"Dizer ‘você se lembra de quando...’ é a forma mais baixa de conversação”, comentou certa vez o personagem Tony Soprano com seus capangas da máfia, em "Família Soprano". David Chase, o criador da série e de Tony, não concorda totalmente com essa avaliação; “foi um amigo meu de escola quem disse isso”, ele afirmou, em uma entrevista concedida ao jornalista americano Jeremy Egner, em 2019. O que não quer dizer que goste especialmente de reminiscências nostálgicas. “É uma coisa barata. Fico furioso”, ele disse. “Sempre que revisitamos a série, a verdade é que esqueço muito mais coisas do que imaginava.”
No entanto, recordações são inevitáveis. Quatorze anos depois de seu inesquecível fim, The Sopranos retorna às telonas (apenas nos EUA) e via streaming (demais países) na forma de um prelúdio que é, em essência, o mais próximo possível de uma história de origem para Tony Soprano, agora vivido por Michael Gandolfini, filho do saudoso James Gandolfini, que estará, para sempre, indelevelmente, ligado ao personagem.
Escrito por Chase juntamente com Lawrence Konner, que também escreveu alguns episódios de The Sopranos , e dirigido por Alan Taylor, outro veterano da série, o filme busca mostrar como e por que Anthony Soprano se tornou um poderoso mafioso. Obviamente, seguir sua trajetória evolutiva será mais fácil para os que assistiram "Família Soprano", semana após semana, por 86 episódios de desenvolvimento detalhado, íntimo e explicativo de um personagem.
Terceira era de ouro
Para lidar com o longa é preciso compreender a importância daquele universo. The Sopranos foi o drama que inaugurou a chamada "terceira era de ouro da televisão”, no final da década de 1990 ( Sex and the City fez o mesmo pela comédia); e foi apontada por especialistas como aquela que deu forma ao entretenimento dramatúrgico como ele é hoje em dia.
Não é que não houvesse televisão de qualidade antes, mas, de repente, abriram-se várias novas possibilidades nesse meio, engendrando uma verdadeira revolução. Uma era que fez os canais de TV descobrirem ser possível fazer arte e lucrar com isso, e fez as séries serem um meio atrativo para grandes estrelas de Hollywood.
Séries complexas e ambiciosas já haviam sido produzidas, como Twin Peaks , Arquivo X e NYPD Blue . Mas ao longo de suas seis temporadas, a história excêntrica de Chase sobre Tony Soprano, um chefe do crime organizado deprimido e violento, mas estranhamente simpático, expandiu dramaticamente os parâmetros das séries de TV, combinando a trama criminosa muitas vezes chocantemente brutal a momentos de humor, lógica onírica e inventividade narrativa.
Acaba que o filme não chega nem perto de um episódio “fraco” da série (que nunca era menos do que brilhante). O trabalho de desenho de produção e cenografia, do ponto de vista técnico, é o principal trunfo que The Many Saints of Newark tem para tentar nos transportar para esse universo com imersão.
