Polícia

Cleudson admite ter falado com vereadores antes da cassação do prefeito de Agudos

Altair da Saúde rompeu o contrato da Prefeitura com a OSS Santa Casa de Pacaembu; teve o mandato cassado 2 vezes pela Câmara e foi reconduzido ao cargo pela Justiça nas duas ocasiões

Lázaro Jr. - Hojemais Araçatuba
08/11/20 às 15h14
Cleudson admitiu em depoimento ter falado com vereadores de Agudos antes da cassação do mandato do prefeito (Foto: Reprodução de vídeo)

O médico Cleudson Garcia Montali admitiu que conversou com dois vereadores nas vésperas da cassação do mandato do prefeito de Agudos (SP), Altair Francisco Silva (PRB), o Altair da Saúde. A afirmação foi feita em depoimento à CPI das Quarteirizações,na quarta-feira (4).

Cleudson foi denunciado à Justiça de Agudos, acusado de ter corrompido parlamentares a votarem contra o prefeito, que teve o mandato cassado duas vezes após romper o contrato do município com a OSS (Organização Socila de Saúde) Santa Casa de Pacaembu para gestão da UPA (Unidade de Pronto Atendimento).

A Justiça concedeu liminar duas vezes reconduzindo o prefeito ao cargo e o juiz responsável pelas decisões registrou dois boletins de ocorrência por calúnia e difamação sofridas após tais decisões.

Da cidade

Em depoimento, Cleudson explicou que foi criado em Agudos, onde os pais dele ainda residem. Segundo ele, essa foi a primeira cidade a assinar contrato com uma das OSSs que teve projeto de gestão de serviços de saúde elaborado por ele. O serviço era prestado na UPA (Unidade de Pronto Atendimento).

O médico disse que o contrato com a Santa Casa de Pacaembu foi assinado na gestão do prefeito Éverton Octaviani (MDB), com o qual disse não ter muita afinidade. Ainda de acordo com ele, esse prefeito nunca teria pedido nada a ele em função do referido contrato.

Altair era vice-prefeito na gestão de Octaviani. Cleudson disse aos deputados que, quando Altair da Saúde assumiu o cargo, no início de 2017, ele esteve na Prefeitura e, durante conversa, ele teria sido informado que não haveria nenhuma mudança.

Conflitos

Entretanto, na versão dele, a Prefeitura teria começado a atrasar pagamentos referentes ao contrato, que seria em torno de R$ 800 mil mensais, por isso, passou a cobrá-lo.

Ainda diante dos atrasos, funcionários da OSS teriam realizado um panelaço na frente da Prefeitura para protestar, o que teria irritado o prefeito, na versão do médico.

Segundo ele, um assessor teria gravado a manifestação e no dia seguinte, o prefeito teria apresentado uma relação de 29 funcionários que teriam participado do ato, solicitando que eles fossem demitidos.

Alegou ainda, que a demissão de um médico que não estaria trabalhando de acordo com a OSS teria gerado novo conflito com Altair da Saúde. De acordo com Cleudson, o prefeito pediu que o médico fosse recontratado, por ser muito querido pela comunidade e para atender indicação de um vereador.

Ainda de acordo com ele, o pedido foi atendido com relação ao médico, que foi recontratado pela OSS, mas a medida teria feito com que o gerente médico da Pacamebu pedisse demissão.

Troca da gestão da UPA de Agudas causou conflito e foi preciso intervenção da Polícia Militar (Foto: Reprodução/TV Tem Bauru)

Raiva

Segundo o médico, devido aos conflitos, ele teria combinado a substituição da OSS por outra e o prefeito, sendo que o prefeito falaria que a troca da gestora da UPA seria por uma questão de renovação, de oxigenação.

Entretanto, de acordo com ele, ao ser questionado pela imprensa, Altair teria falado que a OSS Pacaembu não prestava um bom serviço e por isso houve a troca.

“Aí eu fui falar com ele e ele virou as costas. Então assim, eu fiquei com raiva dele. Por que com raiva? Porque ele queria que eu recontratasse um médico que não prestava e que mandasse 29 pessoas embora, que ficaram sem receber e foram reclamar. Era direito delas. Combinou que iria tirar e colocar outra, mas depois foi lá falar que tirou porque a gente não administrava direito”, declarou.

Cassação

Segundo Cleudson, como havia uma CPI em andamento na Câmara pedindo a cassação do prefeito, havia um grupo de vereadores favoráveis à cassação e um contrário. Ainda de acordo com ele, no grupo que votaria para o prefeito ser mantido no cargo havia dois parlamentares que eram amigos de infância dele, com os quais decidiu falar.

"Eu falei olha, é o seguinte: eu não sei do que se trata essa cassação, eu vim aqui para falar o que aconteceu na UPA. Ele nunca me pediu nada, mas ele também não podia fazer isso, mandar esses 29 funcionários embora, então eu não concordo com a atitude dele. Então eu vim aqui não foi para pedir o voto de vocês não, foi pra falar o que ele fez; como amigo de infância que eu sou de vocês. Então vocês analisam lá”, contou.

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Sessão realizada em maio deste ano cassou o prefeito Altair da Saúde, de Agudos, pela segunda vez (Foto: G1/Divulgação)

Afastado

Altair da Saúde teve o mandato cassado pelos vereadores pela primeira vez em 27 de novembro de 2019, por 10 votos a 3, por supostas irregularidades na contratação de uma empresa de assessoria, por R$ 2 milhões, sem licitação. No início de dezembro ele foi reconduzido ao cargo por meio de liminar.

A segunda cassação aconteceu em 13 de maio deste ano, também por 10 votos a 3, desta vez por supostas irregularidades na construção de uma escola. Porém, em 28 de maio a Justiça de Agudos suspendeu a sessão na qual foi aprovada a cassação e declarou nulo decreto Legislativo, reconduzindo o prefeito ao cargo.

Fim do contrato

Segundo matéria publicada no site G1, a OSS Pacaembu teve o contrato de gestão rompido pela Prefeitura de Agudos em 10 de junho de 2019.

O distrato foi traumático, com servidores municipais trocando fechaduras das portas da UPA, medida que teria causado tensão entre as partes e foi necessária intervenção da Polícia Militar.

Ainda de acordo com a publicação, na ocasião o procurador Jurídico da Prefeitura, Salatiel Vicente, alegou que havia acordo entre a OSS e administração municipal para regularizar os pagamentos pendentes e a Pacaembu deixar a gestão da UPA de forma amigável.

Entretanto, o diretor administrativo da UPA, Régis Pauleti, preso uma semana após ser deflagrada a Operação Raio X, argumentou na época que havia um aditivo ao contrato, prorrogando-o contrato até 2020.

Ele afirmava ainda que o município devia cerca de R$ 1,2 milhão em repasses à Pacaembu por serviços prestados.

Título de Cidadão foi início da vingança de Cleudson, segundo a investigação

Vereador Batata, de Agudos, também foi preso durante a operação Raio X (Foto: Reprodução)

O plano de vingança de Cleudson Garcia Montali contra o prefeito de Agudos, Altair Francisco Silva (PRB), o Altair da Saúde, por ter rompido o contrato com a Santa Casa de Pacaembu para gestão da UPA (Unidade de Pronto Atendimento), teria começado com a concessão a ele do Título de Cidadão Agudense, segundo apontado pela Operação Raio X.

A horaria foi entregue a ele em 12 de julho de 2019, ou seja, um mês após o rompimento do contrato. A cerimônia foi divulgada em reportagem exibida pelo Fantástico, da Rede Globo, no domingo seguinte aos mandados de prisão serem cumpridos durante a operação.

Na ocasião, chamou a atenção o fato de o vereador Valdemir Frederico (PTB), de Birigui, o Vadão da Farmácia, ter aparecido na reportagem.

O parlamentar de Birigui explicou ao Hojemais Araçatuba que foi mestre de cerimônia do evento, pois a apresentação seria feita pelo radialista Paulo Brito, também de Birigui, que não pode fazê-la por ter problemas de visão.

Força política

Para a investigação, a concessão do Título de Cidadão a Cleudson, apesar de ele mesmo ter declarado que é de Agudos e nasceu em Bauru somente por questão das condições do hospital, foi a forma de consolidar a força política dele.

Segundo o que foi apurado, a festa que aconteceu em uma instância da cidade teria custado R$ 160 mil.

Ainda de acordo com o que foi apurado, Régis Pauleti, que era o diretor administrativo da UPA de Agudos, é cunhado do vereador Glauco Luís Costa Ton, o Batata (MDB).

O parlamentar está entre os presos na Operação Raio X, acusado de ter recebido pelo menos R$ 50 mil em propina para votar pela cassação do prefeito e de ter pago outros vereadores para também votar pela cassação.

Ameaça a juiz

Como a Justiça reconduziu Altair da Saúde ao cargo após ele ter o mandato cassado duas vezes pela Câmara, a suposta Organização Criminosa, que seria liderada por Cleudson, teria passado a ameaçar o juiz autor das decisões que o reconduziram ao cargo.

O Hojemais Araçatuba apurou que dois boletins de ocorrência que foram registrados pelo magistrado em Bauru. O primeiro em 7 de janeiro deste ano, após ele receber correspondência com conteúdo calunioso e difamatório.

A carta foi postada em 18 de dezembro, tendo como remetente "Rui Barbosa" e endereço a agência do Banco do Brasil da cidade.

A correspondência datilografa em tom ameaçador, estava acompanhada de matéria publicada pela imprensa, relacionada ao afastamento do prefeito de Mineiros do Tietê, município também sob jurisdição da Justiça de Agudos.

Fake News

Doze dias antes de a Operação Raio X ser deflagrada, em 17 de setembro deste ano, o juiz registrou novo boletim de ocorrência, desta vez por calúnia e injúria.

A medida foi tomada após divulgação no Facebook e em grupos de conversas do WhastApp de moradores de Agudos, mensagens que estariam denegrindo o magistrado por meio de notícias falsas, as chamadas "fake news" .

Essas mensagens informavam que o juiz estaria "dando uma força lá em SP para segurar o processo de cassação do prefeito de Agudos”. Diante da publicação, houve vários comentários, inclusive de advogados da Comarca, denegrindo o Poder Judiciário de forma geral.

Comprado

Ao registrar essa ocorrência, o juiz reforçou que em janeiro havia feito outro boletim após receber correspondência na qual era acusado de ter recebido propina para decidir pela recondução do prefeito de Agudos ao cargo.

Segundo o que foi apurado pela reportagem, a investigação apontou que as mensagens difamatórias teriam sido publicadas por Luiz Francisco Costa Ton, que é irmão do vereador Batata. Ele também foi preso durante a Operação Raio X.

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