Elas estão em uma idade onde esquecer se torna cada vez mais comum, onde cada memória está empoeirada no fundo de uma gaveta, apesar disso se lembram da família, da vaidade e de como é ser uma mulher. Na última semana a reportagem do Hojemais foi até o Lar dos Idosos em Três Lagoas e passou uma manhã batendo um papo com algumas moradoras.
Ivanir de Castro, 78 anos, é uma das 16 mulheres internas no ‘Lar dos Idosos’ de Três Lagoas, ela não se recorda há quanto tempo está na Instituição, entre as suas atividades favoritas está a costura.
Ivanir morou por muito tempo em um sítio, trabalhava produzindo requeijão e vendendo nas estradas, logo depois se mudou para a cidade. Ela diz que o sentimento da família é muito, mesmo sobrando poucos parentes.
“Meu sentimento em relação a família é muito. Já não tenho mais família, morreram todos, não tenho nenhum filho. Tenho apenas dois sobrinhos, que sempre vão ver onde estou, vem me visitar as vezes”, diz.
Como a vinda dos sobrinhos não é constante, ela gosta de aproveitar as outras visitas das colegas para conversar. “Todos aqui são meus amigos, converso e brinco com todo mundo, com todas elas”, afirma.
Perguntamos a Ivanir o significado do ‘Dia das mulheres’ e a resposta não poderia ter sido mais espontânea.
“O dia das mulheres é muito bom, porque eu também sou mulher e quero fortalecer mais, então eu gosto muito. Eu não sei se já passou, já? ”. Respondemos que estava bem perto. “Então quando vir, nós vamos festejar! ”, encerra.
“Maria, Maria é o som, é a cor, é o suor, é a dose mais forte e lenta, de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta”, assim como a música de Milton Nascimento, a história de Maria Joana Silva, 79 anos e de várias outras Marias do nosso país é de luta e inspiração.
“Estou há muitos anos aqui e gosto. Não tenho filhos, meus irmãos às vezes vêm me visitar. Tenho muitos amigos aqui graças a Deus. A gente fica conversando e passeia por aqui mesmo”, diz.
Ela relata que trabalhou a vida inteira na roça com a mãe, e o irmão mais velho, cuidando do pai que era doente. Enquanto discorria sobre sua trajetória, ela levantava os braços cheios de pulseiras e mostrava algumas marcas. "Olha só meus braços fininhos, essas marcas aqui são tudo da roça", conta.
Mesmo com a realidade do trabalho rural presente na infância, quando pergunto o que Maria pensa quando falamos em família a resposta é a saudade. "Eu fico alegre, sinto falta, amo muito a minha família”, ressalta.
O tempero principal é o amor
Kelli Gazola, 30 anos, é uma das mulheres que empodera e renova o prazer de viver das senhoras do Lar dos Idosos. A assistente social é amiga e netinha de muitas, um dos seus trabalhos é valorizar a importância de cada uma das internas.
A interatividade não só para as mulheres, mas para todos os moradores de casas de acolhimento é essencial para uma rotina mais leve. A maioria dessas pessoas se sentem sozinhas e com sentimentos de abandono. A família e os amigos já não os visitam e contar como foi o dia ou como se sentem no momento alivia a solidão.
“Focamos na data da mulher, destacando que elas são importantes e sábias. Então sempre entregamos botões de rosas, fazemos uma tarde diferenciada para elas se sentirem vivas. Nós tentamos resgatar isso participando com elas”, pontua.
Segundo Kelli, é feita uma dinâmica para deixar o dia das moradoras animado, já que a maioria tem um histórico triste e sentem culpa sobre o passado. “Nós fazemos cada dia ser um dia diferente, nós tratamos elas como se fossem nossas avós. Nós fazemos o dia delas ser diferenciado, vivemos as datas comemorativas, mas não comemoramos aquelas que não trazem tanta alegria, como dia dos pais, dia das mães, percebemos que quando comemorávamos víamos um estado negativo”, diz.
Ser funcionário em um Lar de Idosos é botar o carinho e a empatia em prática, é lembrar do amor dos nossos avós, porque aos olhos daquelas pessoas somos como netinhos.
Cleonice da Silva Pereira, 39 anos, sente essa emoção na pele. Ela trabalha há 10 anos na casa como cozinheira. “Tem uma dieta pré-estabelecida, nós colocamos carinho em cada prato. Nós criamos um vínculo, gostamos de todos. Elas elogiam bastante, cada dia é um cardápio diferente que a nutricionista faz para a gente ”, relata.
As vezes Cleonice escapa do cardápio apenas para agradar, o ‘pedido especial’ é para ninguém passar vontade de uma comidinha diferente.
“Às vezes tem um pedido especial, como um quiabo por exemplo e eu faço. É muito gratificante poder ajudar elas, porque a família somos nós 24 horas”, diz.
“Espero que eu receba a mesma retribuição, o mesmo carinho que eu dou”, completa.
Fotos: Ygor Andrade.