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Michel Temer fala com exclusividade sobre rotina fora da presidência

Em entrevista ao Hojemais Araçatuba, ex-presidente fala sobre suas atividades longe de Brasília

Hugo Rocha - Hojemais Araçatuba
12/03/19 às 18h00

Durante os anos à frente da presidência, Michel Temer concendeu dezenas de entrevistas; ora apresentando as reformas propostas por seu governo, ora para esclarecer situações e acusações. 

No dia a dia, Michel Miguel Elias Temer Lulia, 78, nascido em Tietê (SP) em 1940, preza pela privacidade e não é fã do personalismo, como ele mesmo afirma. Esse fato atrasou seu retrato oficial em mais de um ano. Quando o fez, abandonou o adereço simbólico que remete ao poder: a faixa presidencial.

Agora, passados mais de dois meses distante da presidência, ele pode optar pela discrição e evita entrevistas e exposição; na mais recente tentativa da imprensa para que ele comentasse um ato do atual presidente, ele negou se expor.

A exceção de uma entrevista foi feita ao Hojemais Araçatuba , que foi recebido pelo ex-presidente em seu escritório de advocacia, em São Paulo, no dia 25 de fevereiro. Na pauta, os dias de Michel Temer longe de Brasília.

Na presença do publicitário e amigo Elsinho Mouco, que prepara uma série sobre sua atuação política, Temer sente-se à vontade para comentar algumas particularidades da vida e o que espera dos jovens no futuro.

Conhecedor dos meandros da capital do País, ele sente falta apenas do clima quente e seco de Brasília. O ritmo de trabalho no Planalto foi suficiente para não deixar saudades.

Rotina presidencial

Olha, a rotina de um presidente é pesada. Eu confesso a você que eu trabalhava, digamos, das 8h até a 0h, diariamente. Não havia rotina, porque os casos também se renovavam, não só no plano nacional, mas no plano internacional.

O presidente da República tem preocupações de natureza política e de natureza administrativa interna e de natureza internacional. E eu tinha uma presença internacional muito acentuada.

Digo a você, não há rotina no cargo de presidente da República.

Pós-presidência

Nos primeiros meses que segue distante de Brasília e com uma rotina mais sóbria, o ex-presidente limita-se a receber visitas de amigos do meio jurídico e políticos. O reconhecimento ao trabalho no período da presidência e a tranquilidade da nova rotina são aprovadas por Temer.

[Os dias] Têm sido extremamente tranquilos e de muito reconhecimento. Você sabe que tenho tido a presença de muitas visitas, não só de Brasília, como de pessoas daqui de São Paulo, especialmente da minha área, a jurídica.

Interessante que tenho tido em todos os momentos, em todos os encontros, tenho recebido as melhores palavras de referências em relação a nossa presidência.

Então tem sido muito tranquilo. Na verdade, penso, que tirei algumas toneladas do ombro e, portanto, volto a dizer que tem sido de muita tranquilidade e de muita felicidade pessoal.

Lazer

A leitura voltou a reinar nas horas vagas do ex-presidente, que confessou assistir algumas séries e documentários numa plataforma de streaming. Disse também que pratica caminhadas semanalmente.

Eu tenho o hábito da leitura e retomei esse hábito fortemente. Aliás, antes de ontem eu acabei de ler uma trilogia do Mia Couto, que é um autor moçambicano, muito interessante, porque trata da dominação portuguesa na África no século 19.

Segundo ponto. Estou lendo um livro do Simon [Sebag] Montefiore, que escreveu a vida de Stalin e agora escreveu sobre a vida da Catarina da Rússia e o Ponteguim (Catarina, a Grande, & Potemkin: Uma história de amor na corte Románov). Interessante porque é dos dois.

Estou lendo também um livro sobre o Barão do Rio Branco. Chama-se Juca Paranhos, o Barão de Rio Branco.

E tenho visto séries na televisão (risos). Uma sobre a Segunda Guerra Mundial, que é um documentário fantástico. Outro documentário fantástico é a Guerra do Vietnã. E outras tantas séries, umas até mais leves como, por exemplo, La Casa de Papel, que é produção espanhola, muito interessante.

Ao mesmo tempo, tenho encontrado amigos e conversado muito.

[Na questão de esportes] eu caminho. Única coisa que eu faço. Faço pelo menos três vezes por semana.

Populismo

Sempre ligado ao meio jurídico, Temer foi figura discreta em campanhas e atos políticos no decorrer de sua atuação.

Eu realmente sempre fui muito discreto. Nunca tive vocação, digamos assim, para carro alegórico. E as medidas populistas muitas vezes transformam o sujeito num carro alegórico. Eu nunca fui dado a isso.

Eu tomei medidas que, em tese, não eram populistas, mas que visavam o futuro e visando o futuro elas começaram a dar resultados. Você veja as grandes reformas que fizemos; o teto dos gastos públicos, que é uma coisa fundamental, ao fundamento de que você só pode gastar aquilo que você ganha. No Estado também é assim, você pode gastar aquilo que arrecada.

Veja a modernização trabalhista, a modernização do ensino médio, a recuperação das estatais que davam prejuízo e passaram a dar lucro no meu período. Para dizer muito rapidamente sobre aquilo que nós fizemos.

Sempre com muita discrição, nunca exagerei nas atividades governamentais, mesmo quando se tratasse, como fiz acentuadamente, as chamadas atividades voltadas para a responsabilidade social, como o Bolsa Família, o Fies, o Programa Progredir, o Criança Feliz.

E essa discrição sempre me agradou e é uma discrição que eu mantenho precisamente neste momento. Aliás, eu dou essa entrevista em homenagem a você e aos leitores da região de Araçatuba, que eu conheço muito bem.

Faixa Presidencial

O adereço que simboliza o poder do presidente no Brasil só foi utilizado por Temer uma única vez.

O fato de eu ter postergado a foto, é que na minha cabeça sempre a foto era uma coisa um pouco personalista demais. Mas ao longo do tempo, passado mais de um ano após minha presidência, as pessoas insistiram muito. Pediram a foto.

E eu até tirei foto sem faixa. Vou ser franco a você, eu vejo a posse do presidente dos Estados Unidos, do presidente da França e dos países europeus, ninguém coloca faixa não. Faixa é aqui nos nossos países latino-americanos.

Eu nunca pus faixa. Confesso que só a coloquei para transmiti-lo ao presidente eleito Jair Bolsonaro. Então a razão foi essa. Acho que toda e qualquer personalismo exagerado não ajuda, prejudica.

Presidência

Questionado se sente saudade da Presidência, Michel Temer esclarece que seu compromisso se encerrou no dia 31 de dezembro de 2018.

Eu sou muito de cumprir um papel, enquanto o papel existe. Quando aquele papel já foi cumprido, eu retiro da minha cabeça. É como se não tivesse se verificado esse trabalho.

Então eu exerci o papel de presidente da República, mas assim que saí, fiquei afastado de qualquer tentativa de saudade dos tempos da Presidência.

Michel Temer e sua esposa, Marcela Temer, no período que residiam em Brasília (Foto: Divulgação/Palácio do Planalto)

Brasília

Da relação com a cidade que o recebeu a trabalho desde 1987, o agora ex-presidente sente saudade do clima e faz boas referências à capital do País.

Eu acho que é uma cidade, primeiro de um clima que me agradava muito, um clima até mais seco, convenhamos, e eu me dava muito bem com ele, embora muita gente reclamasse.

Segundo ponto, sempre foi um local de trabalho. Eu passei praticamente de 1987 até o ano passado em Brasília, mas acentuadamente durante a vice-Presidência e a Presidência, quando praticamente morei em Brasília.

Antes eu ia e voltava nos finais de semana. E o ambiente é um ambiente de trabalho, para mim sempre foi agradável estar em Brasília, não tenho queixa nenhuma. Pelo contrário, acho que é uma cidade muito agradável, inclusive para se morar.

Poemas

Autor do livro de poesias “Anônima Intimidade”, Temer retomou o ritmo de produção literária.

Uma ou outra coisa muito rápida. Não havia espaço mental para se dedicar à poesia. Porque a poesia depende muito de uma certa tranquilidade mental. Você capta certas coisas e escreve imediatamente.

Ora bem, lá eu não tinha espaço mental para isso, mas agora estou retomando a atividade literária.

Referências

Eu leio tudo. Você sabe que há muito tempo eu conto uma história de que esse meu hábito da leitura começou muito cedo, quando eu estava no ginásio lá em Tietê, que eu lia os autores nacionais, Machado de Assis, José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, depois lia os poetas todos, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Fagundes Varela.

Agora os atuais, passando pelos 100 anos de Solidão, do Gabriel Garcia Marques. Pelo Mia Couto, que acabei de mencionar, enfim, dezenas de autores, o Simon Montefiore. Seria infindável o número de autores que deveria mencionar.

Memórias

O Elsinho Mouco [presente durante a entrevista] está gravando um documentário. Já gravamos 16 ou 17 horas. Estamos naturalmente fazendo revisão agora, mas é um histórico de toda minha gestão e, ao fazer o histórico da minha gestão, também vou trazendo coisas do meu passado, da infância, do tempo da escola em Tietê, minha cidade.

Do tempo que fiz academia no Largo São Francisco e de toda atividade que fiz ao longo do tempo. Especialmente combatendo certas tramas que se verificaram naquele período, com vistas até, convenhamos, para me derrubar do governo. E não conseguiram.

Carreira política

Eu fiz política estudantil. Quando estudava direito na Faculdade de Direito do Largo São Francisco, eu fui candidato a segundo tesoureiro do Centro Acadêmico 11 de Agosto, que era o cargo que cabia aos calouros. E fui eleito.

Depois fiz política até ser candidato à presidência do 11 de Agosto, mas depois eu me dediquei à vida profissional quando me formei. Voltei à política quando o governador Franco Montoro me designou como procurador-geral do Estado, em 1983, e daí em seguida, nove meses depois, me indicou como secretário da Segurança Pública.

Tendo eu tido um razoável sucesso como secretário da Segurança, um dia o governador me disse: “Você poderia se candidatar como deputado federal da assembleia constituinte” e foi alí que a vida política começou.

Direto

Eu fiz a faculdade de direito no Largo do São Francisco. Fui procurador do Estado, prestei concurso para o cargo. Advogava e ao mesmo tempo fiz carreira universitária. Fiz doutoramento na PUC de São Paulo. A partir daí eu dava aulas na PUC e na Faculdade de Direito de Itu. Isso desde 1968/1969.

Adolescência

[Na] adolescência, antes de entrar na faculdade, fiquei uma parte em Tietê. Fiz até o primeiro ano do colegial lá e depois vim fazer aqui, em São Paulo, o curso clássico.

Eu tinha encantamento com São Paulo, confesso, e foi um verdadeiro encontro com a vida quando eu pude vir a São Paulo. Começou a minha formação mais social, mais política mesmo quando cheguei aqui.

Pai

Graças a Deus eu tenho cinco filhos e todos eles dão-se muito bem comigo. E eu me dedico muito a eles. Tento transmitir um pouco de exemplo.

Nem sempre o exemplo é captado, mas eu acho que no caso particular de meus filhos ele vem sendo absorvido com muita tranquilidade.

Jovens

Cada tempo tem o seu tempo. Hoje o tempo é muito ligado às redes sociais, a internet. Eu tenho um filho de 10 anos [Michelzinho]. Eu vejo como ele se conecta com colegas, com amigos, por meio da internet.

E hoje o que eles sabem, esses jovens sabem, estou falando de alguém de 10 anos, mas posso falar de alguém de 25, 26, 28 anos que está na vida do setor financeiro, ou no setor empresarial. É incrível a capacidade de pensamento e de ação da juventude.

Porque esse tempo, não é o meu. E meu tempo não era o tempo da internet. Como aliás, você é exemplo, com 24 anos está entrevistando um ex-presidente da República.

Conselho aos jovens

Instigado a orientar os jovens que queiram se dedicar ao cenário político, Michel Temer elenca pilares básicos para uma boa jornada política.

Devem participar da vida pública. Acho importantíssimo. E pautar-se naturalmente, vou dizer uma obviedade, pelos critérios éticos, morais e pelo critério do conhecimento.

Porque é importante que o jovem ao examinar um dado tema, uma dada matéria, se aprofunde nela. Que não fique na superficialidade. Porque muitas e muitas vezes, é exatamente ficar na superfície que passa uma má informação. Uma má formação e uma má informação.

Evidentemente, cuidar da sua vida profissional. Porque eu entrei na vida pública quando já tinha 42 anos, quando fui nomeado procurador-geral do Estado e depois secretário de Segurança Pública.

Então, primeiro, cuidar da sua profissão. Não dá pra começar logo pensando na vida pública. É preciso uma formatação digamos profissional, intelectual, para depois cuidar da vida pública.

Michel Temer recebeu o Hojemais Araçatuba em seu escritório, em São Paulo (Foto: Hojemais Araçatuba)
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