Pare e pense um instante: você checa o celular assim que acorda e ele é a última coisa que vê antes de dormir, não é? Por onde se comunica com os amigos? Onde anota os seus compromissos? Como obtêm informações sobre assuntos variados?
Hoje em dia é quase impossível pensarmos em nossas vidas sem um aparelho eletrônico por perto, seja ele um tablet ou um smartphone. Porém, tem sido catalogado um transtorno recente que diz respeito ao medo patológico de ficar sem nenhum deles por perto. É o que os médicos chamam de “nomofobia”.
Segundo o psicólogo clínico Genilson Souza, a palavra é uma abreviação do que seria “no mobile phone phobia”, que em inglês está ligado, literalmente, ao medo de ficar sem celular ou simplesmente de se sentir desconectado. A expressão surgiu depois de uma pesquisa feita no Reino Unido em 2008.
Souza explica que trata-se de um transtorno psicossocial. “A pessoa perde o controle do uso do smartphone e de dispositivos tecnológicos de mídias sociais”. Algumas estatísticas dão conta de que a cada quatro brasileiros, só um não possui celular com acesso à internet. Porém, o que mais preocupa o psicólogo é que 80% das crianças de apenas 10 anos já acessam a rede e podem se tornar sérios candidatos a desenvolverem a síndrome de dependência tecnológica.
A ausência de conexão pode levar a sintomas físicos como diz Souza. “A pessoa pode ter ansiedade, nervosismo, tremores, sudorese, sensação de angústia e agitação”. Ele diz ainda que qualquer dependência, quando se torna patológica, pode atrapalhar muito a vida de alguém.
A pandemia e o isolamento social contribuíram muito para que as pessoas ficassem cada vez mais ligadas aos aparelhos eletrônicos, uma vez que eles são utilizados como ferramenta de trabalho, comunicação e interação. “O uso dos celulares induz a produção de dopamina que traz prazer, por isso eles também têm sido usados como mecanismos de fuga da realidade.
PERFIL
Embora a nomofobia não tenha sido incluída no manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais, os estudiosos já conseguem reunir características comuns nas pessoas que apresentam este transtorno. “Em geral são aquelas com a personalidade extrovertida, que procuram amizades virtuais ou uma vida desta forma: irreal, porém, desejada. Elas apresentam ainda baixa auto-estima, por isso necessitam de afirmação e vivem em busca de aceitação".
QUANDO SE PREOCUPAR?
O psicólogo diz que todo excesso esconde uma falta, por isso é preciso ficar atento ao motivo desta dependência. “Se não há um motivo razoável para que a pessoa gaste muito tempo conectado às mídias sociais e passa a ficar irritado e isolado quando isso acontece, isto pode ser um sinal de alerta”.
O QUE FAZER?
Nos casos em que a pessoa já seja considerada dependente, O psicólogo indica o acompanhamento de um profissional, uma vez que a terapia pode auxiliar muito. Quando mais graves há até a indicação de um psiquiatra para receitar uso de ansiolíticos.
Souza esclarece que é possível trabalhar de forma preventiva, desde a infância, para não deixar que a criança desenvolva dependência logo cedo. “É preciso indicar que há outras formas de brincar e de passar o tempo. No adulto a mesma coisa: ele precisa saber que há outros meios de comunicação e de socialização”.
O psicólogo dá ainda outras dicas de atividades que podem fazer com que a cabeça esqueça um pouco o mundo tecnológico. “Ouça a história de vida dos mais velhos, ajude a mãe nas tarefas domésticas, faça um bolo, ajude o pai nas tarefas dele, ouça o que os seus filhos têm a dizer sem pressa e sem julgamento. Olhe as pessoas nos olhos. Aprecie o canto dos pássaros e brinque com seus animais de estimação”.
