Opinião

“Minha alma está cansada da minha vida”

"Assim, de forma silenciosa e gradativa, a depressão vai invadindo, sem pedir licença, independente da sua conta bancária, grau de escolaridade, gênero etc"

Patrícia Rabelo de Morais*
23/09/20 às 11h14

“Comecei a sentir um desânimo, achei que fosse cansaço passageiro, ou mesmo uma semana ruim. Ás vezes o coração palpitava mais rápido, sentia um pouco de falta de ar. O tempo foi passando, levantar da cama era uma batalha diária. A maioria das noites começaram a ficar longas, o sono não vinha, os ruídos dos pensamentos negativos, da confusão e do medo eram constantes".

"Era um esforço muito grande estar no mundo, interagir e esconder o que sentia, sorrir, usar as máscaras sociais, me deixavam ainda pior, cansado e culpado. As vezes encontrava um pouco de conforto na bebida, com os amigos para as fotos do feed do Instagram, algumas horas de um falso alivio.”

Assim, de forma silenciosa e gradativa, a depressão vai invadindo, sem pedir licença, independente da sua conta bancária, grau de escolaridade, gênero etc. 

No Livro do Desassossego , Fernando Pessoa atribui a frase que escolhi para ser o título deste artigo, à Jó: "Minha alma está cansada de minha vida. Darei liberdade à minha queixa sobre mim; falarei com amargura de minha alma”. Um sentir humano que se repete ao longo da história da humanidade, em mim, em você e em todos nós.

O suicído é a consequência de um processo depressivo, uma junção entre fatores de riscos genéticos, psicológicos, sociais e culturais, associados com experiências de traumas e perdas. Mas ainda existe estigma, resistência a buscar ajuda profissional, leituras errôneas sobre a importância da saúde mental.

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Segundo dados oficiais, os números acerca do suicídio estão cada vez maiores. Segundo o jornal espanhol El País, a média é de seis suicídios a cada 100 mil habitantes. Entre 2011 e 2018, houve um aumento de 10% nas taxas de suicídio entre adolescentes de 15 anos e adultos de 29 anos, no Brasil. Estudos da OMS (Organização Mundial da Saúde) pontuam que a cada 40 segundos, uma pessoa tira sua própria vida, sendo 800 mil mortes por suicídio ao ano no mundo.

Hoje, o suicídio é a segunda principal causa de morte entre adolescentes de 15 a 19 anos, estando atrás somente de acidentes de trânsito. É comum que durante a adolescência, que o indivíduo fique mais vulnerável e com isso reagir a conflitos e frustrações com atitudes suicidas.

No Brasil, estimativas oficiais do Datasus contabilizaram 195.979 mortes autoprovocadas no período de 1996 a 2017, o que equivale a dois estádios do maracanã completamente lotados. Ao considerar a distribuição por gênero, 79% correspondem a homens, dados que fomentam Durkheim: “O suicídio é uma manifestação essencialmente masculina”.

A campanha do Setembro Amarelo foi implementada em 2015, por meio de parceria ente o CVV (Centro de Valorização da Vida), o CFM (Conselho Federal de Medicina) e ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria), tendo como objetivo garantir maior visibilidade à causa.

Como disse acima, ainda há muito estigma e resistência, no entanto, há muitas “saídas” também, possibilidades, profissionais que se capacitam para estar com você, mesmo que nesse momento a escuridão a depressão dificulte a gente a enxergar tudo isso.

*Patrícia Rabelo de Morais (CRP 06/125210) é psicóloga clínica e doutoranda pela UCES (Universidade de Ciências Empresariais e Sociais), de Buenos Aires.

 

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