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Família reencontra túmulo do tataravô após 80 anos em Três Lagoas e cumpre promessa no Dia de Finados

João Leonardo de Paula morreu em 1946, vítima de hemorragia, e foi sepultado na cidade por causa da dificuldade de transporte para Paranaíba. A história foi resgatada por um neto escritor e eternizada por um sobrinho que visitou o túmulo no Dia de Finados.

Patricia Acunha - Hojemais - Três Lagoas 
05/11/26 às 08h00
Túmulo foi visitado na última segunda-feira (02/11) (Reprodução/Facebook)

Existem histórias que o tempo insiste em apagar. Mas a família de Paula, conhecida em Paranaíba como os "Ponte Nova", não deixou. Após exatas oito décadas de silêncio e distância, a família finalmente localizou o túmulo do patriarca João Leonardo de Paula, que faleceu em Três Lagoas no dia 16 de abril de 1946, vítima de uma hemorragia. O reencontro, carregado de emoção, aconteceu justamente no período do Dia de Finados, quando o sobrinho Avandeur Aparecido da Costa depositou as primeiras velas e flores na sepultura em 80 anos.

A história começa no passado, na Fazenda Rio das Pedras, em Paranaíba (MS). João Leonardo adoeceu e, em busca de recursos médicos mais avançados, foi trasladado para Três Lagoas sob os cuidados das filhas Luzia e Ivan, e da nora Chiquinha. Ele ficou internado sob os cuidados do Dr. Orestes Prata Tibery, mas não resistiu.

Com os deslocamentos e transportes extremamente difíceis na época, a família optou por sepultá-lo em Três Lagoas, adquirindo uma sepultura própria. Com o passar dos anos, o falecimento sucessivo dos filhos e netos acabou soterrando a informação na memória familiar. A sepultura ficou sem visitas por oito décadas, um mistério que inquietava os descendentes.

EM BUSCA DO "FIO DA MEADA"

Senhor João ao lado de sua esposa (Arquivo pessoal)

O neto e escritor João de Paula Nunes sempre teve o hábito de pesquisar a história da família, incentivado pela avó. Ele chegou a escrever um livro sobre a trajetória dos Paula. "Eu sempre soube que ele foi sepultado em Três Lagoas e que, na época, era muito difícil transladar para cá. Os mais velhos retornaram para Paranaíba e nunca mais voltaram. Ficou perdido a vida inteira", conta.

A virada aconteceu quando João decidiu arriscar. "Um dia eu falei: gente, eu vou pesquisar. Achei o contato da administração do cemitério, mandei mensagem para uma moça chamada Fabiana. Ela me respondeu que era muito difícil porque era muito antigo, mas que ia pesquisar". E a resposta veio. Fabiana encontrou a sepultura e enviou fotos e vídeos.

"Eu achei que não íamos encontrar mais. Era uma agulha no palheiro. Mas não custava nada tentar", lembra João. Para confirmar o local, ele usou a certidão de óbito, encontrada no site do cartório de Três Lagoas, com a data precisa: 16 de abril de 1946, às 4h40 da manhã, no Hospital Nossa Senhora Auxiliadora. João Leonardo deixou a esposa e seis filhos, dois ainda crianças.

A homenagem no Dia de Finados

Com a localização em mãos, o plano era ir a Três Lagoas. Mas, como a distância e os custos dificultam, o sobrinho Avandeur Aparecido da Costa, que mora na cidade, foi o escolhido para representar a família. Ele não avisou quando iria. No Dia de Finados, Avandeur foi ao cemitério, depositou flores e velas e enviou a foto para João.

"Foi uma explosão de sentimento, uma emoção que não dá nem para expressar", desabafa o neto. "Eu fico imaginando a reação dos vizinhos do túmulo, que devem passar a vida inteira cuidando dos seus entes e, de repente, veem aparecer flores e velas num túmulo abandonado."

MEMÓRIA PRESERVADA

"Joãozinho", o tataravô chamado carinhosamente pelo tataraneto está enterrado em Três Lagoas (Arquivo Pessoal)

João de Paula conta que a família inteira sempre ouviu falar de João Leonardo, mesmo ele tendo falecido sem conhecer nenhum neto. Ele guarda fotos, objetos pessoais, como um carro de boi e marcas de gado. Agora, o sentimento é de dever cumprido.

"Os netos ficaram muito satisfeitos. Minha avó ficou boba de saber. A gente não sabia onde ele estava", revela. E os planos não param por aí. A família já se organizou para reformar o túmulo. "Eu já mandei fazer a placa com o nome dele, a data de falecimento e a fotografia, para colocar lá. Vamos manter a memória viva."

O ciclo de incertezas se fecha. As novas gerações agora sabem onde repousam os restos mortais do patriarca. E, como toda ferida que vira cicatriz, a história dos Ponte Nova finalmente encontrou a cura: o reencontro com suas raízes. Afinal, como diz o próprio João, "a família ia morrer todo mundo sem saber o que aconteceu com o túmulo do Joãozinho". Hoje, eles sabem. E podem, finalmente, visitá-lo.


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