Política

“Fui exonerado a pedido de dois vereadores”, afirma técnico demitido

Edson Fumaça denunciou suposta negociação de votos entre prefeito e vereadores para barrar CP em Birigui

Aline Galcino - Hojemais Araçatuba
07/03/19 às 21h03
Sessão foi suspensa após denúncia feita Edson Fumaça na tribuna (Foto: Aline Galcino)

As supostas irregularidades no pagamento de horas extras pela Prefeitura de Birigui (SP) e a não abertura de uma CP (Comissão Processante) pela Câmara dos Vereadores da cidade voltaram a ser debatidas na sessão desta quarta-feira (6).

O ex-funcionário da Prefeitura Edson de Almeida, que ministrava aulas de futebol para menores na cidade, usou a Tribuna Livre para denunciar uma suposta negociação de votos para barrar a CP das horas extras, ocorrida entre o prefeito Cristiano Salmeirão (PTB) e vereadores de sua base. Uma das moedas de troca teria sido sua exoneração do cargo, por “intriga” política, segundo ele.

Antes de fazer a denúncia, Almeida, que é conhecido como Edson Fumaça, apresentou um vídeo com várias fotos do projeto que desenvolvia no cargo: a escolinha de futebol para categorias de base, do Centro de Lazer dos Trabalhadores, que fica na Vila Xavier. As fotos mostravam o local com as crianças, durante o trabalho, e depois, vazio. Crianças e pais deram depoimentos sobre o benefício que o projeto proporcionou em suas vidas.

Justiça

“Colocamos bancos para atender pais e população que vão ver os jogos, mantivemos o centro de lazer limpo e organizado (...) e, por incrível que pareça, foi pelo crescimento desse lugar, desse projeto, que eu ouvi da boca do Cristiano Salmeirão que fui exonerado a pedido de dois vereadores desta Casa, infelizmente. É por isso que estou aqui, pela Justiça e respeito, pela injustiça com o trabalho que realizei”, disse na tribuna.

"Ouvi da boca do

Cristiano  Salmeirão

que fui exonerado a

pedido de dois

vereadores desta

Casa, infelizmente"

Assim que ele ameaçou citar o nome dos vereadores que teriam pedido a exoneração, o líder do prefeito Andrey Fernando Servelatti (PSDB) pediu questão de ordem e informou que não se pode atacar vereador e prefeito. “Vingança pessoal, não”, disse.

O som do microfone de Fumaça foi cortado e o presidente da Casa, Felipe Barone Brito (PPS), pediu que ele se dirigisse de volta ao plenário.

Edson continuou a falar, em voz alta. Disse que ele perdeu o cargo a pedido de dois vereadores - Cláudio Barbosa de Souza, o Kal (PSB), e José Roberto Merino Garcia, o Paquinha (MDB). Em troca, os parlamentares votaram contra a abertura da CP que poderia cassar o mandato de Salmeirão.

Assim que concluiu, foi aplaudido pelos presentes. A sessão foi suspensa.

Regras

Barone explicou que a Tribuna Livre tem algumas restrições. Uma delas é usar o espaço para discorrer apenas sobre assunto que foi pedido pelo munícipe na hora da inscrição. Também é vedado ataque pessoal a qualquer parlamentar.

“O senhor Edson infringiu as duas normas, que foi se afastar do tema em que foi inscrito e de fazer ataques pessoais a vereadores da Casa”, explicou Barone, sobre o corte do som do microfone usado por Fumaça.

Vereadores assistem vídeo sobre o projeto desenvolvido por Edson quando era técnico do município (Foto: Aline Galcino)

Incomodou

Na manhã desta quinta-feira (7), Fumaça falou ao Hojemais Araçatuba sobre o caso. Contou sobre o projeto da escolinha de futebol, que começou do zero. “O centro de lazer estava abandonado. Tiramos 20 caminhões de lixo e entulho, na época, para começar o projeto. Reformamos todo o local. O prefeito deu espaço para eu trabalhar e eu fui atrás”, contou.

O projeto chegou a atingir 150 garotos e começou a incomodar. Edson conta que chegou a ser chamado na Prefeitura porque diziam que ele estava usando o trabalho para fazer política, já que a escolinha envolvia muitas famílias. “Mas eu jamais esperava que ia incomodar a esse ponto, a ponto de ser demitido”, disse.

O próprio prefeito, segundo Edson, disse que não queria demiti-lo, mas que não teve outra saída. “Ele falou que não queria me mandar embora pelo trabalho que eu estava fazendo, mas que precisava, porque os vereadores queriam a exoneração e ele precisava dos votos”.

Fumaça conta que foi dispensado em 11 de fevereiro, véspera da votação da CP na Câmara. No dia 12, ele chegou a ir trabalhar, mas o prefeito pediu que desse um tempo e não fosse mais ao centro de lazer. De acordo com a Prefeitura, a exoneração de Edson foi publicada no dia 19.

Kal negou qualquer envolvimento com o caso: "É rixa de perdedor", disse na tribuna (Foto: Aline Galcino)

Votos

Para o ex-funcionário, os vereadores que pediram sua exoneração estavam pensando nas próximas eleições, em votos da população. Filiado ao PRB, Edson foi candidato a vereador nas últimas eleições municipais e afirma que será candidato novamente em 2020. “Eu tinha dúvidas, agora, com todos esses acontecimentos, eu não tenho mais”.

Sobre a decisão de usar a tribuna para expor o caso, afirma que precisava fazer isso para que a população soubesse a verdade ou “ia ficar mais uma coisa no anonimato”.

No entanto, diz que não irá parar e que já está procurando um local para continuar a treinar crianças no futebol, com apoio de parceiros. “Quem quer, faz. Eu acredito que quando você tem um sonho, você tem que lutar por ele. É o que eu vou continuar fazendo, não vou desistir.”

Defesa

O vereador Kal usou a tribuna, no tema livre, e negou qualquer envolvimento com o caso. Segundo o parlamentar, Fumaça estava fazendo campanha política usando equipamento público e teria dado as declarações por rixa política. “É rixa de perdedor que estava na minha coligação”, disse. “Tem que saber respeitar o espaço dos outros. Fui eleito pelo povo, com 1.010 votos (...) ele ganhou para fazer o trabalho, não fez nada de graça”.

Paquinha não foi à sessão. A reportagem tentou contato com ele, mas não conseguiu até a publicação desta matéria.

Prefeitura

Questionada sobre a suposta negociação entre o prefeito e vereadores, a Prefeitura disse que respeita a opinião de Fumaça, mas que prefere não comentar.

Sobre o motivo da demissão, informou que “cargo comissionado o prefeito troca ou exonera quando entender”.

Fumaça trabalhou do dia 4 de janeiro de 2017 até o último dia 19, como chefe de sessão do estádio municipal e ministrava aulas de futebol para menores. Segundo a Prefeitura, outro profissional já está no cargo e os projetos do esporte continuam.

“As aulas de futebol para menores acontecem no Centro de Lazer do Trabalhador e são ministradas pelo professor Selmo, ex-goleiro profissional do Bandeirante de Birigui”, afirma o Executivo.

Foto mostra prefeito Cristiano Salmeirão e Edson Fumaça durante evento no Centro de Lazer dos Trabalhadores (Foto: Prefeitura/Arquivo)
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