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Em foco: Osni Branco

Artista araçatubense viveu durante 20 anos no Japão e revela parte de sua trajetória profissional

Hugo Rocha - Hojemais Araçatuba
02/11/19 às 17h48

No próximo dia 13 de novembro, o artista plástico araçatubense Osni Branco fará uma mostra em comemoração aos 50 anos de seu trabalho artístico. 

A exposição beneficente, que visa arrecadar fundos para a Rede Feminina de Combate ao Câncer de Araçatuba, ficará sediada na loja Matisse, na rua Bernardino de Campos, 728. 

A iniciativa surgiu após convite de Patrícia Biaggioni, que se entusiasmou com a presença do artista na Feiju 2019, evento que contou com algumas obras de Branco na decoração do espaço.  

Em entrevista ao Hojemais VIP, Osni falou sobre sua trajetória e trabalho. Confiram:

Artista plástico já realizou exposições em Mônaco, Genebra, Milão e Tóquio (Foto: Hugo Rocha)

Idade: 72 anos

Pais: Maria de Lourdes Nogueira de Sá e João Batista Branco. 

Formação: Curso de estamparia de tecido na Unesco, artes marciais na faculdade do Japão e cerâmica avançada na Universidade de São Carlos.

Um prazer: Pescar, cozinhar e comer.

Cidade: Araçatuba. Nasci na Santa Casa de Misericórdia pelas mãos do Dr. Plácido Rocha.

Razão ou emoção: Emoção. Depois de velho e terapeutizado, tento o equilíbrio. Senso intuitivo. A intuição te dá respostas antes de você raciocinar. 

O que não tolera: Pessoas grosseiras, mal-educadas.

Inspiração pessoal: Dr. Flávio Leite, Aldo Cardili, Massaoka (era meu vizinho), Sensei Mori, minha professora Maria Helena Giannini e da minha madrinha e professora Odette Costa Bodstein.

Inspiração profissional: Aldemir Martins. 

Realização: O meu trabalho. 

Um refúgio: Natureza. 

Boa lembrança: Em Araçatuba foi quando eu fiz um bloco carnavalesco. Criei um bloco desde maquiagem, figuração, na Acea (Associação Cultural e Esportiva de Araçatuba). Eu tinha 18 anos de idade e saímos vencedores. 

Depois, em 1986. Quando inaugurou uma escultura monumental naquele restaurante Olipam, no começo da Nove de Julho, na Faria Lima. Era um cedro do Líbano, todo em bronze. 

Iniciou da vocação artística: Que eu me lembro era o segundo ano primário. Teve o dia da árvore, onde plantamos um ipê no colégio Cristiano Olsen. Daí, também houve um concurso de desenho, onde produzi um ipê. 

O tema forte do meu trabalho é o ipê e tempos atrás fiquei pensando que ele é muito presente naquilo que faço. Até hoje eu me lembro do meu trabalho de ipê-roxo florido. Aquilo está interligado.

Depois eu comecei a me entusiasmar com isso. Cuidava muito de trabalhos manuais. Cheguei a produzir trabalhos para amigos. Alguém me pediu entalhes de madeira durante o período escolar, aí eu disse: “Só se você me pagar, faço”. Ai fiz pintura. Eu fui vendo a arte com a visão de possível comércio. 

Quando decidiu seguir carreira nessa área: Eu considero minha vida profissional quando eu fiz minha apresentação no Clube Paulistano, em São Paulo. Quando vendi minha primeira obra. Daí, não parei mais.

O que não pode faltar para um artista: Artista é ego centrado. Ele precisa muito ser visto e ser reconhecido. Ele vive disso. Espiritualmente, ele vive disso.

Qual trabalho mais gostou de fazer: Se eu somar todas, foi “O Equilibrista”. Esse trabalho me acompanha há 35 anos. Na época o Ibef (Instituto Brasileiro de Executivos Financeiros) me procurou e disse que tinha um prêmio, mas que sempre entregavam como recordação aos vencedores uma taça, baixela e eles queriam transformar aquilo no oscar do segmento financeiro do Brasil.

Ai o Renato Frascino, presidente da época, começou a ler a papelada e explicar sobre o trabalho deles e eu falei que eles eram equilibristas. Ele disse que eu havia matado a charada. Daí comecei a desenvolver uma escultura voltada ao equilíbrio. Então, peguei uma moeda, com um cara equilibrando com o pé direito e com o pé esquerdo a frente, com o senso intuitivo. 

Essa imagem vem premiando os homens que decidem a economia do Brasil. Produzo 10 esculturas dessa por ano. 

Quais os locais mais emblemáticos que expôs: Mônaco, Genebra, Milão e Tóquio. 

Lugar que ainda gostaria de expor: Londres. 

Japão: O sonho de ir para o Japão surgiu na infância. Naquela época de criança, ficávamos na praça que hoje se chama Joaquim Dibo, ao lado do Araçatuba Clube. A gente ficava brincando e falando para onde cada um iria um dia. Uns diziam: “Eu vou para os Estados Unidos, comprar um Cadillac rabo de peixe”, o outro queria ir para Paris. Eu precisava falar algum lugar para impressionar, então falei que queria ir para o japão, mas era influência da minha mãe. 

Minha mãe era professora das crianças que eram filhas de imigrantes japoneses e na tradição deles a professora primária é a pessoa mais reverenciada e prestigiada. Se não cuidar bem da primeira impressão que a criança vai ter na escola, ela pega trauma, por isso se dá tanto valor e atenção a esse professor. 

Por conta disso, o japonês tem essa gratidão, que é impagável. Eles ficam reverenciando os professores sempre. A minha casa era cheia de japonês. Eu cresci cercado dessa influência toda. 

Eles levaram presentes para minha mãe e eu também ganhava. Coisas como livros de pintar e colorir eram japoneses. Ao mesmo tempo que eu aprendia Saci-Pererê, eu aprendi sobre Urashima Taro (lenda japonesa). 

Experiência de 20 anos no Japão: O pragmatismo, o foco, a disciplina. A não violência. Para nós viver num país sem violência é uma coisa impensável. É muito melhor viver nessa experiência. 

Contato com a atual leva de artistas: Não. Eu vivo isolado no meu ateliê. A vida de escultor é um trabalho muito solitário. Não é um trabalho que a gente fica rodeado de gente. Você quer descansar. Pintura é mais delicado, mas escultura é pesado para quem realiza. 

Arte brasileira: O artista brasileiro tem muita criatividade. Ele é livre para criar. O ponto negativo é que ele não tem conhecimento técnico. Falta muito. Esculturas fundidas são poucos escultores que fazem. Eles não sabem fundir, não foram atrás de aprender. Poucas fundições oferecem esse serviço. 

A arte no Brasil é valorizada: Precisa ter cultura para valorizar a arte. Eu faço workshop para estudantes de escolas internacionais. Outra vezes os professores são pagos pelas escolas para virem, estudar e levar esse conhecimento artístico para os alunos. No Brasil me perguntam para que isso. 

Nas escolas lá fora, nos Estados Unidos, Japão, Austrália, Tailândia, eles capacitam os professores para irem a workshop. Isso estimula a arte desde cedo. Isso não acontece aqui. 

Arte e elite: O poder de compra te dá acesso a vários ambientes. Você pode ir num teatro, cinema, restaurante porque tem dinheiro, ainda que não tenha cultura. O que tem dinheiro, mas não tem cultura, vai em vários lugares onde tem gente com dinheiro e cultura, com isso ele vai ouvir várias pessoas com conhecimento superior de cultura. Para se sentir enturmado, ele passa a comprar arte também.

Quando um comprador não tem cultura, ela chega e pergunta quanto tempo você leva para fazer um sumiê. As pessoas, para entenderem isso, valorizarem essa peça única, têm que ter um nível cultural maior.

Dica para quem quer seguir a carreira: Tem que ouvir o seu coração. Se seu coração pede isso, viva disso. Prepare-se e enfrente. Não vai ser fácil, mas vai ser gratificante.

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