Cultura

Quem canta seus críticos espanta?

"Da mesma forma que há muita produção musical disponível na internet, também há muita análise em todos os cantos"

Eduardo Martinez - Hojemais Araçatuba 
05/05/19 às 11h00

“Crítico de música é músico frustrado”, “Como o cara pode ser crítico de música se não é músico?!”, “Não ligo para crítica, só para o público”.

Certamente você já ouviu algumas dessas frases na vida. Normalmente ditas por artistas e, muito provavelmente, depois destes se depararem com críticas negativas. Não, não estou insinuando que essa aversão à crítica musical é algum tipo de birrinha de artista. A coisa é bem mais profunda.

A crítica de arte em geral tem, primordialmente, a função de propor uma reflexão sobre o objeto de que se fala. E em tempos em que refletir sobre arte toma um status quase criminoso, o pensar sobre a obra é ainda mais importante.

Da mesma forma que há muita produção musical disponível na internet, também há muita análise em todos os cantos, e isso é muito válido. As críticas podem ajudar nessa “filtragem” do que ouvir. No entanto, quando um artista se esforça em um trabalho e é achincalhado pela crítica, colocar na cabeça dele que isso é produtivo não é tão fácil! Haja serenidade (e ego não tão inflado) para absorver positivamente.

Na história da nossa música temos muitos exemplos: Renato Russo, mesmo com o temperamento por vezes instável, entendia a função da crítica, com quem manteve uma relação saudável. Humberto Gessinger, que teve seu Engenheiros do Hawaii bastante criticado, nunca se importou.

Nos anos 90, Chorão, do Charlie Brown Jr. já não encarava isso com tanta naturalidade. Frequentemente se envolvia em brigas e discussões com jornalistas. Por fim, respondendo as máximas lá do primeiro parágrafo: crítico de música pode até ser músico frustrado, mas se ele compensar isso com conhecimento e capacidade de argumentação, tudo certo.

Não, crítico de música não precisa ser músico (um abraço, PVC); até pode ajudar, mas não é obrigatório. O foco não é meramente técnico. Por fim: não, crítica não coloca dinheiro no seu bolso. Mas já ouviu aquela frase antiga que diz: “Fale bem ou mal, mas fale de mim”? Pois é. Bora pensar?

Foto: Flávia Baxhix

 

 

Eduardo Martinez é jornalista, editor de imagens e músico. Aficionado por música, entusiasta de novidades e defensor da ideia: quem fala que não se faz mais música boa no Brasil, não procurou direito.

 

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