Quem foi Elvis Presley? O que ele representa para a geração TikTok? Apropriou-se da musicalidade negra e deixou vários artistas na miséria, ou quis uma vida melhor cantando as músicas que moviam a sua alma? Rastreando o espírito desse personagem fascinante, Baz Lurhmann apresenta seu mais novo filme: “uma ópera da cultura pop em 3 atos” como ele próprio ousou definir quando estreou ‘Elvis’ em Cannes.
A história do longa mergulha na complexa dinâmica entre Presley e seu empresário Tom Parker, que se estendeu por mais de 20 anos, desde a ascensão de Elvis à fama até seu estrelato sem precedentes, tendo como pano de fundo a evolução da paisagem cultural e a perda da inocência americana.
São necessários só alguns minutos de exibição para que a real intenção dessa obra fique clara – apresentar Elvis às novas gerações. Nos últimos anos, Elvis vem sendo jogado na fogueira sob acusações de apropriação cultural. Neste sentido, o filme logo estabelece um artista politizado e próximo tanto dos artistas e personalidades negros quanto de suas posições de enfrentamento à criminosa segregação racial dos anos 1950 na América. É possível notar que o filme revela uma versão “romantizada” de Elvis, talvez melhor do que ele jamais foi.
Comum neste tipo de obra, todas as polêmicas envolvendo o nome de Elvis Presley foram colocadas para debaixo do tapete. Além disso, o longa se aproveita de licenças poéticas para dramatizar passagens e se aprofundar no legado de músico. É um filme que celebra sua música, com uma atuação inspirada e que merece sim reconhecimento. Austin Butler está impecável no papel do rei do rock americano. Uma performance extremamente notável. As sequências musicais do ator são deveras emocionantes. Infelizmente, o roteiro não fornece muita profundidade para o seu personagem.
Há mais no Coronel Parker, empresário do cantor, já que o filme todo é contado do ponto de vista dele. Sob pesada maquiagem, Tom Hanks entrega um homem de duas facetas, que é um segundo pai, mas também um vilão. Um incentivador e abridor de portas, porém inescrupuloso e aproveitador.
Ritmo
Ainda que a performance musical de ‘Elvis’ ganhe muito mais tempo de tela e trama que as sutilezas de caráter do músico, é um filme grandioso, em todos os termos. O filme não está realmente interessado em Elvis Presley, o homem, embora dê a ele a prerrogativa de qualidades tremendamente humanas dentro do contexto melodramático do filme. Tudo está aqui, reconhecido e estilizado no ritmo inconfundível de Luhrmann, mas essa fundação humana serve apenas para apoiar uma exploração que é muito mais sobre Elvis Presley, o mito, o ícone, o símbolo.
‘Elvis’ tem questões que podemos levantar. É um filme imperfeito? Como tantos outros filmes de Baz, sim. Permeado por cansativas mudanças de cenários, existe uma falta de coesão visual e uma pressa estabelecida desde o primeiro minuto do longa. A questão é que muita coisa é ignorada por montagens bem editadas, ou um salto no tempo ressaltado por uma manchete de jornal para preencher as lacunas narrativas.
A direção de Baz, no entanto, nos “pega para dançar” freneticamente já no início do filme e não para jamais. A obra sabe muito bem usar sua duração, entretanto se torna cansativo em algumas partes, mas consegue recuperar o fôlego durante a jornada.
Entre idas e vindas, e em um espaço cada vez mais repleto de projetos com as mesmas intenções ‘Elvis’ não está exatamente dentro da caixinha habitual. Apesar de alguns problemas centrais, que devem afastar parte do público, o filme cumpre com seu papel. É empolgante, é visualmente atraente, bem dirigido e, acima de tudo, com uma atuação que eterniza Elvis Presley nos cinemas. Butler está definitivamente irretocável.
Título Original: Elvis
Estreia: 14 de julho de 2022 (Brasil)
Duração: 159 minutos
Gênero: Musical/Drama
Direção: Baz Luhrmann
Elenco: Austin Butler, Tom Hanks, Olivia DeJonge, Helen Thomson, Richard Roxburgh, Kelvin Harrison Jr, David Wenham, Kodi Smit-McPhee, Luke Bracey, Dacre Montgomery, Leon Ford, Gary Clark Jr, Yola, Natasha Bassett, Xavier Samuel, Adam Dunn, Alton Mason, Shonka Dukureh, Kate Mulvany, Gareth Davies, Charles Grounds, Josh McConville e Adam Dunn.
