Num passado não tão distante, agronegócio e pecuária eram predominantemente dominados por homens. Atualmente, o protagonismo feminino vem ganhando força e como não poderia ser diferente, os negócios administrados por elas têm roupagem e desenvoltura maior.
O protagonismo feminino ganha novo destaque com a nomeação da deputada Tereza Cristina para o Ministério da Agricultura. É a segunda vez que uma mulher ocupa o cargo. Em Araçatuba (SP), porém, uma empresária do agro já é referência há anos.
Lilica Teles de Menezes Almeida é filha e neta de pecuaristas. Seu pai, Flávio Teles de Menezes, ensinou-lhe e ainda hoje a aconselha sobre os caminhos que a marca Nelore do Golias precisam seguir.
Quando o assunto é nelore, em especial a marca da família, Lilica é referência. Criada em meio a fazenda e gado, a empresária e seu marido, Fábio Almeida, ensinam os filhos a ter gosto pelo campo.
A mais nova, Isabela, 08, é a que manifesta aptidão com os animais. Eduardo, 24, o mais velho, estrutura um futuro para retornar ao campo voltado aos negócios e investimentos
.
A do meio, Manuela, 14, é voltada ao universo das artes, mas se debruça vez ou outra no preparo de algumas iguarias derivadas do leite do Nelore Golias.
O papel feminino no campo, principalmente à frente dos negócios é o tema da entrevista que o
Hojemais VIP
realizou com Lilica.
Início
Terceira filha do casal Bebeth e Flávio Teles de Menezes, Lilica sempre soube que seu destino seria o campo.
Dos irmãos, o mais velho atua no mercado financeiro e o do meio se aventurou na engenharia e desenho industrial. Em seguida, voltou para Araçatuba e hoje atua na parte imobiliária do grupo Condomínio Teles de Menezes.
Eu já sabia o que eu queria, que era trabalhar com fazenda, que não é uma coisa muito normal para mulher. Meus irmãos sempre quiseram seguir outro caminho e eu sempre passei férias na fazenda.
Desde pequena gosto de fazenda, apesar de ser paulistana. Vinha muito em feriados com ele (pai) desde 10/11 anos de idade. Com 4 ou 5 anos não saía de cima de cavalos, igual minha pequenina. Na fazenda, quem ficou fui eu. De 14 netos, na minha geração, só eu me dedico. Nasci para isso.
Depois casei com o Fábio que já é zootecnista, morava aqui e trabalhava com fazenda, é a mesma coisa. Ele é a terceira geração também. Meus avós conheciam os avós dele.
Inspiração
Tal ligação com o campo se deu pela ligação com o pai, grande mentor de seu trabalho e fonte de inspiração até os dias de hoje.
Eu sempre fui grudada com meu pai e a gente se dá muito bem; conversamos o dia inteiro e nos ajudamos muito. Minha mãe é mais da cidade.
Meu pai foi presidente da Sociedade Rural Brasileira, então sempre teve ligação com as cabeças do agro e também é um dos cabeças. Tive uma escola muito grande dentro de casa.
Atualmente nós ajudamos ele, que continua sendo o cabeça do grupo, mas tudo que precisa no dia a dia a gente toca. O Fábio na parte de genética e eu organizando as outras áreas.
Mulher no campo
Sua origem no campo não a deixa cega em relação ao preconceito que outras mulheres sentem à frente de seus negócios. Para contornar a situação e fortalecer o setor, um grupo de mulheres da Sociedade Rural Brasileira interage diariamente sobre as novidades e acontecimentos do meio rural.
Eu venho de uma família que realmente é diferente. Sempre tive incentivo dentro da minha casa, mas existe muito preconceito. Muitas mulheres falam: “quando eu herdei, o funcionário do meu pai não queria obedecer minha ordem”.
Eu cresci aqui, brincava na colônia igual minha filha brinca, não tive problemas. Então percebo que muita gente passa por dificuldade e preconceito.
Em questão de união, a mulherada no agronegócio está aí com intuito de ajudar e ser ajudada. Os homens mesmo sendo bem instruídos ou antigos, todos têm dúvidas.
Meu pai é um dos caras que mais entende do agronegócio no Brasil, mas tem muita coisa que é novidade e os mais antigos não sabem, as vezes não perguntam como nós mulheres. No caso do meu pai, ele sempre gosta de saber o que temos de novidades, mas nem todos são assim.
A mulher não tem. Então no grupo de mulher uma grande vantagem é que todo mundo tem liberdade para perguntar o que quiser sem ninguém falar: “mas você é ridícula, você não sabe isso?” Principalmente por conta do grupo, poucas pessoas são como eu que já nasceram e optaram por isso.
A geração mais nova das meninas, de 25 a 35 anos, algumas optaram por profissão, mas se pegar mulher de 50/60, ou ela separou do marido ou o pai morreu e ela teve que tocar. De repente largou uma profissão que não tem nada a ver com esse mercado e “tá lá” ralando, pesquisando, procurando informação, procurando ajuda, investindo.
Nesse ponto, a mulher vai mais atrás de informação de tecnologias novas do que o homem, o homem é muito mais tradicional no negócio.
O chamado “grupão”, reúne mais de 1.500 pecuaristas do Brasil todo e tem os subgrupos, que são menores. E tem [no Whatsapp] o grupo feminino, em torno de 50 mulheres.
O dia inteiro elas ficam mandando as novidades do mercado, mandam fotos do próprio trabalho, do que tem de novidade. É bacana, porque uma dá dica para outra. Quando você vai fazer um curso, elas combinam para ninguém ir sozinha.
A Teka Vendramini, diretora-secretária da Sociedade Rural Brasileira, é muito ligada. Eu a incentivei a entrar na sociedade, porque além da competência que ela tem, é mais fácil, por estar em São Paulo e tem mais tempo. Ela é uma das mais ativas no grupo.
Ministério da Agricultura
A nomeação da deputada Tereza Cristina como ministra da Agricultura foi um momento importante do protagonismo feminino no setor, ampliando as possibilidades e mostrando sua qualidades, avalia Lilica.
Isso foi bom tanto para o agro, quanto para as mulheres, porque ser chamada para um cargo que até então era sempre de homem, ainda mais na agricultura que é um ambiente totalmente machista, isso foi um marco.
Ela é muito competente. Acho que ganhou o espaço dela, não por ser mulher, mas por competência. Mas ela foi chamada por competência mesmo e a mulher dentro do agro hoje, agrega muito.
Família
Em meio às demandas de trabalho, o papel de mãe e esposa também caminham lado a lado.
É uma loucura, porque além de gostar de fazenda e ficar bastante, eu procuro introduzir as crianças a gostar disso. A gente organiza nossa rotina para não depender dos outros. Achamos isso muito importante.
No intervalo da tarde, eu fico ajudando as meninas. Então, se precisa ser feito algo na cidade, faço nesse período. No fim de semana, principalmente aos sábados, buscamos passar aqui para elas conhecerem o ritmo da fazenda.
Inspiração
Questionada sobre que conselho daria a nova geração de mulheres que se envolve com o universo do agronegócio, Lilica dá uma palavra de incentivo.
Não precisa ter o preconceito de achar que é um mundo masculino. O mundo hoje é muito aberto, que todo mundo acolhe todo mundo, inclusive o homem ajuda muito a mulher quando precisa. Não tem aquele ambiente machista como era e se existe ainda é muito pouco.
E ir atrás. Quando agrega outras mulheres é bacana porque tem cursos, palestras, grupos. Por exemplo, existe um grupo em Goiás que tem 200 mulheres é um grupo forte, onde elas se integram e se ajudam muito. Todo mundo abraça mais do que exclui.