delivery (Foto: João Guilherme/Divulgação)

Teatro

Da parceria entre dois atores, Charles Ferlete e Vinícius Forato, nasceu o projeto Casa do Teatro, em Araçatuba, há dois anos.

Ambos desenvolviam trabalhos teatrais com foco terapêutico e de valorização da vida. Forato realizava trabalhos como palhaço em hospitais e Ferlete, que é psicólogo, desenvolvia estudos pautados no psicodrama e dinâmicas de grupos.

Com a junção das ideias, a Casa do Teatro trabalha com iniciação teatral de livre formação, voltada para a promoção das pessoas por meio da arte e da cultura. O espaço atende alunos, entre crianças, adolescentes, adultos e idosos, no entanto, as atividades presenciais foram paralisadas em 16 de março e a contribuição por parte de pais e frequentadores, passou a ser facultativa.

“Com a pandemia, as mensalidades ficaram estipuladas de forma facultativa e voluntária, mesmo com muitos alunos e pais contribuindo espontaneamente, foi necessário renegociar o aluguel. Mesmo assim, todo mês, temos a apreensão para conseguir honrar todos os compromissos”, destacam.

Além do aluguel, Ferlete ressalta que todo dinheiro que entra em caixa vai exclusivamente para a manutenção do cartão com despesas da reforma, água e luz. Em algumas ocasiões, os dois precisaram usar recursos próprios para honrar pagamentos do espaço.

Para tentar arrecadar recursos, eles têm apostado em projetos. Um dos exemplos e o mais recente é o Teatro Delivery, que consiste em pequenas apresentações circenses, na rua, em frente às casas dos alunos, respeitando a recomendação do distanciamento social.

Ferlete e Forato também organizaram um livro em formato PDF com brincadeiras e jogos lúdicos para serem realizados em casa. O material foi disponibilizado de forma gratuita, com contribuição voluntária. Além disso, eles seguem fazendo lives e lecionando aulas em formato EAD (Educação a Distância).

Além disso, eles já estão pensando em alternativas pós-pandemia. “Acreditamos que quando pudermos retornar com as atividades presenciais, teremos que mudar a forma de atuação para a garantia da saúde e bem-estar de todos”.

Pimenta Cultura tem espaço para aulas e demais projetos (Foto: Divulgação)

Produção

Os artistas e produtores culturais Junior Viana e Josy Martins possuem a Pimenta Cultural desde 2008, trabalhando com projetos próprios e com prestação de serviço para outros artistas, além do desenvolvimento de oficinas de teatro, instrumentos, arte circense, pintura, entre outros.

Com a pandemia, a sede da produtora, que conta com espaços preparados para receber alunos, com palco e ateliê para confecção de cenários e figurino, quase precisou ser fechado. Parado desde março, o casal teve todos os seus eventos agendados até outubro, cancelados.

“Desde o inicia a gente conversou com a proprietária do imóvel, pedindo um prazo para pagamento. Ela nos deu dois meses. Após isso, retornei dizendo que não tinha como continuar, porque não sabíamos quando voltaríamos”, explica Viana. No entanto, conseguiram negociar e o local está mantido até o final do ano. 

Nos últimos quatro meses, os produtores estão mantendo o espaço com doações de amigos e familiares, que têm contribuído com recursos financeiros, cestas básicas e até marmitas. Segundo Viana, alguns itens foram até distribuídos para outras pessoas que estão passando por dificuldades.

Outras doações vieram por meio de lives que fizeram, inclusive a convite da Associata (Associação dos Artistas Teatrais de Araçatuba). Os produtores acabaram gostando da ideia e acreditam que farão novas transmissões. Mas para quem quiser fazer alguma contribuição, pode entrar em contato por e-mail ( contato.pimentacultural@gmail.com ) ou pelo telefone (18) 99791-0133.

Viana e Josy também esperam que os recursos da lei Aldir Blanc saiam até o final do ano e que ajudem a manter o local até o 2021. “Vamos ver como será a retomada disso tudo no ano que vem. Estamos produzindo para quando tudo voltar. Antes da pandemia, estávamos com dois espetáculos para lançar e agora comecei a mexer nos projetos pensando no ano que vem”.

Nesses últimos quatro meses, o casal, que possui dois filhos, também conta que precisou mudar o padrão da família. “Fizemos acordos com nossas contas pessoais, cancelamos plano de saúde e várias coisas. Estamos gastando o mínimo necessário e com as doações estamos conseguindo suprir. O que importa é permanecer com saúde”, conclui.

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