É quando a vida de uma pessoa acaba que o trabalho deles começa. São profissionais que usam o conhecimento para proporcionar um fim digno e confortar os parentes de quem se foi. Darlei Souza Alves - conhecido como ‘Biro’, 48 anos, é gerente da Funerária Cardassi, em Três Lagoas. Ele conta com exclusividade ao Hojemais as curiosidades e histórias dos seus 23 anos de trabalho.
Não há como negar que as pessoas associam o convívio neste ramo com a presença do sobrenatural. Biro relata que passou por uma experiência de arrepiar.
“Tem uma história que aconteceu comigo, é um fato real. Eu morava no fundo da funerária e tinha um cachorro pinscher e ele começou a latir muito, como se estivesse latindo para alguém, ele arrepiava e ia para cima, avançava e eu não via nada. Foi a única vez em que me senti assustado”, relembra.
O gerente e ex-agente funerário também conviveu com um corpo desconhecido por 60 dias e fora da geladeira, o intuito era testar a tanatopraxia - moderna técnica de conservação de cadáveres .
“Nós fizemos o atendimento de um corpo em Araçatuba que não tinha família. Nós pedimos autorização ao delegado e ele autorizou fazer a tanato para ver quantos dias aguentava. Ele ficou sessenta dias fora da geladeira. Nós sepultamos ele porque já estávamos cansados de todo dia ficar olhando aquele rosto, estava marcando muito”, conta.
De histórias interessantes Gustavo Cardassi, terceira geração de proprietários da Funerária Cardassi, entende. “Já houve casos de amantes no funeral, filhos brigando por herança em pleno velório, acontece muito”, comenta.
Muitas pessoas também tratam dos funerais antes da morte, a medida segundo Gustavo, é comum. “Nós tivemos um caso onde uma senhora foi desenganada em 1975, ela comprou e pagou o funeral dela. Meu pai faleceu em 2004 e nós atendemos essa senhora em 2008. A família chegou com o papel amarelinho, que meu pai tinha escrito, perguntando se aquilo tinha validade e com certeza era uma honra atender, quarenta anos depois”, recorda.
“Tem essas particularidades. Nós também temos uma cliente que deixou o funeral pago para a família inteira. São pessoas que tem essa preocupação e precisamos atender da melhor forma, deixando claro que aquilo não tem um prazo para ser usado, tomara que demore”, completa.
CURIOSIDADES
Por falta de conhecimento, muitos boatos cercam a profissão dos agentes funerários, Biro nos esclarece algumas curiosidades.
Maquiagem nos cadáveres
“Existe um curso específico para maquiar os cadáveres, chamado necromaquiagem. Tem pessoas que pedem para fazer determinada maquiagem e até escova no cabelo”.
Procedimentos estéticos
“O algodão é usado para preencher, senão a boca fica murcha, é como se fosse um enchimento. A boca não é costurada, é dado um ponto na gengiva, para ela ficar fechada. Se você for em um velório e a pessoa estiver com a boca aberta é porque não deram ponto. Mesmo se ele estiver rígido a tendência é de após 10h de velório ele abrir a boca”.
“Então você imagina chegar em um velório e ver o defunto com a boca aberta? ”.
Tanatopraxia
“A tanato é feita pela veia femoral, durante o processo, o sangue é substituído por um fluido a base de formol, através de uma incisão de três a quatro centímetros na região cervical ou femoral. O corpo não é judiado. A família acha que está judiando, para evitar esse impacto não permitimos que a família entre no laboratório”.
Escolha dos caixões
“O plano funerário disponibiliza seis modelos de urnas. Quando a família chega a funerária, nós oferecemos para olhar e escolher. Tem família que chega muito abalada e nem quer escolher. No particular existem os modelos de urnas simples, média, intermediária e de luxo. Um caixão pode custar até R$20.000 ou mais. ”
Logística
“Em todo processo na funerária o corpo passa por no máximo dois funcionários, fora as copeiras que trabalham no velório”.
Falecimento de um ente querido do agente funerário
“Quando é com um ente querido nós não ficamos próximos, deixamos outro agente arrumar. Quando o nosso patrão faleceu, só um agente funerário teve coragem de arrumar, porque ele era um pai para todos nós, era um homem muito sensato de bom coração. Esse funcionário conseguiu arrumar, mesmo assim ele arrumou o Marcos Cardassi com muitas lágrimas”.