Política

Bolsonaro compara Moro a Judas e nega querer interferir na Polícia Federal 

O presidente disse que ex-ministro teria concordado com troca do comando da Polícia Federal, mas se ela ocorresse apenas em novembro, depois que ele fosse nomeado para uma vaga no Superior Tribunal Federal 

Lázaro Jr. - Hojemais Araçatuba
24/04/20 às 18h56

[*Matéria atualizada às 19h55]

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) declarou em pronunciamento na tarde desta sexta-feira (24), que ficou decepcionado com a atitude do ex-ministro Sergio Moro, que convocou a imprensa pela manhã, e anunciou sua demissão. 

A medida foi tomada após a exoneração do diretor-geral da Polícia Federal, Maurício Leite Valeixo, ser publicada no Diário Oficial da União de hoje. O ex-juiz da Lavajato citou possível interesse do presidente em interferir na Polícia Federal, o que foi negado.

Valeixo era homem de confiança de Moro, que durante pronunciamento disse que não havia sido comunicado previamente da exoneração. Também afirmou que a exoneração não foi a pedido, como foi publicado no Diário Oficial.

Além de rebater o ex-ministro e afirmar que não precisava de autorização de ninguém para exonerar Valeixo, Bolsonaro declarou que Moro teria concordado com a troca da direção da PF, mas que ela ocorre só em novembro, depois que ele fosse nomeado para uma das vagas no STF (Supremo Tribunal Federal).

Decepção

O presidente iniciou o pronunciamento falando da decepção com o ex-ministro, dizendo que só se conhece as pessoas quando se convive com elas.

“Uma coisa admirar a pessoa, outra é conviver com ela, que tem compromisso consigo próprio, com o ego e consigo mesmo. Sabia que ele iria dar um jeito de botar uma cunha entre eu e o povo brasileiro”, disse.

Ele contou ainda, que durante café da manhã com alguns deputados, nesta sexta-feira, comentou que hoje todos conheceriam quem não queria vê-lo na cadeira da presidência, sem citar nomes, mas fazendo referência a Sergio Moro, comparando-o a Judas, que traiu Jesus Cristo.

Autonomia

Bolsonaro declarou que sempre foi do diálogo, nunca impôs algo a Sergio Moro, que resolveu marcar uma coletiva para fazer acusações infundadas, que na opinião dele, irá “deslustrar” a própria biografia do ex-juiz.

E comentou que enquanto o ex-juiz tem uma biografia a zelar, ele tem o Brasil a zelar. “Não apenas fiz um juramento na escola preparatória do Exército em Campinas de dar a vida se preciso fosse, mas tenho dado a vida da família, que é alvo das acusações mais torpes possíveis”, declarou.

Argumentou que se tem o poder de trocar um ministro, pode trocar o diretor da Polícia Federal sem ter que pedir pra ninguém.

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O presidente Jair Bolsonaro negou ter interesse de interferir na Polícia Federal (Foto: Lázaro Jr./Arquivo)

Descontentamento

O presidente confirmou que ao convidar Moro para compor o governo, deu a ele autonomia, mas teria deixado claro que com relação a cargos chaves, como o de diretor-geral da Polícia Federal, as indicações passariam pelas mãos dele. E foi o que aconteceu com a nomeação de Valeixo, indicado por Sergio Moro.

Apesar de ter afirmado que de forma alguma quer interferir na Polícia Federal, o presidente admitiu insatisfação com o andamento de algumas investigações, entre elas, a do ataque ao qual foi vítima durante a campanha eleitora, quando levou uma facada.

Também citou o caso do porteiro do condomínio onde mora, no Rio de Janeiro, relacionada à morte da vereadora Mariele Franco.

“...Se preocupou mais com quem matou Mariele... ...A vida do presidente da República tem um significado, é um chefe de Estado”. declarou.

A pedido

Bolsonaro alegou ainda que desde janeiro Valeixo demonstrou interesse em deixar o comando da PF e teria confirmado isso em videoconferência na quinta-feira (23).

“Sempre confiei nele e abri, meu coração, disse que não tinha informações da PF e que teria que ter um relatório do que acontece nas últimas 24 horas, para poder decidir o futuro do País”, comentou.

Nesse contexto, o presidente disse que falou para o ex-ministro que era o momento de colocar "um ponto final no Valeixo" e contou a Moro na quinta-feira que nesta sexta-feira publicaria a exoneração, pelo que tudo indicava, a pedido.

Ainda segundo o presidente, Moro teria concordado com a troca, desde que o substituto fosse um nome indicado por ele. Diante do impasse, não houve acordo.

“Eu lembrei da lei, que é a prerrogativa é minha de nomear e exonerar. Se eu tiver que me submeter a subordinado eu deixo de ser presidente”, declarou.

Bolsonaro disse apesar de não ter definido o assunto com Moro, na noite de quinta-feira ele próprio telefonou para Valeixo, informando que ele seria exonerado e ele teria concordado.

“Desculpe, mas não vai me chamar de mentiroso”, disse o presidente, referindo-se à fala do ex-ministro, de que a exoneração não havia sido feita a pedido.

Fidelidade

Bolsonaro também reclamou da falta de fidelidade de Moro, que não estaria defendendo as ideias do governo federal.

Citou ter pedido a ele que se manifestasse como ministro da Justiça e Segurança Pública, sobre medidas adotadas por alguns governadores e prefeitos, que estariam resultando em prisões de pessoas com uso de algemas, por descumprir decretos de quarentena.

“Prefeitos e governadores estão cometendo tremendos absurdos e o governo federal tem que posicionar, o que incomodou Moro", disse.

Alegou ainda que o ex-ministro é um desarmamentista e quem tem dificuldade de facilitar a compra de armamento e munição, que é o que foi defendido por Bolsonaro durante a campanha.

“Não posso aceitar ter integridade confrontada por qualquer ministro. Continuarei fiel a todos os brasileiros no combate à corrupção e à criminalidade. Travo o bom combate. Minha preocupação é entregar o Brasil bem melhor do que recebi no ano passado”, declarou.

Por fim, Bolsonaro argumentou que não pode conviver ou fica difícil a convivência com uma pessoa diferente dele. “Torci muito para dar certo, mas infelizmente, ou felizmente, no dia de hoje, após conversa de ontem, houve essa decisão”, finalizou.


* Correção: Diferente do publicado entre as 18h56 e as 19h55, o presidente Jair Bolsonaro está sem partido e não no PSDB como foi divulgado. Pedimos desculpas pelo erro que já foi corrigido.

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