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Adolescente e mãe: os desafios da gravidez precoce

Em 2018 Três Lagoas registrou 80 casos de adolescentes gestantes com idade entre 10 e 20 anos

Ana Carolina Kozara e Aurora Vilalba - Hojemais Três Laogoas
09/02/19 às 08h20
Isabela Clemente e a mãe Rosana Cruz (Foto: Aurora Vilalba)

Mãe aos 14 anos, Isabela Clemente viveu os desafios da gravidez na adolescência; foi com a ajuda da família - em especial da mãe, Rosana Cruz - que conseguiu superar as dificuldades da gestação e aliar a criação da filha com os estudos, a carreira e a vida social.

Isabela conta que sua gestação foi muito difícil. Ela acabara de entrar na adolescência; seus pais ficaram chocados com a notícia e, por onde passava ouvia comentários maldosos e julgamentos que feriam ainda mais o seu psicológico já abalado.

Mesmo com toda a pressão, em nenhum momento pensou em abandonar ou abortar o bebê. Mesmo muito nova a menina tinha a consciência de assumir as consequências de seus atos

Rosana conta que sabia das relações sexuais da filha com o namorado e que Isabela tomava o comprimido anticoncepcional; mas, precisou fazer um tratamento com antibióticos que cortaram o efeito da pílula contraceptiva; foi neste intervalo que a adolescente engravidou.

Isabela tinha a menstruação regulada; quando atrasou e a menina começou a passar mal, Rosana já sabia que a filha estava grávida. A irmã mais velha de Isabela foi quem comprou o teste de gravidez de farmácia e que levou a menina para confirmar o resultado com o exame de sangue.

“Ela estava com apenas 14 anos; a gente, que é mãe, desconfia; mas, não quer acreditar e vai deixando para lá” – disse Rosana.

Isabela e a filha Lorena. (Foto: Facebook)

A gestação foi um desafio para a família; o marido de Rosana teve dificuldades em aceitar a gravidez. Isabela sofreu muito durante as 39 semanas de gestação, precisando ir, semanalmente, ao hospital receber medicações intravenosas. Mas, vencidos todos os desafios, Lorena nasceu; a primeira pessoa que a viu sair do ventre da mãe foi sua avó. Rosana conta que, quando viu o brilho no olhar da neta, seu amor - que já era grande – explodiu; hoje a menina é o anjo da família.

Todos os dias são desafiantes. Rosana conta que ajuda a filha, cuida da neta para que a jovem possa continuar os estudos e trabalhar.

Rosana e a neta Lorena. (Foto: Facebook)
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Uma pesquisa recente da Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que, no Brasil, a cada mil adolescentes - com idade entre 15 e 19 anos - 58,4 engravidam; ou seja, mais de 5% das mulheres, nesta faixa etária, passam pela gestação precoce. Em 2018, Três Lagoas registrou 80 casos de adolescentes gestantes com idade entre 10 e 20 anos

De acordo com a secretária-adjunta dos Direitos da Criança e do Adolescente, Viviane Petinelli, a gravidez não planejada nesta faixa etária gera impactos na vida da adolescente e pontua como principais: o abandono da escola e a dificuldade de colocação no mercado de trabalho.

“É possível que uma adolescente que engravide de forma não intencional esteja fora da escola e do mercado de trabalho” – disse Viviane Petinelli.

De acordo com Daniel Batista - do Conselho Tutelar de Três Lagoas - sexo só pode ser consentido entre os adolescentes com idade superior aos 14 anos; em todos os outros casos o conselho tem de ser comunicado e um procedimento de investigação é instaurado para verificar se houve negligência dos pais, corrupção de menor, estupro de vulnerável ou se outro tipo de crime foi cometido.

Para conscientizar os jovens de Três Lagoas a respeito dos riscos do sexo, o Conselho Municipal da Criança e do Adolescente - em parceria com o Ministério Público do Estado de Mato Grosso do Sul (MPMS) - criaram o “Programa Previna” que realiza o acompanhamento dos alunos do nono ano das escolas do município, realizando palestras e educando este público.

Ludmila palestrando no projeto Previna. (Foto: Arquivo pessoal)

O objetivo do programa é que o adolescente conheça melhor o seu corpo; entenda sobre os métodos contraceptivos e a prevenção de doenças. Para isso, são realizadas palestras dinâmicas com profissionais especialistas que, de forma lúdica, conscientizam os adolescentes e os ajudam a se valorizar e a dar mais importância à vida.

A Psicóloga Ludmila Agutoli é uma das técnicas deste projeto e, ao jornal Hojemais, contou que a iniciação sexual está acontecendo cada vez mais cedo; ela já atendeu alguns jovens que tiveram sua primeira experiência aos 12 anos.

Para a Ginecologista Larissa Zucca, a gravidez na adolescência é um caso de saúde pública e explica que, a partir da primeira menstruação a fecundação é possível. Estudos apontam que as principais causas da gravidez na adolescência são: a falta de informação; a desestruturação familiar; o uso inadequado da camisinha.

Zucca falou que uma adolescente gestante é considerada uma paciente de risco, já que o seu corpo ainda não está completamente formado e os riscos de parto prematuro ou de morte da mãe são altos. No ano passado o estado registrou 27 casos de morte materna e seis foram mães adolescentes.

Médica Ginecologista Larissa Zucca. (Foto: Arquivo pessoal)

Além das transformações físicas, a paciente passa por uma série de mudanças psicológicas que influenciam em sua autoestima; em muitos casos, ocasiona em uma nova gestação em um curto intervalo de tempo. Para evitar esta situação, a médica defende o implante do DIU após o parto.

As pacientes atendidas no município são submetidas a consultas com psicólogos, assistentes sociais, pedagogos, advogados e educadores sociais para que passem por um processo de aceitação da gravidez. Para o Psicólogo Luís Fernando Fochi, uma mãe que tem resistência à gestação pode se tornar uma adolescente negligente aos direitos do filho.

De acordo com a Assistente Social Mel Santos, não existe uma estatística de adolescentes grávidas no município; o que se tem é a percepção na diminuição do número de casos.

Na última quarta-feira (6) o governo do estado lançou a campanha alusiva à semana nacional de prevenção da gravidez na adolescência. A iniciativa é uma resposta à lei nº 13.798 sancionada pelo Presidente Jair Bolsonaro (PSL) e subscrita pela Ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves - que acrescenta ao estatuto da criança e do adolescente o artigo 8º A, que institui o dia 1º de fevereiro para o início da semana nacional de prevenção à gestação precoce.

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