VOCÊ SABE COM QUEM ESTÁ FALANDO?
A pandemia do coronavírus, para além do pânico que nos tem causado, seja pelo medo de ser infectado a qualquer momento, seja pelas perdas que causou em nossos círculos pessoais e familiares, também têm trazido à tona aquilo que por muito tempo foi chamado pelas diferentes ciências sociais e humanas de “caráter nacional”.
Episódios como o ocorrido no Rio de Janeiro, envolvendo um casal que foi abordado por um agente municipal no cumprimento de suas obrigações – “cidadão não, engenheiro civil formado”; o caso do desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo que detrata guarda municipal, em Santos, litoral paulista, ao ser multado por não estar usando máscara, portanto, colocando em risco, a vida de outros – “eu tô aqui com um analfabeto...”.
Temos ainda o caso de um morador de Alphaville, condomínio de luxo de São Paulo, xingando e aviltando policiais que foram acionados pela própria esposa; e, finalmente, o caso do entregador de comida por delivery, humilhado por morador de condomínio de Valinhos, interior de São Paulo.
Tais episódios dizem muito sobre o que nós, brasileiros somos.
Durante muito tempo a mídia e a própria intelectualidade celebrou e construiu uma imagem do brasileiro como um sujeito ordeiro, de “bem”, despojado de preconceito, “gente boa”, receptivo aos estrangeiros. A mídia, inclusive, representou tal imagem idealizada com personagem feminina, de origem norte-americana, que dizia em sua aparição em quadro de televisão: “brasileiro é tão bonzinho!”.
Contudo, tal construção não passa de uma idealização que teve efeitos muito profundos no imaginário da sociedade brasileira. Ao ler e reler Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre, Caio Prado Junior, Roberto da Matta, Darcy Ribeiro, e tantos outros estudiosos e literatos brasileiros, logo nos damos conta que precisamos ainda de muito tempo para superar nossa condição de não-cidadãos.
Independente da condição de classe – um engenheiro civil, um desembargador de Justiça, um morador de condomínio de luxo... Enfim, uma sociedade hierarquizada cujos sedimentos são violência contra negros, índios, mulheres, crianças, pobres. Fomos, culturalmente, educados para naturalizar a maldade, o genocídio e ridicularizar o acesso aos direitos de cidadania.
Quem são os brasileiros, afinal? Tal indagação não vem de hoje. A pandemia apenas escancarou nossa condição humana e nosso caráter como povo. Desde o século 19 que estudiosos sempre se reportam a essa indagação. Ainda estamos em busca de uma resposta.
O fato é que a realidade nos impõe uma necessidade: superar o artifício das classes supostamente mais elevadas, expressas na máxima “sabe com quem você está falando?”. Ou do contrário, não vamos conseguir construir uma sociedade verdadeiramente solidária, que respeite a condição humana em sua dimensão étnica, social, de gênero.
*Rubens Arantes Correa é historiador, doutor pela Unesp e professor do IFSP (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo), campus Birigui.