Opinião

Pandemia e finados

"As famílias que perderam alguns de seus membros recordarão qual foi o sofrimento. Não se sabe se o povo, no domingo, manifestará a amargura"

Hélio Consolaro*
30/10/22 às 17h32
 Cassiano K. Wehr/Unsplash

Em 20 de março de 2020, o dono da academia de hidroginástica chamou uma reunião após os exercícios e disse:

- Vamos suspender nossas atividades por exigência sanitária, mas retornaremos na primeira semana de abril. 

Era um fato novo, novas palavras: pandemia, covid 19. Cientistas a toda hora na televisão. Novos procedimentos: álcool gel, máscara, isolamento. O outro era um perigo.

De repente, alguém era arrancado de sua família e levado para o hospital, superlotado, nem todos voltavam na vertical. Nem velório se fazia. Nas grandes cidades, faltaram covas no cemitério.

Eu voltei à hidro em abril de 2022 depois de tanta desgraceira. Minha mãe, 94 anos, não morreu propriamente de convid 19, mas por consequência dela meses depois.

E a vacina? Presidente não quer comprar vacina! Disse que era uma gripezinha. Entra e sai ministro da Saúde. Houve um  que disso não entendia nada, era apenas general. População em alvoroço. Providências foram tomadas sob pressão.  

Na hidroginástica, certamente, os transtornos na contabilidade do CNPJ foram grandes. Fiquei dois anos sem exercícios e sem pagar mensalidade. Eu mesmo tive a covid 19 por duas vezes, bem fraquinhas, porque estava vacinado.

Na volta, a minha expectativa era o balanço entre mortos e feridos. Para a minha surpresa, o horário das 15h às 16h, das segundas, quartas e sextas, quase todos os velhinhos e velhinhas voltaram. Os faltosos não foram por conta da covid 19. Eram desistentes. 

Na quarta-feira, será o Dia de Finados, visitar covas, túmulos e mausoléus. Com certeza, os cemitérios estarão mais cheios, o INSS se livrou de muitas aposentadorias.

As famílias que perderam alguns de seus membros recordarão qual foi o sofrimento. Não se sabe se o povo, no domingo, manifestará a amargura. 

Ou se o eleitor vai ser como Luciano Hang, dono da Havan, que perdeu sua mãe dando a ela o remédio ineficaz recomendado pelo presidente da República, a Cloroquina. Perdeu a mãe, porém não abandonou a fidelidade ao chefe.

Respiramos aliviados: a pandemia está virando um passado; mas devemos tomar emprestada a saudação dos escoteiros: sempre alerta! Aprendemos muito a poder de muito choro ao pés do túmulos, não podemos desprezar o conhecimento acumulado.   

*Hélio Consolaro é professor, jornalista e escritor. Membro das academias de letras de Araçatuba (SP), Andradina e Itaperuna (RJ).     

 

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