Cultura

‘Summer of Soul’: a celebração da cultura e da felicidade preta

“O que se segue por poucos menos de duas horas de filme é um exercício de memória. (...) capaz de usar todos os elementos computados e apurados em um belo emaranhado histórico e social"

Valter Soares de Souza Junior*
16/01/22 às 15h25
(Foto: Divulgação)

No verão de 1969, o mesmo em que ocorrera o celebrado Festival de Woodstock, a imprensa americana considerou irrelevante exibir um evento apenas com artistas pretos realizado para um público de pouco mais de 300 mil pessoas no Harlem, numa série de concertos que se prolongaram durante seis finais de semana.

Alguns cinegrafistas, no entanto, certos da importância musical deste episódio, registraram as apresentações de Nina Simone, Gladys Knight, Stevie Wonder, B.B. King, Sly and the Family Stone, Mahalia Jackson e tantos outros, sem, porém, jamais encontrarem compradores ao material. Foram necessários 52 anos para que, em sua estreia como cineasta, Ahmir Khalib “Questlove" Thompson assumisse com vaidade o fato de ter sido o primeiro a revelar tal arquivo.

 =Ciente da preciosidade que possui em mãos, o realizador esforça-se em incluir em seu documentário todos os músicos presentes naquele verão ensolarado em 1969 e destacar o impacto do festival para cada um deles. Por isso, de modo didático, a montagem menciona o nome das canções, foca-se especificamente nas pessoas que mais se divertem em meio à multidão e alterna com depoimentos dos artistas idosos assistindo às imagens com largos sorrisos e lágrimas nos olhos. O orgulho é compreensível diante de tamanha conquista.

O que se segue por poucos menos de duas horas de filme é um exercício de memória. Figuras da música, arte, política e cultura black falam sobre o apagamento do festival, equiparando-o ao extermínio dos seus iguais. O longa também foca nos bastidores e suas personalidades, desde a organização do festival, políticos brancos por trás do ocorrido, relação com a polícia e a opinião preta sobre a viagem à Lua (que também aconteceu em 1969), entre outros assuntos.

Profundida

Único não apenas por sua riquíssima, exclusiva e inédita coleta documental, que reúne imagens e momentos jamais vistos, ‘ Summer of Soul (...ou, quando a revolução não pôde ser televisionada) ’ se destaca dentro do seu gênero por sua profundidade narrativa, capaz de usar todos os elementos computados e apurados em um belo emaranhado histórico e social, explorando o teor político do evento e o modo como a sua memória e sua realização dizem muito sobre a América de antes e de agora. Isso ocorre tanto nas entrevistas presentes como na interseção de imagens do noticiário. Fala-se da luta pelos direitos civis, tanto no palco como nas ruas, na esfera pública e privada.

Além disso, o documentário vai na contramão do caminho óbvio e consegue fazer o mais difícil: ele te transporta para o festival. Sim, claro que tem entrevistas, comentários e celebridades, mas aqui é o evento que fala mais alto e a ideia dele é te fazer sentir os mesmos sentimentos de quem participou no festival. Você se sente feliz nas músicas mais animadas, fica tenso, revoltado e “pronto para a luta” nos momentos mais políticos e por diversas vezes te faz desejar participar daquele momento.

O R&B, o jazz, o blues, o pop, o gospel, todos esses gêneros predominantemente pretos passeiam por ‘Summer of Soul’ e o Festival de Cultura do Harlem. Uma celebração da cultura e da felicidade preta. Contudo, mais do que música, a obra deixa claro que, quem esteve naquele lugar, com certeza passou a herança para a geração posterior, e com isso, eles tiveram mais do que um festival para chamar de seu, tiveram orgulho.

Título Original: Summer of Soul ...Or, When the Revolution Could Not Be Televised

Estreia: 2 de julho de 2021 (EUA)

Duração: 117 minutos

Gênero: Documentário/Musical

Direção: Ahmir Khalib “Questlove" Thompson

Elenco: Stevie Wonder, Al Sharpton, Chris Rock, Lin-Manuel Miranda, Gladys Knight, Jesse Jackson.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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