Opinião

Lugares de memória, lugares de fala

"Monumentos, nomes de ruas e praças, nada em nossa vida coletiva, estão revestidos de neutralidade. É fruto de escolhas. E quem faz as escolhas?"

Rubens Arantes Correa*
06/07/20 às 19h00

Uma revolta ronda o mundo: a revolta contra o racismo! Desde o assassinato de George Floyd, afro-americano, por um policial branco de Minneapolis, uma onda de revolta e indignação tomou conta de muitas cidades no mundo, tendo por eixo a questão do racismo, historicamente, uma marca dos Estados Unidos, e, por extensão, do Brasil, numa escala muito larga. Quem sabe, o covarde assassinato de Floyd continue sendo o motor não só de manifestações de rua, como de mudanças reais nos processos legais de ação das polícias em escala global.

Na cidade de Bristol, Inglaterra, uma manifestação antirracismo trouxe outro ingrediente à onda de revolta que ronda o mundo. Manifestantes não só arrancaram do pedestal, como jogaram no rio, a estátua de Edward Colston, comerciante inglês de escravos entre os séculos 17-18, cuja riqueza, por meio de vil comércio, permitiu ser membro do Parlamento inglês.

O episódio desencadeou reação em várias cidades do mundo contra monumentos, como na Bélgica, contra o omperador Leopoldo II, nos Estados Unidos, contra o general Robert E. Lee, e até contra a estátua do padre jesuíta Antônio Vieira, em Lisboa.

Talvez cause surpresa tal reação contra estatuárias que aparentemente estão ali, tão desmaliciado, numa praça ou fronte a algum prédio representativo da vida escolar, política, jurídica, social e até artística, sem nenhuma relação com o foco do protesto. Só que não! Monumentos são lugares de memória expressando ideias, visões de mundo e determinando o lugar de onde estou falando, como diriam os grandes historiadores franceses Pierre Nora e Jacques Le Goff.

Monumentos, nomes de ruas e praças, nada em nossa vida coletiva, estão revestidos de neutralidade. É fruto de escolhas. E quem faz as escolhas? De onde, esses que fazem escolhas, estão falando? Que lugar social ocupam os próceres que dedicam nomes de ruas, praças e avenidas para escolherem este ou aquele nome?

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

De modo que os movimentos antirracistas que ganham corpo em escala global colocam em discussão as narrativas históricas materializadas pela estatuária que cobre os espaços públicos de todas as cidades. O espaço público não é neutro, pelo contrário, é lugar de disputas de narrativas, ainda que para nós, meros frequentadores, nada possam significar.

Manifestações dessa natureza deixam claro que a história, enquanto conhecimento, não está restrita aos livros e a sala de aula, felizmente.  A história é um conhecimento vivo que está sempre lendo, relendo, interpretando, reinterpretando os acontecimentos e seus atores. 

Colocando uma situação muito particular nossa: a praça central de Araçatuba possui várias referências de memórias. Um busto destacando Rui Barbosa (1849-1923), político e intelectual mais afeito aos tempos da monarquia, e do lado contrário, o busto “Índio Caingangue”, de Mário Bueno, aquele que sempre esteve presente , apesar do óbvio.

*Rubens Arantes Correa é historiador, doutor pela Unesp e professor do IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), campus Birigui.

 

 RECOMENDADO PARA VOCÊ
 EM DESTAQUE AGORA
VEJA TODOS OS DESTAQUES
 ÚLTIMAS EM OPINIÃO
Franquia:
Araçatuba SP
Franqueado:
Connect Jornalismo Digital LTDA
48.486.487/0001-90
Editor responsável:
Lazaro Silva Júnior MTB 48158
lazaro.junior@ata.hojemais.com.br
Todos os direitos reservados © 1999 - 2026 - Grupo Agitta de Comunicação.