Opinião

O mundo pode ter paz?

Em períodos tão ásperos e vulneráveis como nos dias de hoje, permeados pela polarização ideológica como insumo para as hiperbólicas e onipresentes fake news, comumente nos desequilibramos, em particular, nas indefectíveis redes sociais, saturadas de comentários sem base argumentativa, ou qualquer fundamento explicativo.

Francisco Estefogo
16/11/22 às 18h00

Mesmo no multifacetado e confuso século XXI, embora os avanços tecnológicos, científicos e sociais sejam respeitáveis, a humanidade ainda padece de forma visceral, especialmente, no que tange às condutas hostis entre grupos, facções e nações, sem precedentes na história moderna. Em períodos tão ásperos e vulneráveis como nos dias de hoje, permeados pela polarização ideológica como insumo para as hiperbólicas e onipresentes fake news, comumente nos desequilibramos, em particular, nas indefectíveis redes sociais, saturadas de comentários sem base argumentativa, ou qualquer fundamento explicativo. Consequentemente, afundamo-nos em atitudes de recalque, brigas e confrontos, o que, de alguma maneira, alimenta um retrocesso civilizatório pacífico.

Nesse recuo, a supressão da liberdade, a colossal desigualdade e a convulsão social, bem como o autoritarismo e os embates políticos, étnicos e religiosos se sobressaem. Ademais, a retórica misógina, a fome, a polaridade ideológica, a homogeneização, o prenúncio catastrófico ambiental, além da intolerância à diversidade são algumas das mazelas que figuram na esgrima verbal do cotidiano, quando não física, ameaçando a dignidade e a vida humana, assim como, de um certo modo, a paz no mundo.

Retrato cruel de uma realidade que persiste há centena de anos, a violência, decorrente dessas chagas supracitadas, para mencionar apenas algumas causas, amplamente banalizada na internet, no cinema, na televisão e nas músicas, é uma das agruras mais contundentes que ceifam vidas inocentes. Os índices relacionados às mortes violentas intencionais, particularmente devido aos casos de roubo e latrocínio, bem como aos estupros, à violência doméstica e de rua, além, numa escala contingencial, à intolerância religiosa e de identidade de gênero têm engrossado as estatísticas dos números de atos atrozes. A razão pela qual essas barbáries se incorporam na sociedade é infinita, e beiram ser indissolúveis.

No terreno geopolítico mundial, a circunstância hodierna é ainda mais ameaçadora. Embora as duas aniquiladoras guerras mundiais, de 1914 e de 1939, tenham dizimado aproximadamente 50 milhões de pessoas, sem mencionar outros confrontos bélicos mais pontuais, parece que as contendas globais não foram hediondas o suficiente para a valorização da vida, pois o tom belicoso em relação à maneira de ser e agir de alguns ainda paira no dia a dia. Há meses o leste Europeu enfrenta um sangrento conflito que já abateu mais de 10 mil pessoas, sem perspectivas de acabar.

Dentre outros movimentos reparadores, a ação educativa poderia ser um antídoto contra essa agressividade primitiva sem controle. Discussões, debates e estudos profundos no que tange à interculturalidade e à multidiversidade são fulcrais, sobretudo nos espaços escolares e familiares, para se combater a violência, construir o respeito e enaltecer a função de cada um de nós no mundo. Nesse sentido, Malala Yousafzai, ativista pela educação e pelos direitos das mulheres e ganhadora do Nobel da Paz em 2014, nos presenteia com a seguinte reflexão: “a diversidade promove a tolerância. Quando você não encontra pessoas diferentes, não percebe o quanto tem em comum com elas”.

Certamente, os conhecimentos construídos ao longo da trajetória humana são centrais para se prospectar novas ascensões no que se refere à paz mundial. Contudo, mais que os saberes acumulados no percurso histórico da humanidade, aprender a olhar o outro com compaixão, independentemente de religião, gênero, faixa etária, grupo étnico, classe social e orientação sexual, como elemento indispensável para o erigir da totalidade espinosiana, por ser uma chance para a paz. De acordo com Espinosa (1632-1677), filósofo holandês, uma vez que todos nós somos partes integrantes do cosmo, o papel de cada um dos quase 8 bilhões que somos no planeta é absolutamente imprescindível. Sozinhos, ou em grupos isolados por ideologias sectárias das mais diversas searas, não conseguimos constituir o todo. Nessa toada referente à importância da coletividade, o filósofo grego Aristóteles (384-322 a.C) concebe o indivíduo como um “ser político cuja natureza é viver em sociedade. Por isso, mesmo o homem bom viverá em companhia de outros, visto possuir ele as coisas que são boas por natureza”.

Afora a reflexão sobre a constituição da totalidade e a monta da vida coletiva como possíveis fomentos catalisadores da paz, Machado de Assis (1839-1908), um dos maiores escritores brasileiros, propõe um cenário pacífico com o singelo e profundo pensamento: “o melhor modo de viver em paz é nutrir o amor-próprio dos outros com pedaços do nosso”. 

* Francisco Estefogo é pós-doutor em Linguística Aplicada e Estudos da Linguagem pela PUC-SP.  Membro titular da Academia Taubateana de Letras (ATL), Diretor acadêmico da Cultura Inglesa Taubaté e professor do Programa de Mestrado em Linguística Aplicada da Universidade de Taubaté (Unitau). No momento, é pós-doutorando em filosofia na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e na PUC-SP.

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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