*Contém spoiler
A estória de Branca de Neve tem como ponto central o conflito entre duas mulheres: a madrasta e a princesa. A madrasta quer eliminar a princesa, pois não suporta a recém-descoberta de que a princesa é mais bela que ela. Para tanto, contrata um caçador.
Branca de Neve foge, se escondendo na casa dos sete anões que, em troca de comida, casa e roupa lavadas, oferecem abrigo para a princesa. No final da estória, como bem sabemos, quem salva a princesa da morte causada pela maçã envenenada que a madrasta-bruxa a presenteou é o príncipe.
Aí já temos elementos suficientes para um cenário absolutamente machista. A estória reproduz um lugar de mulher que conhecemos bem: mulheres retratadas como inimigas de outras mulheres, mulheres que servem aos homens, mulheres que se dedicam a tarefas caseiras. Belas, recatadas e do lar.
Conhecemos bem esse final triste que reproduz estratégias que colocam o homem no lugar de poder e a mulher no lugar de sexo frágil.
Mas as fantasias ambientadas nos mundos congelantes ganham novos significados em Frozen. No primeiro filme da série, esse lugar já era outro: o amor verdadeiro se dá entre irmãs, justamente num contexto em que discussões sobre feminismo e sororidade ressurgem. As mulheres não são mais inimigas, mas se ajudam e se salvam.
Em Frozen 2, a coisa fica ainda melhor. A cena hilária em que alguém sofre de amor é protagonizada por Sven, par romântico da Anna. É ele o sexo frágil da estória toda.
As irmãs, por sua vez, resgatam o passado e aprendem que foi a mãe delas quem salvou o pai numa guerra que deu origem aos conflitos da floresta. A estátua de gelo que simboliza essa inversão de papéis diz muito sobre os novos tempos, já que é a mãe que carrega e segura o pai desmaiado.
Mas, e Elsa? Encontrou o grande amor verdadeiro?
Para decepção de quase todos, nem encontrou um amor homem e nem um amor verdadeiro mulher. Elsa está ainda melhor do que todas as previsões. Já não usa roupas tão apertadas e sapatos tão altos como em Frozen 1.
Usa sim, roupas dignas de uma rainha que luta com o corpo e com o espírito (o quinto espírito). E se basta. Não precisa de par romântico: ela é livre. Livre está, de todas as amarras que poderiam minimizar seu poder de mulher. Ela não precisa de um homem. Também não precisa de uma mulher. Ela é suficiente. Finalmente se conhece e se reconhece como alguém que livre está, e estará.
E assim, caminhamos para um final feliz.