Opinião

A farsa da meritocracia

"Meritocracia no modelo atual não passa de uma ilusão, pois o sistema vigente torna injusto e até inalcançável para os pobres e para a classe média chegar à elite"

Adelmo Pinho
18/10/22 às 10h05

A palavra meritocracia foi apresentada pelo sociólogo britânico Michael Young na sátira social The Rise of the Meritocracy (A ascensão da meritocracia), de 1958. Joseph Stiglitz é um liberal e estudioso sobre a desigualdade social, Prêmio Nobel de Economia em 2001.

Sobre a meritocracia, fez a seguinte consideração: “90% dos meninos nascidos em lares pobres morrem pobres, não importa quão capazes sejam. Mais de 90% dos meninos nascidos em lares ricos morrem ricos, não importa o quão estúpidos sejam. Portanto, mérito não é um valor”.

A meritocracia surgiu como uma alternativa para substituir a aristocracia, que formava uma elite hereditária, sem considerar o mérito. A meritocracia, em princípio, promoveria a igualdade
e a oportunidade de acesso à elite a pessoas comuns, através de muito trabalho, talento ou competência.

Mas, para muitos estudiosos, dentre eles, Daniel Markovits, autor do livro “A Cilada da Meritocracia”, professor de direito em Yale (Estados Unidos), a meritocracia é uma farsa, que não promove a igualdade de acesso às pessoas comuns à boa educação e ao bom trabalho.

Analisando em específico a sociedade norte-americana, Markovits atribui à meritocracia como a principal responsável pelo aumento da desigualdade nos Estados Unidos. Em “A Cilada da
Meritocracia”, Markovits explica: “Mas a meritocracia já não funciona como promete. Hoje em dia, as crianças da classe média perdem para as crianças ricas na escola, e os adultos de classe média perdem para a elite de formação superior no trabalho. A meritocracia bloqueia as oportunidades para a classe média. E, com isso, culpa aqueles que perdem a competição por renda e status – competição que, mesmo quando todos fazem tudo certo, só os ricos podem ganhar”.

E continua: “a meritocracia também prejudica a elite. A escolarização meritocrática exige que pais ricos invistam milhares de horas e milhões de dólares para dar a seus filhos uma educação de elite. E os empregos meritocráticos exigem que os adultos de elite trabalhem com uma intensidade esmagadora, explorando sem piedade a educação que receberam para extrair dela o retorno do investimento”.

A meritocracia, segundo Markovits, “oprime a classe média e explora a elite”. O mérito, assim, tornou-se um mito. Para ele, a desigualdade meritocrática e social, por consequência, divide a sociedade norte-americana em inúteis – classe média – e esgotados – a elite ou os ricos, tornando o mérito um conceito ideológico para embasar a distribuição injusta de privilégios a uma minoria (ricos).

Markovits propõe como solução: educação inclusiva e aberta – para todos e não só para a elite; o trabalho deve ser distribuído amplamente para a classe média; incentivo fiscal aos empregadores de pessoas semiqualificadas, e a alteração no sistema de admissão de alunos nas melhores universidades, que atualmente privilegia alunos da elite.

Enfim, meritocracia no modelo atual não passa de uma ilusão, pois o sistema vigente torna injusto e até inalcançável para os pobres e para a classe média chegar à elite. Esta, por sua vez, vê-se esgotada para se manter no topo da pirâmide econômica.

Foto: Arquivo

 

 

 

Adelmo Pinho é promotor de Justiça do Tribunal do Júri em Araçatuba 

 

 

 

 

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