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Saúde

Estudo aponta avanço e desafios contra hepatites

Análise científica reúne dados de mais de 14,5 milhões de pessoas e pode apoiar ações para eliminar as doenças até 2030

Thais Constantino - Hojemais Três Lagoas 
04/08/26 às 11h41
Estudo aponta avanço e desafios contra hepatites (Foto: Reprodução)

Um levantamento conduzido por pesquisadores do Einstein Hospital Israelita reuniu dados de 200 trabalhos científicos publicados entre 2013 e 2024 para traçar um panorama das hepatites virais no Brasil. Os estudos analisados contemplam informações de mais de 14,5 milhões de pessoas.

A pesquisa integra o projeto Caracterização de Hepatites Virais em Populações Vulnerabilizadas , desenvolvido pelo Einstein por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS) .

O trabalho tem como finalidade ampliar o conhecimento sobre as hepatites virais e contribuir para o desenvolvimento de estratégias de prevenção e cuidado capazes de ajudar o Brasil a alcançar a meta de eliminar essas doenças até 2030. O estudo foi publicado na revista científica internacional PLOS ONE .

A análise contemplou os cinco tipos de hepatites virais: A, B, C, D e E .

De acordo com o coordenador da pesquisa, João Renato Rebello Pinho, médico do Departamento de Patologia Clínica do Einstein, as hepatites B e C costumam ser as mais lembradas pela população por serem frequentes e também apresentarem, além de quadros agudos, ocorrência significativa de casos crônicos.

Hepatite A

A hepatite A é uma infecção aguda que pode, em alguns casos, evoluir de maneira grave. A doença pode ser prevenida por meio da vacinação.

Segundo João Renato Rebello Pinho, a hepatite A voltou a apresentar circulação no Brasil, especialmente associada à transmissão entre homens. O especialista explicou que uma nova forma de contato passou a ser reconhecida, relacionada à prática de sexo oral/anal.

Nesse tipo de situação, pode ocorrer contato com material anal contaminado pelo vírus, o que favorece a transmissão. O fenômeno começou a ser observado entre homens que fazem sexo com homens, mas posteriormente se espalhou para populações não vacinadas em geral.

O médico ressaltou que a vacinação é importante também para mulheres que praticam sexo oral/anal, pois elas igualmente estão sujeitas à infecção.

Por outro lado, o especialista descartou a possibilidade de transmissão da hepatite A pelo simples contato da pele entre pessoas. Para que ocorra transmissão de pessoa para pessoa, é necessário um contato íntimo.

A forma mais comum de contaminação pelo vírus da hepatite A, segundo o pesquisador, continua sendo pela via alimentar, por meio de água ou alimentos contaminados.

A nova forma de disseminação identificada nos últimos dez anos, período em que esses vírus se espalharam pelo mundo, esteve principalmente relacionada ao comportamento sexual. O médico explicou que a hepatite A não é transmitida de uma pessoa para outra da mesma maneira que o vírus da Covid-19.

O contágio pode ocorrer, por exemplo, quando uma pessoa utiliza o banheiro, contamina as mãos e depois tem contato com outra pessoa.

Em situações de contato familiar intenso, porém, existe possibilidade de transmissão. Uma criança infectada pela hepatite A pode apresentar maior facilidade para transmitir o vírus a outras pessoas, devido aos cuidados de higiene realizados pelos pais.

O médico reforçou que não existe risco de transmissão da hepatite A pelo contato pessoal comum em ônibus, no trânsito ou na rua. Para haver contágio, é necessário um contato muito íntimo.

A hepatite A transmitida pela via oral/fecal ocorre principalmente na região amazônica e nas regiões Norte e Nordeste. A doença ainda é frequente nessas áreas.

Já entre homens com mais de 18 anos, são encontrados muitos casos nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Segundo o especialista, esse cenário está relacionado ao fenômeno de comportamento sexual e à ausência de vacinação gratuita para pessoas acima dos 18 anos.

Hepatites B e C

Nas hepatites B e C, a principal forma de transmissão é sexual. O contato com sangue ou produtos sanguíneos também pode provocar infecção, especialmente por meio do uso de drogas endovenosas.

Outra via importante de transmissão ocorre de mãe para filho durante a gestação e o parto.

João Renato Rebello Pinho destacou que o Brasil apresenta controle significativo da hepatite B e já conseguiu controlar a transmissão da hepatite B e do HIV de mãe para filho. Atualmente, segundo ele, essa forma de transmissão é muito rara.

O pesquisador também chamou atenção para a existência de vacina contra a hepatite B. Diferentemente da hepatite A, a hepatite B pode se tornar crônica.

As hepatites B e C estão relacionadas ao desenvolvimento de cirrose e câncer de fígado, o que reforça a importância da vacinação contra a hepatite B.

Para a hepatite B, existem tratamentos considerados muito eficazes. No caso da hepatite C, apesar de as formas de transmissão serem semelhantes às da hepatite B, ainda não existe vacina.

Por outro lado, os tratamentos disponíveis para a hepatite C são bastante eficazes e conseguem curar mais de 95% dos pacientes.

O médico lembrou que, no passado, a hepatite C contava com tratamentos muito ruins, enquanto atualmente existem opções consideradas muito boas. Mesmo assim, a recomendação é evitar a infecção.

Entre as medidas de prevenção estão a prática de sexo seguro e a prevenção do contato com sangue, principalmente no contexto do uso de drogas endovenosas proibidas.

Outra forma que, no passado, era frequente na transmissão da hepatite C era o uso de seringas compartilhadas e a transfusão de sangue. Atualmente, segundo o pesquisador, é muito raro ocorrer transmissão das hepatites B e C por essas vias.

Hepatite D

A hepatite D, também conhecida como hepatite Delta, é considerada uma doença negligenciada. João Renato Rebello Pinho explicou que ela ocorre, em geral, entre populações de menor nível socioeconômico, que acabam recebendo menos atenção dos sistemas de saúde.

No Brasil, a hepatite D é especialmente frequente na região amazônica, principalmente entre populações ribeirinhas. A dificuldade de acesso dessas comunidades aos grandes centros também dificulta a realização do diagnóstico.

O médico observou que a hepatite B também apresenta maior frequência na região amazônica, embora esteja presente em todo o território brasileiro.

Mesmo com vacina e tratamento eficazes, a hepatite B permanece espalhada pela população brasileira, com diferentes fontes do vírus em várias partes do país e não somente na região amazônica.

As hepatites B e D estão diretamente relacionadas. Na região amazônica, existem populações com frequência significativa de hepatite Delta.

Entretanto, somente pessoas infectadas pelo vírus da hepatite B podem adquirir a hepatite D. A infecção pode acontecer de duas formas: a pessoa pode contrair os vírus B e Delta simultaneamente ou já estar infectada pelo vírus da hepatite B e posteriormente adquirir o vírus da hepatite D.

Estudos genéticos dos vírus encontrados no Brasil indicaram que a maior parte deles apresenta características da região amazônica. Isso mostra a existência de um ciclo viral que se mantém há muito tempo naquela região.

O pesquisador ressaltou, entretanto, que a vacina contra a hepatite B também é eficaz na prevenção da hepatite Delta. Dessa forma, quem não contrai hepatite B não desenvolve hepatite Delta.

Entre as populações ribeirinhas que vivem distantes dos grandes centros urbanos, é possível encontrar pessoas infectadas simultaneamente pelos vírus da hepatite B e Delta.

Quando ocorre a infecção conjunta, o quadro pode ser mais grave e até fulminante. A doença pode provocar uma hepatite aguda mais grave ou uma forma crônica também mais severa, associada à cirrose e ao câncer de fígado.

O cenário é considerado um importante problema de saúde pública na região amazônica.

Na avaliação do médico do Departamento de Patologia Clínica do Einstein, a hepatite Delta precisa ser considerada dentro do contexto das chamadas doenças raras.

A doença acaba sendo esquecida porque está presente em determinados grupos populacionais. Nesses grupos, porém, a frequência é elevada e a mortalidade também é significativa.

Apesar de ser uma hepatite viral, trata-se de uma doença negligenciada e que apresenta dificuldades de diagnóstico.

Outro desafio está no tratamento, que é difícil de ser realizado na região amazônica, o que reforça a dimensão do problema de saúde pública.

Hepatite E

A hepatite E ainda é pouco conhecida. A doença foi descrita inicialmente na Índia, onde pode provocar casos graves e epidemias de grandes proporções devido a um genótipo encontrado exclusivamente naquele país.

No Brasil, assim como ocorre na Europa, a hepatite E é causada por outro genótipo, encontrado em animais.

Por esse motivo, a hepatite E é considerada uma zoonose, ou seja, uma doença que pode ser transmitida de animais para seres humanos. Entre os principais animais relacionados à transmissão está o porco.

Já existem estudos que demonstram a presença de alguns porcos infectados pelo vírus da hepatite E no Brasil.

João Renato Rebello Pinho afirmou que não apenas a hepatite E, mas todas as demais hepatites virais podem se beneficiar do conceito de saúde única.

A abordagem considera necessário melhorar a saúde tanto dos seres humanos quanto dos animais. No caso da hepatite E, portanto, também é preciso considerar os porcos, já que alguns animais criados no Brasil apresentam a doença.

O estudo desenvolvido pelos pesquisadores identificou que a região Sul do Brasil pode apresentar uma frequência um pouco maior de hepatite E. Uma das possíveis relações está na concentração de criação de suínos nessa parte do país.

Apesar disso, a hepatite E não costuma ser tão grave quanto as demais hepatites virais. É uma doença aguda que, em muitos casos, pode passar despercebida.

Ainda assim, a infecção precisa ser mais estudada no Brasil.

Prevalência das hepatites virais no Brasil

Entre os 200 estudos avaliados pelos pesquisadores, a hepatite B foi a mais investigada, seguida pela hepatite C.

Na população geral, a soroprevalência da hepatite A variou de 33,3% a 67,8% .

Entre populações vulneráveis, os maiores índices de soroprevalência da hepatite A foram registrados entre pessoas encarceradas, com 88,1% , seguidas por imigrantes, com 87,4% , e indivíduos transgêneros, com 75,6% .

A hepatite B apresentou prevalência entre 0% e 7,5% na população geral. As maiores taxas foram encontradas em uma região endêmica da Amazônia.

No caso da hepatite C, a soroprevalência na população geral ficou entre 0,04% e 2,2% . Entre pessoas que usam drogas, entretanto, a taxa chegou a 36,9% .

A hepatite D foi registrada predominantemente na região amazônica, com prevalência variando entre 0% e 23,9% .

Para a hepatite E, a prevalência na população geral ficou entre 0,9% e 59,4% , sendo o maior índice identificado na região Sul do país.

Estudo pode auxiliar planejamento de ações de saúde

O conjunto de informações reunido pela equipe liderada pelo Einstein Hospital Israelita poderá servir de apoio para gestores públicos, profissionais de saúde e pesquisadores.

Os dados podem contribuir para o planejamento de iniciativas alinhadas às estratégias nacionais voltadas à eliminação das hepatites virais até 2030.

O que é o Proadi-SUS?

Criado em 2009, o Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS) tem como objetivo apoiar e aprimorar o SUS por meio de projetos nas áreas de capacitação, pesquisa, avaliação e incorporação de tecnologias.

O programa também contempla ações de gestão e assistência especializadas, demandadas pelo Ministério da Saúde.

Atualmente, o Proadi-SUS reúne sete hospitais sem fins lucrativos considerados referências em qualidade médico-assistencial e gestão: A.C. Camargo Cancer Center, Hospital Alemão Oswaldo Cruz, BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, Hcor, Einstein Hospital Israelita, Hospital Moinhos de Vento e Hospital Sírio-Libanês .

Os recursos utilizados pelo Proadi-SUS são provenientes da imunidade fiscal concedida aos hospitais participantes.

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