Pela primeira vez desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua) , do IBGE , o número de crianças brasileiras entre 10 e 13 anos que possuem telefone celular apresentou queda. O resultado revela uma mudança inédita no comportamento das famílias diante das preocupações com a segurança digital e a exposição de menores na internet.
Os dados, divulgados nesta quinta-feira (2), mostram que 55,2% das crianças dessa faixa etária tinham celular em 2025 , índice 1,5 ponto percentual inferior ao registrado em 2024. Embora a redução seja pequena, ela interrompe uma sequência de crescimento contínuo observada ao longo da última década no acesso de crianças e adolescentes à tecnologia.
Segundo o levantamento, a principal razão para a mudança está relacionada à preocupação dos responsáveis com a privacidade e a segurança online . Entre as famílias cujos filhos ainda não possuem celular, 32% afirmaram que esse foi o principal motivo para adiar ou evitar a compra do aparelho.
O percentual representa um aumento de 7,8 pontos percentuais em relação a 2024 e praticamente dobrou quando comparado a 2022.
Segurança digital passa a ser a principal preocupação
A pesquisa também mostra uma mudança no perfil das justificativas apresentadas pelas famílias.
Nos últimos anos, o preço dos aparelhos era apontado como o principal motivo para que crianças não tivessem celular. Também eram frequentes respostas como a falta de necessidade ou o compartilhamento do aparelho com outros membros da família.
Agora, a segurança digital ocupa o primeiro lugar entre as preocupações.
Para o analista do IBGE , Gustavo Fontes , o resultado acompanha um debate cada vez mais presente na sociedade.
"A gente tem visto cada vez mais uma preocupação com a segurança das crianças, com a exposição delas nas redes sociais, por exemplo. A gente teve também em 2025 uma restrição ao uso de celulares nas escolas", afirmou.
O levantamento reforça uma tendência observada em diversos países, onde famílias, educadores e especialistas discutem os impactos do uso precoce de smartphones sobre a saúde mental, a aprendizagem e a socialização de crianças e adolescentes.
Acesso à internet também diminui entre crianças
Além da queda na posse de celulares, o acesso à internet entre crianças de 10 a 13 anos também registrou leve retração.
O percentual passou de 84,9% para 84,4% , sendo a única faixa etária a apresentar redução.
Entre as crianças que continuam sem acesso à internet, a justificativa mais comum permanece sendo a percepção de que o serviço não é necessário. Em seguida aparecem novamente as preocupações com privacidade e segurança digital .
Já entre adolescentes de 14 a 19 anos , o acesso à internet permaneceu estável.
Na população brasileira em geral, porém, a utilização da internet continua em expansão. Em 2025 , 90,5% dos brasileiros utilizaram a rede, acima dos 89,2% registrados em 2024.
Idosos ampliam presença no ambiente digital
Enquanto o uso desacelera entre as crianças, a inclusão digital da população idosa continua avançando.
De acordo com o IBGE , 74,5% dos brasileiros com mais de 60 anos utilizaram a internet em 2025. O índice representa crescimento de 4,4 pontos percentuais em relação ao ano anterior e aumento superior a 29 pontos percentuais na comparação com 2019.
A posse de celulares entre os idosos também aumentou, passando de 78,3% para 80,3% .
Entre aqueles que ainda permanecem desconectados, a principal dificuldade relatada não é o custo dos equipamentos nem questões relacionadas à segurança, mas sim a falta de conhecimento para utilizar a tecnologia.
Segundo Gustavo Fontes, a crescente digitalização dos serviços explica parte desse avanço.
"A internet está cada vez mais inserida no cotidiano. Muitos serviços hoje são feitos pela internet, então existe um certo estímulo para os idosos buscarem utilizá-la", destacou.
Bancos digitais e compras online impulsionam uso da internet
O estudo mostra que a internet está cada vez mais presente na rotina dos brasileiros.
O acesso a serviços bancários digitais chegou a 74,2% dos usuários da internet em 2025, crescimento de 14,4 pontos percentuais em relação a 2022.
O uso da rede para acessar serviços públicos também aumentou, passando de 33,2% para 41,1% no mesmo período.
Outro destaque foi o avanço das compras online . Pela primeira vez, mais da metade dos brasileiros conectados afirmou utilizar a internet para comprar ou encomendar produtos e serviços. O índice subiu de 47,9% para 52,7% .
Apesar dessas mudanças, a principal finalidade da internet no Brasil continua sendo a comunicação . Cerca de 95,3% dos usuários realizam chamadas de voz ou vídeo pela rede. Em seguida aparecem o envio de mensagens por aplicativos ( 90,2% ) e o consumo de vídeos, filmes e séries ( 89,3% ).
