Cultura

Filme ‘Moonfall: Ameaça Lunar’ abusa do direito à bobagem e passa vergonha, apesar das boas ideias

“Superprodução do diretor Roland Emmerich, o mesmo de 'Independence Day', imagina um fim do mundo em que a Lua cairá sobre a Terra”

Valter Soares de Souza Junior*
27/02/22 às 16h50
(Foto: Divulgação)

Filmes-catástrofe são aqueles programas que podem ser bons até quando são ruins: o espectador ajusta as expectativas sobre lógica, coerência e rigor científico – e sobre a qualidade da dramaturgia – para se divertir com as cenas espetaculosas de hecatombes variadas ou combinadas, até o desfecho em que, invariavelmente, algum dos protagonistas encontra uma solução para a devastação planetária e todos se cumprimentam, felizes, apesar das escoriações.

‘Moonfall: Ameaça Lunar’, a nova superprodução do diretor Roland Emmerich, o mesmo de 'Independence Day', imagina um fim do mundo em que a Lua cairá sobre a Terra. Contudo, repete uma fórmula já muito surrada e, em boa parte, inventada pelo próprio diretor há quase um quarto de século. O cineasta parece ter uma obsessão com o passado, mais especificamente com mitos de fundação e, nesse sentido, seu cinema oferece mais uma variedade de arqueologias fantasiosas do que propriamente eventos de extinção.

Na trama, um fenômeno ainda não compreendido está alterando a órbita da Lua e fazendo com que ela se aproxime rapidamente da Terra: dentro de dias, a gravidade terrestre deve despedaçar o satélite, que choverá, aos pedaços, sobre a superfície do planeta, destruindo-o – ou destruindo aquilo que já não estiver destruído pelas marés que começam a atingir dezenas de metros, a intensificação da atividade vulcânica e outros eventos cataclísmicos.

(Foto: Divulgação)

Denota-se, porém, que a sequência de abertura é um decalque barateado do início de ‘Gravidade’ de Alfonso Cuarón; o truque do astronauta caído em desgraça que tem de acertar as diferenças com uma ex-colega e amiga para salvar a humanidade está rodando por aí desde que o mundo é mundo, ou que a Lua é Lua. Estaria mais do que na hora, também, de declarar moratória ao nerd com sobrepeso como alívio cômico, mas o filme não só insiste nele como o combina a outra figura obrigatória, a do cientista que é desacreditado por profetizar uma desgraça que já está em vias de acontecer.

A verdade é que todos esses clichês são facilmente perdoados quando as cenas de ação e destruição impressionam. Aqui elas não passam do regular. E quando o filme proporciona alguma diversão de fato, o que Emmerich soube oferecer em boa quantidade em ‘O Dia Depois de Amanhã’, por exemplo, que tinha ótimas sacadas e, surpresa, não se saía mal na ciência (soa contra-intuitivo mas, sim, a elevação da temperatura global pode em tese levar a frios muito mais severos no hemisfério Norte; assunto para outra hora) a explicação para o desabamento da Lua é um vexame que, não se bastando em si mesmo, oferece um desfecho pífio.

Também é impossível ignorar a atuação medíocre de quase todo o elenco, que com exceção de Patrick Wilson, John Bradley e Michael Peña, parece perdido. Sobra até para Halle Berry, que aparece no piloto automático e se vale por performances ainda piores de colegas como Charlie Plummer e Eme Ikwuakor. E, mesmo que Emmerich capriche junto ao seu designer e ao diretor de efeitos visuais, a contradição da Inteligência Artificial desestimulante visualmente em comparação às construções humanas das megas estruturas, é uma antítese minguante, não cheia.

Inadvertidamente, no entanto, o longa promove em suas muitas rachaduras uma tendência à melancolia, por refletir uma época em que até o tema do fim do mundo nos parece ultrapassado, já que, de certa maneira, o vivemos no dia a dia. Essa melancolia pode ser constatada na esmerada escolha de cores, no belo prateado que a Lua projeta sobre um tsunami, ou no laranja da explosão de um meteorito contra o topo de uma montanha, que com razão os personagens param para assistir.

Ainda assim, apesar de algumas boas ideias, a produção padece por ser algo já visto antes, porém elevado à enésima potência. E não há como negar: a inocência desses filmes-catástrofe que tanto sucesso fizeram entre os anos 1970 e 1990 era muito mais afável. Hoje é apenas pretensiosa. E por demais enfadonha. É uma pena, portanto, que Emmerich tenha produzido um filme-catástrofe tão… catastrófico.

Título Original: Moonfall

Estreia: 3 de fevereiro de 2022 (Brasil)

Duração: 131 minutos

Gênero: Ficção científica/Ação

Direção: Roland Emmerich

Elenco: Halle Berry, Patrick Wilson, John Bradley, Charlie Plummer, Kelly Reilly, Michael Peña, Carolina Bartczak, Zayn Maloney, Ava Weiss, Hazel Nugent, Chris Sandiford, Jonathan Maxwell Silver, Eme Ikwuakor, Stephen Bogaert, Maxim Roy, Ryan Bommarito, Kathleen Fee, Donald Sutherland, Frank Schorpion.

(Foto: Arquivo pessoal)

*Válter Soares de Souza Júnior é jornalista, pesquisador e entusiasta das mídias. Cinéfilo, com aprofundamento em críticas cinematográficas pelo Espaço Itaú de Cinema. Apaixonado por música e pelos esportes. Enquanto o Timão existir, estará sempre do lado alvinegro da Força!

** Este texto é de responsabilidade do autor e não reflete, necessariamente, a opinião deste veículo de comunicação.

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