Edna Ferreira Bezerra, 45 anos, mãe e três-lagoense vítima de violência doméstica, gravou um vídeo na internet relatando a rotina de agressões que sofria pelo ex-marido na frente dos filhos.
As imagens foram gravadas para um trabalho de faculdade do filho Roberto Ferreira ‘Robertinho’, 22 anos, e descrevem a realidade de muitas mulheres vítimas de violência.
Foram 30 minutos de gravação com diversas histórias. Segundo Robertinho em todo o processo do trabalho ele esteve ao lado da mãe e se manteve forte, sabendo que o resultado poderia ajudar outras mulheres a denunciar casos de ameaças e agressões que poderiam resultar em fins trágicos.
“Foi algo que eu não imaginei que iria doer tanto. Eu revivi a dor, eu sentia a dor dela, e eu acho que esse foi o “X” do trabalho. Trabalhei com a verdade e com um sentimento tão doloroso, fiz ele se tornar uma mensagem de incentivo para mulheres que passam pela mesma situação e eu amei o resultado final. Porem até hoje eu não consigo assisti-lo inteiro. Ainda dói muito”, afirma.
Edna conviveu com a violência desde a infância, por isso quando se casou considerava ‘comum’ ser agredida pelo marido. “Não tínhamos o que comer e o que vestir e ainda tinha a violência do meu pai, por isso casei cedo. Na primeira semana de casamento eu já apanhei e aquilo para mim era normal, porque eu via na minha casa quando eu era criança”, relata.
Ela relembra que o agressor a tratava com submissão e por diversas vezes a humilhava. “Teve vezes em que pedi para Deus me levar daqui, porque eu não queria mais apanhar. Ele nunca me via como mulher dele, ele me via como escrava, então eu tinha que trabalhar e aguentar ele me xingar, ele me humilhar, ele me bater. Eu cheguei a denunciar, mas nunca fizeram nada. No início eu tinha muito medo dele me matar”, conta.
A sucessão de violências, precedida por abusos físicos e psicológicos por pouco não tirou a vida de Edna. Ela foi abusada e torturada por três horas e meia com uma faca ‘peixeira’. “Ele entrou e pegou a peixeira, pegou no meu braço, me levou para o quarto, me fez tirar a roupa, quis fazer as coisas comigo, mas ele não conseguiu porque eu gritava muito e pedia para Nossa Senhora me libertar dali”, recorda.
“Queria que as pessoas colocassem na cabeça que o ser-humano não muda, se ele é agressivo ele vai ser agressivo sempre, e a minha vida depois que sai dali pegou outro prumo. Tem que denunciar e correr atrás do que acredita, não pode dar chance para ninguém te agredir”, finaliza.
Ranking da violência doméstica
Mato Grosso do Sul lidera o ranking de agressões contra mulheres, o ano de 2017 fechou 18.475 registros de violência doméstica, além de 27 feminicídios e 1.473 estupros.
De janeiro até agora, por exemplo, seis mulheres já foram vítimas de feminicídio, dois casos a mais que o registrado no mesmo período do ano passado, de acordo com a Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública).
Também já foram registrados 164 estupros, 2.899 crimes de violência domésticas e sete casos de assédio sexual - crime previsto desde 2001 no Código Penal. Outro dado alarmante, segundo o 11º Anuário Brasileiro de Segurança Pública publicado em 2017, é o crime de estupro. A maior taxa percentual totaliza 54,4 estupros para cada 100 mil habitantes.