A situação econômica delicada na qual o país encontra-se tem chamado a atenção de todos. Os discursos são sempre os mesmos, voltados ao pessimismo. A ‘bola da vez’ é a crise. Mas afinal, o que está em crise?
Para falar sobre o assunto, o Hojemais conversou com o doutor em história, Mário Teixeira de Sá Junior, professor na Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), no Estado. O também especialista em antropologia e estudos da área de ciências políticas, explicou que o que vivemos no atual momento é muito mais uma crise política, do que econômica.
“Economicamente o país não vive essa tragédia, mas sim vive politicamente uma tragédia”, observou.
Ainda de acordo com Mário, a instabilidade política reflete de forma significativa no cenário econômico. “Foi a crise política que gerou a crise econômica, não o contrário”, explicou.
O professor ainda deu alguns exemplos de setores que não foram altamente afetados com a dita crise econômica. “A construção civil, o comércio varejista, o comércio de carros, entre tantos outros”.
Mário ainda reforçou que estamos focando muito na crise classificada como econômica e estamos deixando de observar as questões políticas que desencadeiam esse fenômeno. “Não estamos passando pelo pior momento. Se olharmos o cenário mundial econômico estamos é muito bem. O que estamos enfrentando é uma crise de ideologia partidária”.
Uma consciência crítica é fundamental para poder analisar o período que enfrentamos. “É importante que se tenha uma busca crítica do que é real e do que é construção de discurso. Temos de ter cuidado com esse ‘canto da sereia’. É difícil, mas não podemos nos deixar enganar pelo discurso terrorista que chega até nós”, alertou.
A CRISE POLÍTICA
Segundo explica Mário, o discurso economicista tomou essa proporção em que se encontra em função de uma busca em deslegitimar o governo Lula (PT) e suas propostas. “É como uma denúncia de que esse modelo não trouxe resultado em médio prazo. A assistência social veio como algo muito forte no período em que o Lula presidiu o país”.
O desencadear da crise política teria relação com o fato dos grupos conservadores serem menos voltados às minorias. “O objetivo desses grupos é ‘sepultar’ o modelo Lula de trabalhar. E não digo que o PT é santo; existem os que ‘vendem a alma ao diabo’, mas a reflexão que podemos fazer é essa. Talvez esse seja o último grande momento do PT; talvez essa crise faça com que só daqui a uns 10 anos, o partido se organize e volte mais forte”, refletiu.
O pesquisador ainda fez a previsão de que para as próximas eleições presidenciais pode haver uma fragmentação muito grande e que será necessária muita articulação política. “É o partido que dá o peso da vitória. O centro esquerdo está bastante fragmentado; a tendência é o PMDB se dividir nesse processo”.
O futuro é incerto, mas Mário faz uma projeção de como é a tendência do cenário político do Brasil. “Ideologicamente vivemos uma tendência neoliberal, onde as especificidades e diversidades são menos privilegiadas em nome de uma igualdade. Os grupos minoritários deverão passar por um período de perdas. Já percebemos isso na composição de secretarias estatais e municipais; antes eram segmentados os setores - hoje é reduzido, mais compactado”.
Mário concluiu lamentando. “Infelizmente, pode ser um modelo de estado que não interfere junto à maioria”.