Vocês já viram algum filme do cineasta sueco Ingmar Bergman (1918-2007), diretor de alguns dos mais influentes filmes na história do cinema mundial, como o meu preferido “Persona”?
Bergman tem como característica fazer um estudo psicológico de seus personagens e suas famílias disfuncionais, tanto nos diálogos como em sua estética cinematográfica. A maneira que escolhe o que e como nos mostrar deixa isso claro: muitos planos fechados e parados, valorizando a alma do personagem, o olho da atriz.
Liv Ullmann, em “Persona”, é uma atriz de teatro famosa que entra em crise negando-se a falar e o filme se passa quando ela sai da clínica que a internaram e se isola numa casa à beira de um lago com uma enfermeira.
Pasmem! Nesse filme, encontrarão cenas e planos que revolucionaram o cinema.
Mas o que quero falar é sobre o que mais me chamou a atenção. Ah, sim, este é um filme considerado cult ou de arte, então cada um de nós sentirá de uma maneira. Mas, para mim ficou escancarado uma cena de dez segundo (chuto), onde a atriz tem uma crise de choro ao ver as cenas brutais de um monge budista se autoimolando.
Corta!
Agora vamos falar de outro clássico: o dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca (1898-1936), consagrado por suas tragédias, sendo uma delas “A Casa de Bernarda Alba”, a qual acabei de fazer a montagem do diretor português João Garcia Miguel vivendo Adela.
Bem resumidamente, retrata uma jovem apaixonada que se recusa a viver a brutalidade do sistema, representado pela figura da mãe castradora e escolhe morrer.
Quando fiz Adela pensava muito em Elizabet Vogler (a atriz de “Persona”), mesmo sendo totalmente diferentes de alma, contexto e ações, o que as une é que estas duas mulheres não conseguem lidar com a brutalidade do mundo. Uma se cala e adoece. A outra ardente e apaixonada, se enforca. Duas mulheres fortes que à sua maneira resistem e existem para nos mostrar que não se afetar não é possível.
Agora corta de novo, só que dessa vez para a talentosa escritora gaúcha Cristiane Lisbôa, uma das minhas melhoras amigas, que quando aconteceu a tragédia de Brumadinho, em janeiro deste ano, me ligou aos prantos sem entender como as pessoas não se afetavam com aquilo.
Naquele momento tentei acalma-la até achando um exagero sua reação. Mas ela estava certa! Não é possível não se afetar, porque isso é morrer. Estaríamos todos anestesiados ou apenas jogando para debaixo da nossa pele tanta barbárie?
Então, hoje termino uma sugestão para reexistirmos dentre o desumano: arte! Façamos arte! Porque viver com arte é a maneira de estarmos abertos ao mundo lutando contra a crueldade.
Juntos conseguiremos; os artistas sabem disso.
“Um só amor, um só coração, vamos seguir juntos para ficarmos bem”, disse Bob Marley.
Amemos.