O ano de 2017 foi marcado pela exposição de casos de maus tratos contra os animais em Três Lagoas. As denúncias tornaram-se recorrentes, revelando histórias de crueldade, abandono e negligência.
O caso que tomou maior repercussão no ano passado foi o resgate de cães em uma casa no centro da cidade. Os 30 cães resgatados estavam em condições deploráveis - sem água, comida e, alguns, presos em gaiolas. Os animais viviam em um ambiente insalubre no meio de acúmulo de lixo e móveis deteriorados.
No Brasil, foram criadas leis de proteção aos animais. Elas que proíbem que sejam impostas situações como: agressão; envenenamento; privação de necessidades vitais - descanso, alimento, ar, luz, espaço; privação de assistência veterinária a qualquer tipo e espécie; obrigação a trabalho excessivo ou superior à sua força; captura de animais silvestres; utilização em shows que possam trazer pânico ou estresse ao animal; entre outras.
A infração a qualquer uma das leis de proteção animal pode resultar de três meses a um ano de prisão e multa; há diversas formas de denúncia – desde através de telefones até sites.
A maioria das denúncias é feita por vizinhos ou moradores próximos de onde aconteceu a agressão, de forma anônima. Imagens de maus-tratos publicadas nas redes sociais também podem virar alvo de apuração. Vídeos e fotos registrados por celulares têm ajudado o Ministério Público Estadual e a polícia a identificar os autores.
Aos poucos, porém, estão sendo criadas medidas para darem mais força aos direitos dos animais. Em um grande passo para a causa, em dezembro do ano passado o vereador André Bittencourt realizou uma Audiência Pública para discussão sobre a criação de um Departamento de Proteção Animal em Três Lagoas, com o objetivo de auxiliar a administração local para ações de planejamento. Para o vereador, a iniciativa não se trata somente do bem-estar animal; mas, de uma questão geral de saúde pública.
“Fico muito chateado com tantos casos de maus tratos - muitos deles devidamente expostos pela mídia. Se a pessoa não consegue criar ou não gosta, busque alternativas sadias, mas não cometa tantas barbaridades como: envenenamento, abandono dentro de caixas e sacos, falta de assistência básica como o fornecimento de comida e água” - afirma Bittencourt.
Crueldade
As inúmeras denúncias nas redes sociais refletiram em reportagens chocantes com episódios de violência contra os animais. No município os seguintes casos tomaram repercussão em 2017:
A foto de uma cadela com as patas amarradas e com ferimentos pelo corpo causou indignação entre internautas em novembro do ano passado. O jovem Leonardo Souza postou as fotos no grupo de compras do Facebook - OLX Três Lagoas - e escreveu uma mensagem de repúdio.
Segundo a postagem, a cadela foi localizada pela esposa de Leonardo, no Bairro Vila Nova, em Três Lagoas; o mesmo identificou que, além de ter as quatro patas amarradas por uma corda, atearam fogo na cachorra. Felizmente o animal foi adotado por Leonardo.
No mês de dezembro dois cachorros foram abandonados em uma caminhonete estacionada sob um sol escaldante na Avenida Capitão Olinto Mancini. Os animais estavam latindo na carroceria, coberta por uma lona e conseguiram chamar a atenção das pessoas que passavam pelo local. Ao abrirem a carroceria encontraram os animais com sede e com sintomas de desidratação.
Funcionários do ERPE, localizado próximo ao ocorrido, socorreram os animais dando-lhes água. Após o flagrante, o dono da caminhonete justificou que os animais não seriam seus e fugiu.
Dividir a vida com um animal costuma melhorar muito a qualidade de vida das pessoas em diversos sentidos, como por exemplo: reduz a sensação de solidão, ajuda a manter a forma, incentiva o sorriso, disciplina, etc.
Mesmo assim, o abandono de animais é frequente. Muitas vezes, as famílias passam por situações de mudança de residência, viagem longe em férias, situação econômica ou até problemas de saúde como alergia de alguém da casa.
Foi o que aconteceu com um cachorro abandonado na Vila Piloto. A família se mudou e deixou o animal trancado sem água e sem comida; os vizinhos descreveram o cachorro como dócil e, na tentativa de amenizar a fome dele, jogavam pães pelo muro e deixavam água e ração no portão. A dona do animal retornou para buscá-lo e para dar os devidos tratamentos.
Outro caso de abandono a ser lembrado foi o resgate de um Pastor Alemão deixado preso na chuva. O cachorro foi resgatado pelas Protetoras Três Lagoas após receberem denúncias de que um homem estaria passeando na chuva durante horas com o animal amarrado. Ele foi encontrado preso em uma grade de frente para um boteco, enquanto o suposto dono bebia. O animal foi cuidado e levado para a adoção.
Finais Felizes
Em Três Lagoas é notável o trabalho de ativistas, protetores e populares que, em contrapartida dos casos de ações de crueldade, lutam bravamente pelos direitos dos animais. Diante de tanto sofrimento, os bichinhos conseguem ter uma segunda chance ao serem resgatados ou adotados por aqueles que sentem empatia ao ver um animal em situação de risco.
O estudante da UFMS - Universidade Federal do Mato Grosso do Sul - de 30 anos, que não quis de identificar, fez parte de inúmeros resgates da ALF (Frente de Libertação Animal). Para ele, o caso mais marcante foi um resgate feito em um criadouro ilegal.
A ALF recebeu a denúncia de um criadouro de cães da raça Schnauzer, onde forçavam a reprodução desses animais para vender os filhotes, obrigando as cachorras fêmeas a serem as matrizes reprodutoras para vender os filhotes machos. Quando souberam do criadouro na cidade de São Roque - interior de São Paulo - foram investigar o local fingindo serem compradores. Os ativistas fizeram fotos e filmagens e estudaram o local para a ação. Uma equipe de 10 ativistas em dois carros fez o resgate dos animais. “No dia da ação nós estávamos preparados pra invadir o local e resgatar todos os filhotes de Schnauzeres que eram por volta de 15 cães de seis a três meses de idade” - diz.
“Eles viviam em condições muito degradantes, em gaiolas perfuradas onde suas patas ficavam muito machucadas por serem pequenas e passar pelos buracos sem que houvesse nenhuma proteção sólida para que eles ao menos tivessem aonde pisar. Eles estavam bem tristes e doentes, pois viviam presos nessas gaiolas. As fezes ficavam pelo corpo deles, pois o dono do criadouro mal colocava água e comida” - relembra.
Ele conta que durante a ação os cachorros pareciam querer atacar e correram na direção dos ativistas; mas, a surpresa se deu quando os animais chegaram perto. “Quando eles chegaram perto, pararam de latir e começaram a nos farejar com calma e sentaram em nossos pés como se tivessem nos dizendo: ‘Sei que estão aqui pra fazer o bem, estamos com vocês’” - afirma.
A ALF conseguiu dar continuidade à ação e resgatou todos os filhotes e matrizes.
Outra história que ganhou notoriedade foi do filhote de Pitbull resgatado pela três-lagoense - Yulli Benazet. O resgate foi feito juntamente com a polícia ambiental. A cachorra estava desnutrida e sem vasilha de água ou alimento. O ocorrido marcou a história na luta dos direitos animais de Três Lagoas, por ser o primeiro caso no município onde os tutores tiveram de pagar multa e responder criminalmente por maus tratos. “Orgulho-me por ter sido eu que dei início; mas, tenho de agradecer a muita gente por ter feito isso chegar aonde chegou” - afirma Yulli, em publicação no Facebook.
Os vizinhos pagaram a multa e estão pagando judicialmente pelo ocorrido.
Para a estudante - Jade Ribeiro - foram os animais que a adotaram. Suas histórias são diversas; entre elas, uma denúncia marcante. “Acho que todos os bichos que adotei têm uma história triste; mas, o que mais me marcou foi a história do Tobby - a ex-dona dele o deixava com fome e com sede para se vingar por ele ter feito xixi e cocô em casa. Ele chegou aqui tão magro, com várias falhas no pelo, nem conseguindo andar direito” - conta.
Hoje Tobby vive com Jade e está saudável e cheio de amor.
Fique atento
Caso presencie maus-tratos a animais de quaisquer espécies como: abandono; envenenamento; presos constantemente em correntes ou cordas muito curtas; manutenção em lugar anti-higiênico; mutilação; presos em espaço incompatível ao porte do animal ou em local sem iluminação e ventilação; utilização em shows que possam lhes causar lesão, pânico ou estresse; agressão física; exposição a esforço excessivo e animais debilitados (tração); rinhas; etc. – vá à delegacia de polícia mais próxima para lavrar o Boletim de Ocorrência (BO), ou compareça à Promotoria de Justiça do Meio Ambiente.
Tente descrever com exatidão os fatos ocorridos, o local e, se possível, o nome e endereço do responsável.
Procure levar, caso haja possibilidade, alguma evidência, como: fotos, vídeos, notícias de jornais, mapas, laudo ou atestado veterinário, nome de testemunhas e endereço das mesmas. Quanto mais detalhada a denúncia, melhor.
Em caso de denúncia, procure a Delegacia de Polícia mais próxima.
*Colaborou Aurora Villalba