Uma voz que nunca quis ser sozinha. Sua melhor companhia era o violão. Entre uma canção e outra, novos amigos e admiradores ela ia conquistando.
A voz que encantou multidões pelos bares da cidade na década de 80 e 90 se calou, mas as lembranças ainda vivem na memória daqueles que puderam desfrutar de bons momentos ao seu lado. A voz que estou falando é a de Dorival Alves de Souza , carinhosamente chamado de “Jabá” ou apenas “Menino Dori”. Apelidos que ele carregava em sua bagagem com muito carinho. O que poucos sabiam é que ele também tinha um irmão gêmeo, com o mesmo talento para cantar e tocar, e às vezes era confundido com “Jabá”.
Dono de um talento ímpar, “Jabá”, viveu a vida intensamente, levando sua música e a alegria por onde passava. Ele cantava por prazer, e era comum encontrá-lo dando uma “palinha” em reuniões com os amigos.
Sempre junto de seu parceiro inseparável, o violão, “Jabá” dedilhava canções que traduziam sua sensibilidade e a cultura brasileira. Idevaldo Garcia Leal Júnior é um dos amigos que Dorival fez cantando nos bares e eventos, em Três Lagoas.
Segundo Idevaldo, “Jabá” deixou um grande legado, a ser seguido e lembrado por aqueles que testemunharam sua trajetória.
Jabá com Idevaldo Garcia
“Jabá teve sua formação na Banda Marcial Cristo Redentor, como centenas de músicos três-lagoenses. Embora tivesse pouco estudo (segundo grau), ele lia muito e necessitava de muito pouco para estabelecer uma visão diferenciada sobre história, poesia ou política. Era um artista de contato com o público, que levantava qualquer ambiente com seu carisma, e sua performance irreverente, que retratava a geração que conviveu. Foi o primeiro artista que vi cantar Três Lagoas e região, através da sua composição mais famosa, Chamamé Ecológico, conhecida por “Sucuriú”. A música fala sobre o impacto do desenvolvimento econômico, sobretudo da Hidrelétrica de Jupiá e nossos principais rios. Ao mesmo tempo que falava sobre o impacto ambiental ele também falava das oportunidades que o desenvolvimento trouxe, como o turismo. Durante sua apresentação no 2º Salão Internacional de Turismo de MS, no Albano Franco, em 2008, ele dedicou à música ao Setor Turístico e falou sobre a importância de encontrarmos o equilíbrio entre o turismo e a ecologia”, disse Idevaldo.
Das singelas lembranças que Idevaldo guarda do amigo, está o dia em que “Jabá” arrancou aplausos no posto do Parque dos Poderes em Campo Grande.
“Por volta de 2005, um dia antes do lançamento do Mapa de Três Lagoas, ao chegarmos em Campo Grande, passamos no posto e havia um público grande, de motociclistas que frequentavam o local. Havia uma dupla de mulheres tirando um som ao vivo e, no intervalo, humildemente, “Jabá” pediu para dar uma palinha, e foi muito bem recebido pelas cantoras. O posto veio abaixo, os frequentadores subiram nas mesas ao som de “Cemitéro”. Era impressionante a facilidade que ele tinha de cativar públicos que nunca o viram. No dia seguinte assistimos ele cantar três músicas, no auditório do Sebrae MS, no lançamento do Mapa de Três Lagoas. Na plateia estavam Governador, Senadores, Prefeitos, autoridades de todo o Estado e ele cantou, em um palco maravilhoso, sob holofotes, sua principal canção na minha opinião, “Chamamé Ecológico” (Sucuriú). Ele tinha ciência da importância da sua sabedoria popular e soube, através da música, direcionar políticas públicas de desenvolvimento, sobretudo a integração entre cultura, meio ambiente e turismo”, contou.
Para Idevaldo, a convivência com o “Jabá” na Tribo do Sucuriú, onde ele se apresentava aos finais de semana o marcou muito.
“A sensibilidade dele aflorava em momentos inesperados, ligavamos todo o equipamento musical no palco só para ele cantar para o Rio Sucuriú, para as árvores e para os pássaros. É difícil descrever esses momentos que ele tinha, eram despretensiosos e únicos. O contato sem a música também deixou marcas. Aprendi muito com ele”, revelou Júnior.
A MÚSICA
O “Menino Dori” gostava de cantar Belchior, Benito de Paula (Meu amigo Charlie Brow), Caymmi, Tom Jobim, Zé Ramalho, Chico Buarque (Yolanda), Alceu Valença, Tim Maia e também interpretava canções de músicos regionais como Almir Sater, Paulinho Simões, Zacarias Mourão.
“Ele sempre tocava uma música regional de autor desconhecido, chama Pé da Serra “Fiz uma casinha branca, pra nós dois mora...Fica perto da Barranca, do Rio Paraná”. Quando cantava a música “Minha meiga senhorita”, fazia com uma sensibilidade inigualável, e isso fazia com que pedissem demais a música durante suas apresentações. Muito entre nós, ele confessava que detestava quando pediam (pediam muito, muitas vezes), e dificilmente tocava de imediato, guardando a música para o momento de inspiração própria”, relembrou o amigo.
COMPOSIÇÕES
Além do Chamamé Ecológico (Sucuriú), Jabá fez uma composição que ficou muito popular, uma música chamada “Cemitéro”, onde ele citava uma passagem da juventude em que os amigos pularam o muro do cemitério. Ele citava amigos (figuras três-lagoenses) que já se foram e brincava com os demais, ainda vivos. Dorival colocava todo mundo no “Sumitéro” (a pronúncia ia variando) enquanto ele jogava a viola nas costas e o bar ia abaixo.
Dorival se foi, mas deixou uma filha que herdou o talento do pai ( Imagem cedida por amigos de Jabá)
O AMIGO
Jabá era uma pessoa carinhosa e muito sensível, adorava estar em contato com a natureza, um amigo muito compreensível e muito humorado, “tirava sarro de tudo”. Sua gargalhada era sonora, como sua música.
Dorival se foi, mas deixou uma filha, Vitória, que é estudante de Arquitetura e cantora, pois “filha de peixe, peixinho é”.
Jabá, até a próxima!