Icléia Caires Moreira, doutora em Estudos linguísticos, pela UFMS. (Foto: Hojemais Três Lagoas)
Em alusão ao Dia dos Povos Indígenas, celebrado em 19 de abril, a equipe do Hojemais Três Lagoas esteve na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul para conversar com a professora Icléia Caires Moreira, doutora em Estudos Linguísticos e pesquisadora da área de Análise do Discurso.
Durante a entrevista, a docente destacou que a data, criada em 1943 como “Dia do Índio”, passou por uma atualização apenas em 2022, quando foi oficialmente reconhecida como Dia dos Povos Indígenas, reforçando a necessidade de reconhecer a diversidade étnica existente no país.
“É uma data simbólica que ativa a memória, mas esse debate precisa acontecer todos os dias”, afirma.
Segundo Icléia, um dos principais desafios está na forma como os povos indígenas ainda são retratados nos materiais didáticos. Apesar da obrigatoriedade prevista na Lei 11.645/2008, que determina o ensino da história e cultura indígena nas escolas, muitos conteúdos ainda reproduzem visões ultrapassadas.
“É comum o uso do termo ‘índio’, associado a uma visão colonial, além de estereótipos como o ‘bom selvagem’ ou a ideia de que os indígenas vivem apenas em aldeias”, explica.
A professora ressalta que esses discursos impactam diretamente a formação dos estudantes, reforçando preconceitos e invisibilizando a presença indígena na sociedade contemporânea.
“Os povos indígenas estão em todos os espaços: são professores, artistas, escritores e pesquisadores. Reduzir essa realidade é uma forma de exclusão”, pontua.
Pesquisadora do projeto “Sujeito(s), identidade(s) e Exclusão”, Icléia analisa como essas representações são construídas e disseminadas. O trabalho da professora também conta com livros publicados, incluindo a obra
“Os descaminhos da in-exclusão”, resultado de sua pesquisa acadêmica, disponível gratuitamente online.
Para ela, compreender a constituição do sujeito indígena passa por identificar como a linguagem e os discursos moldam essas imagens ao longo do tempo.
Como alternativa, a docente desenvolve na universidade o projeto de extensão “Letramento Racial Crítico”, que leva literatura indígena para dentro das escolas e promove a formação de futuros professores. A iniciativa envolve acadêmicos dos cursos de Letras e já foi aplicada em parceria com escolas da rede pública de Três Lagoas.
Para a professora, o caminho está na educação crítica e no contato com produções de autoria indígena.
“É preciso ir além da obrigação legal e pensar em como trabalhar esse conteúdo de forma responsável, para combater o racismo e valorizar a diversidade”, destaca.
Ao final, Icléia deixa um convite à reflexão:
“Cada pessoa precisa se perguntar o que pode fazer, no seu lugar, para combater o racismo e respeitar os povos indígenas. Essa é uma responsabilidade coletiva”.
Confira a entrevista completa: