Antes de começar o artigo, gostaria de ser sincera com o leitor e avisar que o material contém spoiler, porque seria impossível falar sobre, sem comentar determinados pontos. Portanto, vamos lá!
Quantas foram as vezes que assistimos a séries e filmes baseados em histórias reais. Produções desse tipo não são novidade. Aliás, além de não serem uma novidade, têm sido uma escolha acertada das plataformas de streamings. Um dos exemplos recentes, é a série Dahmer: Um Canibal Americano, inspirada em crimes reais cometidos pelo serial killer Jeffrey Dahmer, que ficou em primeiro lugar na Netflix, por muitos dias.
Bem mais leve, é a série "Recomeço", lançada no final do mês de outubro pela Netflix. Se ainda não assistiu, já ouviu alguém comentando sobre e até dizendo que "desidratou" - de tanto chorar - devido ao teor emocionante da história. A trama conta a trajetória de um casal, Amy Wheeler (Zoe Saldaña), americana, e Lino (Eugenio Mastrandrea), italiano.
Quando se conheceram, Amy fazia intercâmbio na Itália como estudante de arte, enquanto Lino trabalhava em um restaurante como chefe de cozinha. E aí vai uma boa dose de clichê, que não faz mal para ninguém: os dois se apaixonam, com direito a cena bonitinha na chuva.
Acontece que, a partir daí, as cenas bonitinhas vão ganhando outros contornos e complexidade, a partir do rumo da própria história - as complicações da vida real - e também da construção dos personagens. Então, vamos ao primeiro ponto: a história, que por sinal, como já disse, é real. A série é baseada no livro de memórias
From Scratch: A Memoir of Love, Sicily, and Finding Home
, da escritora Tembi Lock.
No livro, a autora conta sua própria história de amor com Saro Gullo, que, assim como na série, era um chefe de cozinha siciliano. Gullo faleceu em 2012, vítima de um câncer raro. Segundo a autora, o livro é uma espécie de carta de amor ao marido falecido.
Agora dá para imaginar o motivo de muitos estarem dizendo que desidratou de tanto chorar. E aqui vale lembrar que, mesmo sendo uma história sensível e emocionante, não há romantização, pelo menos do meu ponto de vista. Conforme vamos avançando na história, ela vai sendo mais real e nos identificamos com ela.
Conexões e luto
Vemos uma família mobilizada e se entendendo conforme dá, para ajudar o casal, que no meio da história e do tratamento de Lino, decide adotar uma criança. Enquanto isso, a personagem Amy costura a história por meio da sua resiliência nas relações, mesmo em momentos em que ela se encontrava insegura ou confusa. Amy tem a capacidade de contornar várias situações embaraçosas no dia a dia, com sensibilidade e firmeza. É lindo de ver a relação dela com o pai e a madrasta, por exemplo, e como ela reconstruiu sua conexão com a própria mãe.
Mas, essa capacidade de se relacionar aparece mesmo no final, quando ela precisa ter um contato maior com a sogra, que mora na Sicília. É nesse momento que o choque de cultura vai se transformando em um verdadeiro laço. E um laço forte e essencial para o luto de ambas.
Tonino e a cabra
É incrível como o mais bonito dessa série é o que vem depois da morte de Lino. Sabemos que, depois da partida, há uma continuidade daqueles que se foram. Dentre o legado deixado por Lino, uma das coisas que mais me tocou foi a conexão que ele criou com a filha e que sem dúvida influenciará na forma dela entender e ver o mundo. Isso é reforçado com a história de Tonino e a cabra, "inventada" por Lino e a filha.
Nesse sentido, Lino contava causos como: Tonino dando os sapatos à cabra, e os sapatos não cabiam no animal por causa dos cascos. Anos depois, quando Amy e Idalia (filha) visitam a Sicília, descobrem de forma supreendente que Tonino e sua cabra eram personagens da infância de Lino, e as histórias que ele inventava sobre eles eram de momentos de sua própria vida. Quase um Antoine de Saint-Exupéry.
Sem dúvida esse trecho específico me lembrou da minha infância, onde minha família, essencialmente minha vó e tios, contavam histórias miralbolantes para me manterem distraída. Quantas histórias de floresta encantada minha vó não teve que contar no trajeto Araçatuba-Bauru! Isso me moldou tanto, que me tornei uma adulta, cuja profissão me permite contar histórias.
Já me estendi muito. Antes de terminar o texto, afirmo: consumam conteúdos que te façam bem, que mostram empatia e generosidade. Isso pode fazer a diferença para nós, princiapalmente em tempos complicados como os dias de hoje. E, claro, se conecte verdadeiramente com as pessoas, esse é o real legado de uma vida.
(Foto: Arquivo pessoal)
*Manu Zambon é jornalista e nas horas vagas não se importa de chorar vendo séries emocionantes.
** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.
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