Ex-diretor geral do Hospital Geral de Carapicuíba (SP), Fernando Rodrigues de Carvalho, foi mantido na folha de pagamento da OSS (Organização Social de Saúde) Associação da Santa Casa de Pacaembu, mesmo após ter sido preso na Operação Raio X, deflagrada em 29 de setembro pela Polícia Civil de Araçatuba.
A informação consta no relatório da CPI das Quarteirizações, que foi aprovado na quarta-feira (2), com base em entrevista feita com a substituta dele, a médica Maria Paula Loureiro de Oliveira Pereira, em visita dos parlamentares ao hospital 13 de outubro, duas semanas após a operação.
Os parlamentares foram ao hospital após Fernando aparecer no Fantástico em reportagem sobre a investigação, ao lado de supostas garotas de programa, em um American Bar pertencente a outra investigada, que tinha contrato com a OSS.
Segundo o relatório, Maria Paula admitiu que ela, que também é ré em processo por lavagem de dinheiro; Fernando; e a araçatubense Liege Tada Batagim dos Santos, que era diretora do PAI (Polo de Atenção Intensiva em Saúde Mental) da Baixada Santista, contratada da Pacaembu e que também estava presa na ocasião, continuavam na folha de pagamento do hospital, recebendo os salários pagos com recursos públicos do contrato de gestão com o governo do Estado.
Substituta
Os deputados relataram que na ocasião da visita, Maria Paula respondia pelo Hospital havia duas semanas, em função da prisão de Fernando na operação Raio X. Eles citam no relatório que ela também fora alvo da operação, com cumprimento de mandado de busca na casa dela.
“Embora não tenha sido presa, ela virou ré no processo ao lado do diretor-geral do hospital e de outras pessoas ligadas à Associação da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de Pacaembu, sob suspeita de integrar a organização criminosa que teria desviado milhões de reais da Saúde”,
consta no relatório.
O que chamou a atenção dos parlamentares, é que apesar das
“graves acusações que recaíam sobre Maria Paula”
, além de responder pelo hospital de Carapicuíba, ela respondia cumulativamente pela gerência do AME (Ambulatório Médico de Especialidades) de Carapicuíba, também administrado pela Santa Casa de Pacaembu, onde já acumulava o cargo com direção técnica antes da operação Raio X.
Durante a visita dos deputados ao hospital, Maria Paula estava acompanhada do advogado Pedro Leitão Magyar, que se apresentou como assessor jurídico da organização social, segundo o relatório da CPI.
O advogado informou na ocasião que as rescisões dos diretores presos chegaram a ser preparadas, mas foram suspensas sem maiores explicações por orientação da Secretaria da Saúde, segundo ele.
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Salários
Consta ainda no relatório, que Fernando e Liege eram contratados da OSS investigada, enquanto Maria Paula trabalhava como quarteirizada, apesar de ocupar cargo de direção. Os pagamentos dela eram feitos por meio da Clinart Ltda, totalizando R$ 54 mil mensais, sendo R$ 42 mil pelo Hospital de Carapicuíba e R$ 12 mil pelo AME.
Entretanto, ela contou que o valor poderia ser maior em alguns meses, devido a serviços de consultoria que prestava a outras unidades administradas pela OSS de Pacaembu, como o AME de Sorocaba.
As informações chamaram a atenção dos deputados pelos valores e pelas jornadas, em tese, simultâneas. Segundo Maria Paula, a carga horária dela seria de 30 horas semanais no Hospital de Carapicuíba e 30 horas no AME, enquanto as consultorias seriam prestadas fora desta grade.
Quarteirização
Ainda de acordo com os deputados, o vínculo quarteirizado de Maria Paula não era exceção na unidade, pois na data da diligência, o Hospital Geral de Carapicuíba tinha 340 médicos, dos quais apenas 23 médicos contratados sob regime da CLT (Consolidação das Leis do Trabalho).
Segundo a CPI, os outros 317 prestavam serviços por meio de empresas em que
"funcionários"
figuram como sócios.
Maria Paula e o advogado relataram que após a reportagem do Fantástico, sete contratos de prestadores de serviços do hospital foram rescindidos por determinação da Secretaria de Saúde do Estado.
Veja abaixo a relação desses contratos:
Imagem: Reprodução
American Bar
Entre eles está um contrato assinado em março de 2019 com a empresa Lucirene do Rocio Gandeline Eireli, gerenciamento logístico dos enxovais e descartáveis cirúrgicos e auditorias periódicas por amostragem. Por esse contrato eram pagos R$ 34 mil mensais.
Lucirene é a proprietária do American Bar citado na reportagem do Fantástico e apontada pela investigação, segundo o relatório da CPI, como uma
“cafetina”
que emprestava as contas bancárias para Fernando movimentar recursos desviados da Saúde.
Parte desse dinheiro bancaria festas do então diretor do Hospital de Carapicuíba com garotas de programa agenciadas por Lucirene, ainda segundo consta no relatório.
Os deputados relataram que durante a visita, Maria Paula e o advogado procuraram negar qualquer vínculo com o esquema investigado pela operação.
Eles afirmaram que todos os contratos do hospital eram controlados diretamente por Fernando, que seria o único que mantinha contato com o médico Cleudson Garcia Montali, apontado como o chefe da suposta organização criminosa que desviava dinheiro da Saúde.