Cultura

Dez grandes filmes de 2022

“Um ano de altos e baixos, mas com algumas pérolas especiais no caminho"

Valter Soares de Souza Junior*
09/01/23 às 20h00

Segundo o filósofo Søren Kierkegaard (1813-1855), a vida só pode ser de fato compreendida ao se olhar para trás, ou seja, para o que passou. Mas com uma ressalva: “Ela só pode ser vivida olhando-se para frente”. Apesar das limitações impostas por uma pandemia persistente, 2022 ganhou um inevitável caráter de retorno aos cinemas e de reconstrução para a indústria cinematográfica. Um ano de altos e baixos, mas com algumas pérolas especiais no caminho.

Neste sentido, listo aqui (em ordem de preferência) excelentes produções, composta por lançamentos no circuito brasileiro de streaming ou cinema entre janeiro e dezembro de 2022, com base única e exclusivamente, em meu gosto e análise pessoal. Vamos lá!

10) Tico e Teco: Defensores da Lei (Chip ‘n Dale: Rescue Rangers. EUA, 2022. Dir.: Akiva Schaffer)

(Foto: Divulgação)

Dirigido por Akiva Schaffer (Saturday Night Live), ‘Tico e Teco: Defensores da Lei’ é um “soft-reboot/continuação” da série animada ‘Tico e Teco: Os Defensores da Lei’, exibida entre 1989 e 1990. O filme mostra os dois esquilos vivendo entre animações e humanos, em Los Angeles, dos dias atuais, em um universo onde desenhos animados convivem com pessoas comuns e as animações que assistimos na TV nada mais são do que atores interpretando papéis, e quando o desenho acaba, eles podem ir fazer outras coisas, desde outro programa até um emprego completamente mundano. Na trama, Tico e Teco se reúnem anos após o cancelamento do seu desenho e partem em uma investigação sobre o desaparecimento de um antigo colega de elenco.

E o resultado é maravilhoso, uma grata surpresa! Um filme divertido, que explora bem a nostalgia e o absurdo, criando uma trama satisfatória para reunir novamente a dupla de esquilos.

9) X: A Marca da Morte / Pearl (X / Pearl. EUA, 2022. Dir.: Ti West)

A dobradinha de terror dirigida por Ti West ganha uma menção conjunta entre os melhores do ano, isto porque todo o projeto é interessante. Durante as gravações de ‘X: A Marca da Morte’, o diretor e a atriz Mia Goth se empolgaram tanto com a história que decidiram escrever uma prequela imediatamente. Assim, as gravações já emendaram e ‘Pearl’ acabou sendo gravado logo na sequência.

Em ‘X’, a história acompanha um grupo de jovens que vai para uma fazenda com o objetivo de gravar um filme adulto, no final dos anos 1970. Logo, eles acabam se deparando com o casal de idosos que são os donos da propriedade e, inadvertidamente, são levados à uma luta insana pela sobrevivência.

Neste primeiro filme, o cineasta lança mão da violência e da exploração do sexo para fazer um filme de terror bem diferente dos clichês contemporâneos. Além disso, o filme conversa artisticamente com clássicos do gênero, como ‘O Massacre da Serra Elétrica’, e esses detalhes vão transformando a obra em um excelente terror trash.

Já ‘Pearl’ se passa em 1918, em meio ao temor da Gripe Espanhola e segue a rotina da jovem Pearl (sim, a idosa assassina de ‘X’) e as consequências que a fizeram tornar-se a personagem doentia do primeiro filme. O longa é violento e chocante, mas tem o ritmo mais desacelerado, com mais foco no desenvolvimento da personagem e no desenvolvimento da sua personalidade, se tornando uma das melhores histórias de origem dos últimos anos.

8) Avatar: O Caminho da Água (Avatar: The Way of Water. EUA, 2022. Dir.: James Cameron)

Apesar do roteiro simplório (leia-se...), e das inúmeras conveniências narrativas presentes em ‘Avatar: O Caminho da Água’, o longa surpreende ao conseguir elevar o grau de preciosismo técnico do seu antecessor. Além de números impressionantes de bilheteria (no momento em que eu escrevo essas linhas, o novo "Avatar" caminha a passos largos para se tornar o filme de maior bilheteria lançado em 2022), ‘O Caminho da Água’ é um espetáculo visual inigualável. É de atordoar o que James Cameron conseguiu fazer. Cada detalhe do filme é incrível e inegavelmente marcante.

Propondo uma experiência cinematográfica diferente do convencional, a produção utiliza o que há de melhor na tecnologia para criar uma experiência visual incrível no cinema, com algumas das técnicas de efeitos especiais mais impressionantes já feitas na história da sétima arte. Vale um lugar na lista de melhores do ano!

7) The Batman (Idem. EUA, 2022. Dir.: Matt Reeves)

Entreposto por sutileza e bons achados visuais, na sugestão de que Batman está também a um passo de se tornar seu próprio inimigo, o filme ‘The Batman’ trabalha com diversos aspectos do cinema de suspense noir, e habilita um lado mais detetivesco do personagem título, estabelecendo uma linguagem, invariavelmente, intensa e realística do herói. O longa reapresenta o personagem em seu segundo ano como vigilante de Gotham; ele já tem a confiança do tenente James Gordon, mas visivelmente ainda é o órfão crescido que aderiu ao vigilantismo para ventilar seus ressentimentos. Um Batman que está começando e que tem uma certa imaturidade, tentando descobrir o seu verdadeiro papel no combate ao crime.

Sempre um personagem à procura de um ator, Batman se encontra em Robert Pattinson e na direção febril e musculosa de Matt Reeves. Dentro da proposta, o ator se mostrou uma escolha acertada para o papel e, The Batman, o único filme do gênero de heróis realmente digno de nota em 2022.

6) Pinóquio (Pinocchio. EUA, 2022. Dir.: Guillermo Del Toro, Mark Gustafson)

Poucos meses após o lançamento de ‘Pinóquio’ - a versão dirigida por Robert Zemeckis, no Disney Plus, Guillermo Del Toro em parceria com a Netflix e também com Mark Gustafson, com quem divide o crédito de direção, apresentaram uma adaptação do personagem cuja abordagem é mais adulta e a visão mais sombria, e que mais se aproxima da melhor adaptação feita até hoje, a de Luigi Comencini em 1972. Isto a faz, consequentemente, ficar mais próxima, em tom e fidelidade, à história original de Carlo Collodi.

A ambientação da história na Itália de Mussolini, enriquece esteticamente o filme, uma vez que o faz ser uma importante voz de resistência quanto a gravidade decadentista do fascismo. Há ainda uma maior atração pelos aspectos monstruosos, tanto nas figuras mais realistas como nas mais fantásticas, como a fada azul e sua irmã das profundezas, em um nível que o torna muito interessante para adultos, sem jamais perder o encanto infantojuvenil. A escolha pelo estilo stop motion é acertadamente incrível e consagra a animação como um dos melhores filmes do ano passado.

5) Não! Não Olhe! (NOPE. EUA, 2022. Dir.: Jordan Peele)

(Foto: Divulgação)

Após o elogiado ‘Corra!’ e o enigmático, mas menos popular ‘Nós’, o cineasta Jordan Peele em sua terceira incursão como realizador de um longa-metragem, mais uma vez fez uso do potencial do cinema de gênero para criar alegorias incitantes dentro de uma determinada abordagem de ideias, com pretensão de ir além de uma leitura simples e superficial de roteiro.

Em ‘Não! Não Olhe!’, o diretor mostra que não é refém do que deu certo e cria um espetáculo de tensão crescente, que amplifica o impacto das “revelações” no clímax da aventura. Longe dos ambientes claustrofóbicos de ‘Corra!’ e ‘Nós’, a ação aqui é grandiosa, arquitetada em locações em que o elemento humano parece minúsculo. Para além da trama central, o longa também é permeado por mitos e simbolismos dentro da própria narrativa. Sob a perspectiva de conjecturas religiosas e mensagens intrigantes, como o poder da imagem, a percepção do olhar ou a perspectiva do que é um milagre, por exemplo, Peele monta uma teia de “sinais” que vão ampliando o mistério e que, em conjunto fazem sentido para a interpretação final da narrativa.

4) Aftersun (Idem. Reino Unido – EUA, 2022. Dir.: Charlotte Wells)

Depois de ter circulado por alguns festivais pelo mundo e com estreia limitada nos cinemas brasileiros, ‘Aftersun’ foi disponibilizado no catálogo do MUBI em meados de dezembro. Nem parece, mas esse é o filme de estreia da diretora Charlotte Wells. A história, acompanha Sophie e suas reflexões sobre o passado por meio de filmagens caseiras das férias que passou com seu pai na Turquia, quando ela ainda era criança.

Apesar de correr o risco de ser engolido por um mar de filmes sobre memórias, o refino técnico de Wells e a química perfeita entre Paul Mescal e Frankie Corio fazem do longa uma maravilha que pode ser apreciada sem qualquer comparação com outras obras de temática semelhante. A diretora atribui um tom de ponderação e análise à parte dramática que conduz o público não apenas vislumbrar os acontecimentos, mas também interpretar os seus significados. Em linhas gerais, ‘Aftersun’ é um daqueles exemplos de filmes que marcam e transmitem uma sensação especial, que continua durando mesmo após o fim.

3) Argentina, 1985 (Idem. Argentina, 2022. Dir.: Santiago Mitre)

‘Argentina, 1985’ tem Ricardo Darín (óbvio) como o advogado que liderou a acusação no julgamento das juntas militares logo após o fim da ditadura. O filme tem um roteiro daqueles de dar inveja, e transborda ao mesmo tempo seriedade e humor. O filme, dirigido pelo voraz Santiago Mitre, é muito inteligente e sensível ao retratar esse acontecimento histórico com precisão absoluta e leveza e naturalidade no que é mostrado em tela. A obra de 140 minutos não opta por chocar ou sensacionalizar os ocorridos – inclusive pelos personagens tão humanos e verdadeiros como, provavelmente, foram os envolvidos reais. Filmaço!

2) Tudo, em Todo o Lugar, ao Mesmo Tempo (Everything Everywhere All at Once. EUA, 2022. Dir.: Daniel Kwan, Daniel Scheinert)

Nesta carta de amor ao cinema de gênero, Michelle Yeoh entrega uma atuação notável como a desesperançosa Evelyn Wang, dona cansada de uma lavanderia sob auditoria da Receita Federal. Ela está se preparando para uma reunião com um auditor enquanto simultaneamente tenta cozinhar para uma festa de Ano-Novo Chinês que esteja de acordo com os altos padrões de seu criterioso pai. Isso tudo, até que, inadvertidamente, ela faça uma viagem emocional, filosófica e profundamente estranha através do espelho pelo multiverso e descubra uma certa “sabedoria metafísica” ao longo do caminho.

O longa, que rapidamente se tornou sucesso de público e crítica, engloba uma variedade de assuntos, mas faz justiça a cada um deles com um roteiro cuidadosamente escrito, performances maravilhosas e uma dose saudável de humor bizarro para contrariar sua história sombria. Um filme que realmente parece abranger tudo, em todos os lugares, ao mesmo tempo e, sem dúvida, um dos melhores do último ano.

1) Top Gun: Maverick (Idem. EUA, 2022. Dir.: Joseph Kosinski)

(Foto: Divulgação)

Unindo com habilidade nostalgia e ação, ‘Top Gun: Maverick’ constrói uma sequência notável 36 anos após o primeiro filme (incluindo um atraso no lançamento devido à pandemia da covid-19). Grandioso, barulhento e até, de certo modo, emocionante, a continuação se estabelece ao combinar as melhores partes do seu antecessor com novas cenas de combate aéreo e, o mais importante, depositar todas as fichas em seu principal astro, Tom Cruise. Não é um filme perfeito, mas é perfeitamente bem executado. Incontornavelmente, ‘Top Gun: Maverick’ foi o filme evento de 2022.

A trama segue Pete Mitchell, também conhecido por “Maverick”, como um temerário piloto da Marinha cuja carreira não correspondeu às suas habilidades de voo. Devido um atrito com um almirante, Mitchell é enviado de volta para a academia Top Gun; lá ele é convocado a treinar um grupo de jovens pilotos para uma missão demasiadamente difícil. Ele tem pouquíssimo tempo para treinar seus pilotos e, além disso, precisará lidar com um conflito envolvendo Bradley "Rooster" Bradshaw (Miles Teller), filho de Goose, seu antigo parceiro de voo.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

* Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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