Polícia

Rapaz usa conta da bisavó para esquema de crime organizado

Na lista de pessoas que tiveram contas bancárias usadas, estão crianças de 4 a 10 anos e pessoas acima dos 60 anos.

Da redação - Hojemais Três Lagoas
16/09/20 às 15h18
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(Reprodução/folhape)

Desde o dia 31 de agosto, uma senhora de 83 anos não consegue esquecer o momento em que foi presa, dentro de casa, por integrantes da Polícia Federal. Ela foi um dos alvos da Operação Caixa Forte 2, que visou suspeitos de envolvimento no esquema de irrigação financeira do PCC com mais de 60 anos.

"Nunca tinha acontecido uma coisa dessas comigo", disse ela à Folha. "Eu estou tão aborrecida que nem sei se vou viver muitos dias." 

A aposentada revela que os recursos foram repassados para conta dela a pedido do bisneto, que criou como filho, mas entrou para o crime.

"Ele não dizia para que era esse dinheiro, não. Falou que era para ajudar na casa, aqui, mas não falou que era assim [do PCC]", afirmou ela à Folha de S. Paulo. 

Além disso, ela disse que os  policiais federais chegaram pela manhã, pouco depois das 6h, e deram a ordem de prisão. "Meu neto abriu a porta, e eles foram entrando. Eu estava até deitada ainda. Vieram na porta do meu quarto e reviraram tudo a minha casa, só pedia a Deus me ajudar."

Ela não foi algemada nem colocada no compartimento de presos, mas foi levada para delegacia da PF de Três Lagoas (MS), onde mora, e só saiu de lá à noite, quando um advogado contratado pela família conseguiu converter a prisão para domiciliar, em razão da idade e estado de saúde.

"Eu não sei o que aconteceu, porque tinha caído um dinheiro de PCC pra mim, e eles queriam me prender, mas por causa dos meus problemas, não me prenderam, me soltaram. Mas eu tenho que ficar uns seis meses que não posso nem sair", disse ela, sobre a prisão domiciliar.

A aposentada explica que sua maior preocupação agora é conseguir desbloquear sua conta bancária, pela qual recebe a aposentadoria de R$ 1.000. Segundo sua filha, ela tem doenças como diabetes, enfisema pulmonar e faz tratamento de câncer de mama.

"Tantos bandidos por aí perigosos, né? Na própria política, que envolve tanta gente com corrupção e fica por isso mesmo. Agora, vem prender uma senhora leiga, de 82 anos, cardiopata, enfisema pulmonar, diabética? Minha mãe é forte, se fosse outra pessoa teria morrido de desgosto.", afirmou a filha.

Ainda de acordo com a filha, os policiais comprovaram que nenhum dinheiro repassado pelo rapaz preso foi usado pela mãe. "Ela não tem nada, nada, nada. A única coisa que ela tem é esta casa, não tem nem móveis."

ENTENDA O CASO

As investigações foram feitas pela força-tarefa de Minas Gerais, que tem o intuito de sufocar o sistema financeiro de facções criminosas. Eles detectaram uma rede de crianças e idosos da organização que estão presos no sistema federal. 

Na lista de pessoas que tiveram contas bancárias usadas, estão crianças de 4 a 10 anos e pessoas acima dos 60 anos. Foram detectadas pelo menos 20 contas em nome de menores de 12 anos e maiores de 60.

"Percebemos durante as investigações da segunda fase da [operação] Caixa Forte que a facção tem se utilizado de menores e mulheres com filhos sob sua guarda para o processo de lavagem de dinheiro. Ao fazerem isso com menores, dificultam a identificação de quem estaria efetivamente movimentando a conta, pois é preciso chegar ao procurador responsável", disse o delegado da Polícia Federal Alexsander Castro, coordenador da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado de Minas Gerais (Ficco).

A operação, batizada de Caixa Forte 2, empregou 1.100 policiais civis e federais,  teve 422 pessoas como alvo, em 20 unidades da federação, que recebiam uma “mesada” paga pela cúpula do PCC a integrantes da facção que cumpria pena no sistema prisional.

Os pagamentos variam entre R$ 1.000 a R$ 4.000 por mês, conforme a hierarquia do grupo. Os recursos eram depositados nas contas dos prepostos –a maioria parentes do indivíduo em questão, sem ter ligação direta com o crime.

As crianças que eram utilizadas, por exemplo, eram filhos ou enteados dos criminosos. Como elas não podem ser responsabilizadas criminalmente, a força-tarefa pediu a prisão dos responsáveis legais desses menores – na maioria dos casos, as mães.

"As mulheres são usadas em razão do posicionamento do STF de que, nesses casos, as prisões preventivas devem ser convertidas em domiciliares. Utilizar-se de mulheres nessas condições faz com que o crime fique impune num primeiro momento", informou o delegado.

As pessoas acima de 60 anos foram presas. Segundo Murillo Ribeiro de Lima, da Polícia Civil de Minas e um dos coordenadores da força-tarefa, quando a idade é mais avançada do que isso costuma-se converter a prisão para domiciliar.

"Faz parte do papel social das instituições de persecução penal responsabilizar criminalmente, de forma rígida, essas pessoas, porque é até um recado para os faccionados para que evitem, então, usar interpostas essas pessoas para receber esses recursos", diz.

Na conta de uma criança de 4 anos, a quebra de sigilo detectou movimentação de R$ 144.570,80 entre 2017 e 2019, média anual de R$ 48 mil. Já uma senhora de 82 anos, que foi  presa na operação de final de agosto, foi depositado um total de R$ 205 mil ao longo de quatro anos, média anual de R$ 51 mil.

Esse esquema é conhecido pela polícia e pelo Ministério Público de São Paulo por anos, mas não foi considerado foco para combater o crime organizado por envolver, de acordo com o MP paulista,  recursos para subsistências das famílias e não lavagem de dinheiro para enriquecimento de integrantes da quadrilha.

De acordo com as informações do jornal Folha de S.Paulo, os repasses que foram detectados pela força-tarefa mineira eram utilizados, na maior parte, para aquisição de alimentos para a família dos presos. Ainda de acordo com a investigação, o dinheiro também servia para ajudar os integrantes da facção presos.

Tanto as pessoas detidas na operação, quanto os próprios integrantes do PCC envolvidos, não pertencem aos escalões mais altos, nem à Sintonia Final, como é chamada a cúpula formada pelos presos mais perigosos. 

Há ainda um acordo tácito entre policiais paulistas e criminosos da facção para uma preservação mútua das famílias. Policiais não fazem ação de represália às pessoas próximas aos integrantes do grupo, assim como eles não organizam nenhum crime contra os parentes desses policiais. 

(*) folhape

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