Mulherismo africana é no feminino sim. Pelo significado, pela profundidade e não meramente pela concordância gramatical. É uma sistematização do saber das mães africanas para reontologização de comunidade africana na diáspora.
O termo foi criado pela professora universitária afro-americana Clenora Hudson-Weems, com base na cultura africana e no afrocentrismo. O mulherismo africana carrega consigo as realidades e lutas, com enfoque na resistência feminina.
Historicamente, o racismo provoca efeitos devastadores na população negra e um deles, em muitos casos, é a perda da identidade. A história do povo negro foi contada pelo colonizador e foi invisibilizada, ou até apagada, desconsiderando todo conhecimento e sabedoria que trouxeram da África, incluindo sua religiosidade, seus costumes, sua cultura e suas referências ancestrais.
Muitas rainhas, princesas, sacerdotisas, mestras e tantas mulheres líderes de suas comunidades, foram sequestradas e vieram na condição de escravas. Nos porões dos navios negreiros, muitas mães, para acalmarem suas filhas do terror em que viviam, rasgavam pedaços de suas saias, trançavam e amarravam, transformando os trapos em pequenas bonecas.
Essas bonecas receberam o nome de abayomi, palavra de origem yorubá que significa “encontro precioso”. Hoje, essas bonecas são símbolo de resistência.
As mulheres africanas sempre foram emancipadas e resgatar o matriarcado em sua essência primordial é a garantia de direitos irreversíveis dos saberes e afazeres ancestrais, que são as vias dessa identidade histórica, do protagonismo da mulher negra na luta pela liberdade, por justiça e o reconhecer-se na história das grandes mães ancestrais.
É de difícil compreensão, em um país efetivamente racista, machista, misógino e sexista, como o Brasil, pensar numa sociedade matriarcal onde as grandes mulheres foram silenciadas e invisibilizadas pela histografia oficial.
O mulherismo africana é um termo importante, uma referência de uma sociedade do nutrir e cuidar, dos afetos e da sabedoria ancestral para ressignificar o presente.
Eliandra Barreto é ekeji, produtora cultural e
coordenadora do Centro Cultural Obadará Africanidade de Araçatuba